Discriminação religiosa disfarçada?

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José Brissos-Lino

 

Segundo o jornal Público “uma família cigana foi impedida de enterrar um familiar no cemitério local e acusa a autarquia de discriminação. O caso aconteceu na Freguesia de Cabeça Gorda, no concelho de Beja, e a advogada da família defende que a decisão não só é inconstitucional, como é ‘um caso de evidente exclusão social”.

A autarquia terá alegado que o enterro foi recusado pelo facto de José António Garcia, que também era pastor da Igreja Evangélica de Filadélfia, de 55 anos, não ser natural ou residente na freguesia.

De acordo com o testemunho dum familiar do falecido, o argumento para a recusa da autarquia foi que o corpo deveria ser enterrado em Pias, onde morreu, ou em Mértola, a sua terra de nascimento. Porém, Prudêncio Canhoto, o mediador cigano da câmara de Beja, afirma que “o falecido estava casado com uma senhora da Cabeça Gorda e que residia há quase dois anos nesta localidade”. Além disso o indivíduo era morador recenseado naquela freguesia.

Como seria de esperar tanto a família do falecido com a comunidade cigana de Beja ficaram revoltadas, tendo interposto uma acção judicial contra o presidente da Junta de Freguesia da Cabeça Gorda e solicitado a intervenção do Alto Comissariado para as Migrações.

O argumento peregrino de Álvaro Nobre, o presidente da Junta, foi que o “falecido passava a maior parte do seu tempo noutras freguesias vizinhas”. Mas tanto a Associação Nacional dos Mediadores Ciganos como outras que repudiaram a atitude prepotente do autarca perguntam se “às pessoas não ciganas de Cabeça Gorda que, por questões laborais, passam a maior parte do seu tempo fora da freguesia” o critério do autarca seria o mesmo.

Este conjunto de associações emitiu um comunicado onde considera que o autarca revelou “um desrespeito moral e físico pelo cidadão falecido e sua família, além de ser claro estarmos perante um acto de discriminação racial”. Consideram ainda ter havido uma notória violação da lei, pelo que anunciaram a intenção de recorrer às instituições democráticas e judiciais com vista à obtenção de justiça e à punição do autarca.

Mas não parece que devam recorrer apenas à ministra de Administração Interna, ao ministro-adjunto Eduardo Cabrita, através da secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade e Alto Comissariado para as Migrações, ao Comité Central do PCP e aos partidos da coligação CDU, como terão feito. Também deviam recorrer à Comissão de Liberdade Religiosa, que funciona no ministério da Justiça, pois, embora não seja citado, tudo leva a crer que haverá aqui igualmente uma questão de discriminação religiosa, uma vez que o falecido era pastor evangélico.

Alguém acredita que se se tratasse dum padre o presidente da Junta negaria o enterro na sua freguesia?

 

 

 

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A actualidade de Miqueias

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Valdir Steuernagel

Em uma declaração recente, intitulada “Por um país mais justo e verdadeiro”, a Aliança Cristã Evangélica Brasileira procurou retratar o momento que vivemos como nação brasileira dizendo que “Há um manto de tristeza que cobre o nosso país nestes últimos tempos. Tristeza que é fruto do descalabro político que nos assola e que emana dos níveis maiores da nossa República. Estamos estarrecidos junto com a nação ao vermos estruturas de corrupção e de apropriação de recursos públicos sendo sistematicamente reveladas em valores inimagináveis e com vergonhosa naturalidade. A população brasileira está cansada, irada e inconformada com tantos desmandos, tanta exploração e tanta falta de vergonha e de compromisso com o outro e com a própria sociedade.”

Não é fácil encontrar entre nós quem não tenha sido afetado pela desgraça dessa situação e quem tenha alguma esperança quanto à possibilidade de reformas que brotem do nosso corrompido arcabouço político, ainda que qualquer solução que não caminhe dentro dos marcos democráticos e constitucionais deva ser fortemente repelida.

Nesta hora de nuvens e lamento em nossa sociedade o povo de Deus volta-se a Ele em clamor por conversão, misericórdia e justiça. E volta à Palavra que Deus nos legou e que é, sempre novamente, fonte de consolo, denúncia, misericórdia e esperança, mesmo que nem sempre estas palavras caminhem juntas e ou em sequência. Aliás, como se pode dizer que o povo de Deus volta-se a Ele em oração e em escuta, se esse mesmo povo não se distingue de todos os demais e muitos dos seus líderes parecem jogar o mesmo jogo de favores e privilégios? Por isso, neste momento, o único jeito de se voltar a Deus é em conversão e arrependimento.

Convém lembrar que a Palavra de Deus fala contra nós e denuncia toda injustiça, maldade e idolatria tão presentes em nós e entre nós. Ela é também uma palavra de esperança, que se concretiza como fruto do arrependimento e da conversão. Abrir a Palavra de Deus, neste momento, nos conduz ao encontro dos profetas de Deus. Dentre eles, ouçamos o que diz Miquéias, um profeta que vem do interior de Judá, na segunda metade do século VIII a.C.

“Ouçam o que diz o Senhor” (Mq 6:1)
Miqueias convoca o seu povo a ouvir, confrontando-os com uma palavra de acusação, apresentando-lhes o julgamento de Deus e finalizando esse chamado, em diferentes momentos, com uma palavra de promessa e de bênção.

Ele fala com força e franqueza, e chama o povo ao arrependimento, dizendo-lhes que não há outro caminho e é sempre melhor ouvir quando Deus fala. Miquéias diz que Deus se importa com a maneira como estamos vivendo, com os relacionamentos que estabelecemos e com a expressão de nossa espiritualidade. É uma palavra contra nós porque mostra o amor de Deus por nós. É uma mensagem que vem do amor e exige amor.

Não é fácil escutar Miquéias, pois sua palavra é dura e forte. Basta olhar para o capítulo 6. Aqui ele é a voz do Senhor que clama à cidade com uma pergunta que denuncia:

Não há, na casa do ímpio,
o tesouro da impiedade
e a medida falsificada, que é maldita?
Poderia alguém ser puro
com balanças desonestas
e pesos falsos?
Os ricos que vivem entre vocês
são violentos;
o seu povo é mentiroso
e as suas línguas falam enganosamente. (v. 10-12)

Ele, também denuncia qualquer intento de comprar a Deus em meio aos procedimentos injustos e o faz numa linguagem de sacrifício entendível em sua época:

Deveria oferecer holocaustos
de bezerros de um ano?
Ficaria o Senhor satisfeito
com milhares de carneiros,
com dez mil ribeiros de azeite?
Devo oferecer o meu filho mais velho
por causa da minha transgressão,
o fruto do meu corpo
por causa do pecado que eu cometi? (v. 6-7)

Essas duas denúncias devem ser trazidas para dentro da nossa cotidiana realidade – uma realidade que pratica a injustiça com “balanças desonestas e pesos falsos”, usando linguagem parabólica, onde reina iniquidade e onde poucos têm muito e exploram os que têm muito pouco, do que testifica a revelação de sistemáticos desvios de recursos públicos para as contas correntes de poucos. O triste é que essas balanças e contas também podem pertencer a nomes que nos domingos prestam culto em nossas igrejas, onde são reverenciados.

Noutro momento são denunciadas as diversas e insistentes tentativas de comprar a Deus com as mais variadas ofertas, dissimulando a prática da injustiça, da exploração e da mentira. Deus, porém, não cai em nossas tentativas de manipulação religiosa, mas as repele radicalmente; e assim nós mesmos nos colocamos sob o seu juízo. O profeta aponta para outro caminho:

Ele mostrou a você, ó homem,
o que é bom
e o que o Senhor exige:
pratique a justiça, ame a fidelidade
e ande humildemente com o seu Deus. (v. 8)

Praticar a justiça, amar a fidelidade e andar humildemente com Deus é o que se espera de nós. E nós sabemos o que isso significa. O problema é que não o queremos. Desculpe terminar assim, mas o fato é que não queremos nos converter e ainda achamos que se continuarmos oferecendo a Deus as nossas práticas religiosas Ele irá aceitá-las. Mas Ele não vai. Então é preciso dizer: “Ai daqueles que planejam a maldade!”.

Valdir Steuernagel é pastor na Comunidade do Redentor, em Curitiba, PR. É colunista da revista Ultimato e faz parte da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, da Aliança Cristã Evangélica Mundial e da Visão Mundial.
Fonte: Ultimato.

Terra(s) de Sefarad – Bragança 2017 e a herança judaica

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Paulo Mendes Pinto

 

Entre 15 e 18 de Junho, em Bragança procura-se fazer o reencontro com a memória, que é um trabalho de busca e de redescoberta de uma identidade que, enquanto colectivo, nos foi roubada

 

Podíamos remeter o nosso pensamento para o ano de 1536, ano da instalação da Inquisição em Portugal. Mas poderia ser 1532, ano em que Portugal fora sacudido por mais um sismo, o acontecimento lido como sobrenatural e que dera o último fôlego, a última força ao desejo de instalar em Portugal esse tribunal religioso. Parafraseando Rui Zink, esse cataclismo viera “Instalar o Medo”, num quadro onde ele já grassava há mais de dois séculos. Agora estava montado como forma de gerir o quotidiano.

De facto, não sei como fazer nem como pontear uma genealogia do medo em Portugal. Mas ela foge a todas as racionalidades, tal como hoje. Temos excepcionais condições de segurança, de sociedade, mas vivemos enclausurados num qualquer jornal sensacionalista que nos cria um mundo pleno de violações, de homicídios, de pais que molestam filhas, entre tantas outras barbáries, fazendo com que os nossos mais idosos ou mais sugestionáveis percepcionem um mundo onde essa narrativa se torna mesmo verdade, apesar de a realidade afirmar o oposto.

Tanto é assim agora, como o era em 1532. Os judeus eram o bode-expiatório normal, comum numa cultura onde o popular, no seu sentido mais negativo, era a tónica comum. Já em 1506 uma pregação inflamada de um frade fizera com que morressem umas 4000 pessoas em Lisboa. Nesse ano de 1532 morrerão mais, em várias cidades onde as hordas, inflamadas por pregações radicais, saíram pelas ruas matando quem fosse visto como cristão-novo ou cripto-judeu. A lógica era a mais pré-cartesiana que possamos conceber, sem justificação lógica ou simples sentido humanista, sem qualquer patamar de crítica.

E foi neste quadro mental que se passaram os 300 anos seguintes, uma forma de estar que se afirmou como forma de ser, onde a calúnia se tornou inteligência social, onde a denúncia maldosa se afirmou como instrumento de sobrevivência, onde a acusação que levava à morte foi banal como ferramenta de acerto de contas.

Os cristãos-novos, os cripto-judeus, foram o grande alvo desta forma doentia de ser comunidade que os vários pedidos de perdão não destroem. Sim, Mário Soares fez esse gesto nobre e digno de pedir perdão pela perseguição aos judeus. O Patriarca de Lisboa seguiu os seus passos. Mas a cultura popular, o quadro das mentalidades, essa ficou, e prospera neste cadinho de medos e verdades feitas de que é montada toda uma realidade de fake news onde parte da nossa população vive alheada dos verdadeiros problemas do seu mundo.

Nestes dias, entre 15 e 18 de Junho, em Bragança, o Terra(s) de Sefarad procura fazer este trabalho de reencontro com a memória, que é um trabalho de busca e de redescoberta de uma identidade que, enquanto colectivo, nos foi roubada; um direito a uma herança que foi escondida, obliterada, escamoteada e que, hoje, percebemos ser uma imensa realidade a que não podemos, nem devemos, fugir.

Em pleno Renascimento, com o impulso formidável dos Descobrimentos, conseguimos nagar o direito à liberdade religiosa aos judeus portugueses, primeiro, e depois convertê-los à fora ao cristianismo e, por fim, perseguir os que, não querendo ser cristãos, eram acusados de ser ainda “judaizantes”. Destes, muitos morreram, outros esconderam-se, e grande parte deles fugiu.

Eram portugueses que apenas tinham como marca distintiva o facto de terem outra religião. E “apenas” porque eram os mais cultos, os mais alfabetizados, os mais conhecedores nos campos das várias ciências da época. Foram estes, os nossos melhores, que perseguimos, definindo uma mediania, que é uma mediocridade, que ainda hoje nos persegue nas taxas de sucesso escolar e nos níveis culturais.

Conseguir, após estes séculos, regressar à temática sefardita, numa das cidades mais emblemáticas para este tema, é imagem de uma imensa coragem e de uma ainda maior visão da autarquia de Bragança.

Hoje, praticamente não há judeus em Bragança. No início do século XX, durante a I República, ainda se organiza uma comunidade de cidadãos brigantinos que, em liberdade, regressa à fé dos seus antepassados que tinham de manter escondida entre as paredes da privacidade.

Mas, seja pelo que o estudo do ADN já nos mostrou, seja pela cultura, seja pelo cosmopolitismo que marca a cultura judaica sefardita, hoje somos todos Terra(s) de Sefarad. Somos todos essa herança ligada à inovação, ao crescimento, à luta pela cultura e pela qualidade que marcou as comunidades de portugueses judeus.

Vivemos tempos marcantes em que a Liberdade Religiosa nos permite, em consciência, olhar para o passado e ver como ele nos pode ajudar na cidadania do futuro. Não só o diálogo e o respeito deve ser cada vez mais a norma, como a diferença precisa de ser valorizada como um património e uma riqueza que é de todos; dos judeus, mas também dos cristãos, dos ateus, entre tantos outros que hoje, como pessoas de boa vontade, procuram as ferramentas para uma cidadania consciente.

Fonte: Público.

A identidade do altar

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© João Tomaz Parreira

 

No monte Carmelo, os profetas de Baal, ao pretenderem responder ao desafio de Elias, por assim dizer, forjaram um «avivamento». Eles clamavam em altas vozes, eles saltavam, eles profetizavam. No entanto, até os críticos modernos do Movimento Pentecostal admitem que eles não falaram em línguas estranhas e que, apesar de todo o barulho, o seu movimento «espiritual» era falso.

Todos sabemos que os 450 profetas de Baal estavam apenas a procurar responder ao confronto com o profeta de Deus, que não estavam à procura de nenhum «pentecostes» ou avivamento; mas procurariam, na sua tradição cananeia, amonita, com influências remotamente egípcias, apelar às suas divindades pelo espectáculo da voz e do corpo e de sacríficios inflingidos ao corpo.

Ao contrário, Elias estava a demarcar o terreno, para além da linha plausível e humana, a fim de que um genuíno avivamento espiritual viesse a Israel. O que Elias estava a fazer era simbólico, por um lado, e, por outro, era a preparação institucional do reatamento da ligação de Israel com Jeová.

Pedagogicamente, ao povo de Deus estava a faltar a doutrina, desde o rei Acabe aos seus súbditos, que «haviam deixado os mandamentos do Senhor, seguindo os baalins»             (I Rs.18,18). Com efeito, tornava-se necessário reaprender a Quem seguir, e para tal Elias não hesitou em colocar o povo no meio de um conflito prático e vital.

A necessidade de um avivamento revelava-se, do ponto de vista espiritual e da comunhão com Deus, pela incerteza que estruturava os seus pensamentos religiosos, pela atitude não assumida, por falta de coragem religiosa, de estar hesitante entre dois pensamentos, isto é, entre dois sistemas confessionais. «Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o.» A clareza e o pragmatismo de tal desafio era simples.

O historiador Flávio Josefo tem um modo literário-teológico de narrar este evento, que nos coloca muito como testemunhas no centro do mesmo: «Até quando vosso espírito ficará hesitando, na incerteza do partido que deveis tomar? Se credes que o nosso Deus é o Deus eterno, único, por que não vos dedicais inteiramente a Ele? (…) Se credes, ao contrário, que são esses deuses estrangeiros, que deveis adorar, por que não os tomais por vossos deuses?»

O espectáculo do “avivamento” 

Fazia parte da adoração religiosa pagã da região, ao que parece também nas imediações do Monte Carmelo, conforme antigos relatos, que os adoradores ficassem «possuídos» pelo deus, falassem uma linguagem extática e utilizassem as profecias orgiásticas, como sucedia nos sacrifícios ao deus Amon, na costa siro-palestiniana, por volta do ano 1.100 a.C. Desta época, existe um relatório de um oficial egípcio, Wen-Amon, que narra o seguinte: «Então, quando sacrificavam aos seus deuses… o deus apoderou-se de um dos nobres jovens, tornando-o frenético e esteve possesso toda a noite, falando em nome do deus.»

Não é difícil visualizar a cena dos profetas de Baal e de Aserá, a tal ponto a narrativa bíblica apresenta o sentimento gerado pelo espectáculo, pelo vistos tradicional e «revivalista». O próprio profeta Elias, homem circunspecto e afeito à seriedade das palavras de Deus, não pôde deixar de ironizar com o que seus olhos contemplavam. Era um espectáculo de frenesi, risível e deprimente.

O que culminou num vazio quanto à «resposta» de Baal, foram inacabáveis e longuíssimas horas de insistência, mas a verdade é que «não houve voz, nem resposta, nem atenção alguma.»( I Rs.18,29)

O altar do avivamento

Conhecemos pouco das estruturas materiais dos altares, sobretudo os falsos, que o Velho Testamento descreve, conhecemos melhor a matéria, o significado e o conceito, daqueles que serviam o culto verdadeiro ao Senhor. Deveriam ser de pedra ou terra, significavam a comemoração de algum acontecimento em que interviera Jeová, queriam dizer lugar de sacrifício, e o seu conceito genericamente era o da simplicidade.

De facto, a primeira perspectiva que temos sobre o altar do avivamento, é a da sua simplicidade. Doze pedras – doze tribos apesar do reino dividido – foram o número exacto, porque eram a medida estruturante da unidade.

As pedras eram simples, não lavradas, eram as pedras toscas, retiradas do ambiente natural comum, mas pedras de que Deus se serviria, naquele momento. Para realçar a servidão das mesmas, o texto sagrado afirma que o «fogo do Senhor consumiu as pedras» (18,38). Pedras queimadas pelo fogo, como material combustível, para reforçar, naquela circunstância, que só o Senhor é Deus, pedras utilizadas para a obra de Deus anonimamente, não pedras glorificadas.

Do mesmo modo, um Avivamento é para benefício da obra geral do Senhor, para expansão e aprofundamento do Reino de Deus e não para a exaltação de pessoas.

A segunda perspectiva é a do altar restaurado, o que quer dizer que houve um passado de intensa adoração, de ortodoxia espiritual, um «primeiro amor». Esses tempos de consagração são vivenciados, no interior do breu triste de uma caverna, por um profeta desalentado, que reclama: «Os filhos de Israel derribaram os teus altares.» ( 19,10). Chegados a esse ponto, a comunhão através da adoração estava quebrada, o altar reparado era sinónimo da retoma do caminho para o Céu, da religação com Deus. Israel tornar-se-ia de novo numa nação religiosa, no bom sentido, e teocrática.

Assim, podia retomar o nome de Israel, a identidade definida. (I Reis,18:30,31). E a identidade do povo de Deus com o próprio Senhor é que define a qualidade e a genuinidade do altar -«Com aquelas pedras edificou o altar em nome do Senhor» ( 18,32). Não poderia haver, não há e jamais haverá, avivamentos em altares estranhos e falsos, tão-pouco em altares por restaurar. O altar do Avivamento não é anónimo, nem abstracto, tem Nome.

No dia da festa de Pentecoste, a festividade judaica relembrava um passado de muitos nomes, por assim dizer, escravos no Egipto, passageiros no deserto, cultivadores de cevada, conquistadores de Canaã, reino de Israel, reino de Judá, cativos e exilados na Babilónia, etc.

Ao contrário, a manifestação do Espírito Santo, de que todos os presentes no Cenáculo foram cheios, a festa do avivamento pentecostal estava a preparar o futuro da Igreja, identificada com o Nome de Jesus Cristo. «Todos reunidos no mesmo lugar » interpretando o mandamento para a obediência e a unidade em torno já não da pessoa física do Mestre, mas da presença do Nome que é sobre todo o nome.

Finalmente, o altar do Avivamento – a Igreja de Cristo -, por assim dizer, pressupõe unidade como princípio, unidade na obediência, unidade na doutrina, e não globalização de várias crenças, de sincretismos religiosos que até se anulam entre si, com o intuito de formar uma só família na fé.

No tempo de Elias, os profetas de Baal e os profetas do Senhor poderiam por absurdo constituir uma «só família» na crença religiosa. Mas o desafio de Elias não foi nesse sentido, porque tal desafio não era e nunca será, sobretudo nos nossos dias, uma alternativa.

A primeira dúvida da Samaritana

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©  João Tomaz Parreira

 

A leitura superficial que fizermos, sem olhar a circunstâncias senão as da própria diegese (narrativa pura e simples), diz-nos que a primeira pergunta da mulher de Samaria junto ao poço de Jacob, foi por uma questão de espanto por uma linha divisória quebrada.

Contudo, com uma simples petição (dá-me de beber), Jesus  declarou que a separação entre os povos em geral, e judeus e samaritanos em particular, tinha os dias contados. A pergunta da Samaritana reflectiu inconscientemente o espanto desse sucesso, isto é, que uma parede estava derrubada onde o evangelho se faz presente (cf. Gl 3.28; Ef 2.14).

Todavia, a primeira dúvida da mulher, reveste-se de uma forma que carece uma análise hermenêutica mais profunda, teologicamente, mas também literária, do ponto de vista do que esconde a linguística, com o estilo da pergunta, com ironia e lógica, desconhecimento e espanto.

“Disse-lhe a mulher: “Nem sequer tens um balde (ἄντλημα) e o poço é fundo! Donde é que tiras a água viva?” ( Edição Comum BPT, 2015-555)

 

A semiótica da água 

O manancial arquetípico da água perpassa pela narrativa joanina, desde o princípio do capítulo 4 do Evangelho. Inicia-se com a tipologia e a semiótica para além do simples acto do baptismo (águas): “Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele (…) baptizava mais discípulos do que João”.

A água do poço de Jacob, acima do seu referencial histórico, era água de manancial, de acordo com o comentário da conhecida Bíblia de Jerusalém ( Desclee de Brouwer, NT, 1976-128), simbolizava a vida dada por Deus, de grande importância no Oriente.

Quando na literatura ocidental, o poeta T. S. Eliot (1888-1965) deixa escrita uma das grandes poéticas das primeiras décadas do século XX,  a obra “A Terra sem Vida”, como uma profecia da Europa que será um  “amontoado de pedras” nas décadas de 30 e 40, deixa o grito da necessidade da “água nascente”, “se houvesse água parávamos e bebíamos”, “se houvesse água e não rocha”, mas numa explícita referência  a Jeremias, 2,13, afirma que há “cisternas vazias” e “poços sem água”.

 

A dúvida da Samaritana recompensada

Cristo revela a sua identidade, não apenas a uma mulher, mas a alguém samaritano.  A mulher, entre os judeus, não era senão um objecto pertencente ao marido, pertencia ao lote do seus imóveis, dos seus servos, numa posse legal que o Evangelho e as Cartas paulinas vieram abolir.

O pedido de Jesus, defendem exegetas e sociólogos da educação,  foi no sentido não apenas da sua necessidade fisiológica, mas tendo em vista o seu método para mover os ouvintes para revelarem atitudes e acções. Diz-se que usou métodos andragógicos (método de ensino para os adultos) em seu ministério de ensino e pregação: lições práticas (e referem João 4.1-42)  Aqui, Jesus Cristo utilizou a simbologia da “água” para ajudar a mulher a perceber o que é a “água viva”, teologicamente.

Na continuação da sua lição e auto-testemunho sobre a água, para além do seu sentido “líquido”, isto é, volúvel, transitório, efémero, Jesus indica, usando uma alocução kerygmática (como se pregasse): “Se tu conhecesses o que Deus tem para te dar, e quem é aquele que está a pedir água, tu lhe pedirias e ele dava-te água viva” (BPT).

A esta afirmação, a mulher samaritana responde com a lógica do que apenas vê,  dos limites da realidade, o que está diante dos seus olhos, existe mesmo ainda que velada, uma tentativa de ironizar, “nem sequer tens um balde” ou “donde é que tiras a água viva” (NT A Boa Nova Para Toda a Gente, Sociedade Bíblica, 1979)

 

A poética da narrativa

Rosanna Eleanor Leprohon, que foi poeta e novelista canadiana, escreveu um extenso poema nos finais do século XIX, que as águas de que Jesus falou continuam “puras e brilhantes”, “águas vivas que fluem”.  E referiu-se à Samaritana como “Filha de Samaria” cujo testemunho perdura pelos séculos fora. Que devemos esquecer “pensamentos de orgulho terreno e vãs esperanças na ganancia do mundo, / Basta-nos beber uma vez dessa água, nunca tornaremos a ter sede” .

Vamos pregar sobre sexo

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Paulo Brabo
O horror que cristãos de todas as estirpes nutrem ainda contra o corpo, contra o prazer sensorial e contra a sexualidade não se origina na herança da Bíblia hebraica, na tradição dos apóstolos ou no ensino de Jesus. Ao contrário: nosso pessimismo sexual não tem suas raízes na tradição bíblica, mas na influência exercida pelos filósofos estóicos e gnósticos sobre os cristãos dos quatro primeiros séculos.
Os filósofos estóicos prescreviam o controle completo da vontade sobre as paixões e as emoções. Seu ideal de humanidade era em tudo semelhante ao personagem Dr. Spock da série Jornada nas Estrelas original: um homem que busca honestamente a virtude, mas desconhece o tráfico, tipicamente humano, com as frustrações e os prazeres. Dos estóicos (como Sêneca, tutor de Nero) herdamos a hipervalorização do celibato e a idéia da abstinência dentro do casamento como coisa virtuosa. Os estóicos ensinaram-nos a noção extrabíblica de que todo prazer sensorial é uma ameaça e uma tentação, e que portanto a única atividade sexual legítima é a que visa a procriação.
Os gnósticos, por sua vez, criam que o mundo físico não era obra de um Deus bom, mas de demônios, e que a incorpórea alma humana era a única centelha de verdadeira luz neste lodaçal de matéria. Dos gnósticos herdamos o desprezo pelo corpo, a demonização da matéria, o desprezo pela experiência sensorial e a hipervalorização do ascetismo.
Foi a influência dessas idéias, e não a leitura dos Testamentos, que criou a postura de gente como Agostinho, que só admitiu depois de muita hesitação a possibilidade de Adão e Eva terem mantido relações antes da Queda; mas o sexo antes do pecado, garantiu Agostinho, teria sido operação necessariamente santa e portanto mecânica, inteiramente isenta de prazer. Pela mesma razão Maria, mãe de Jesus, teve sua sexualidade cauterizada de modo a permanecer eternamente virgem, mesmo durante e depois do parto de Jesus. Seria coisa inconcebível, assegurou o papa Sirício no terceiro século, que Maria se rebaixasse à “intemperança” do prazer sexual; inconcebível que seu útero, “aquele átrio do rei eterno”, fosse “maculado pela presença [posterior] do sêmen masculino”.
Com a assimilação do pessimismo estóico e gnóstico, o sexo e o prazer passaram a ser vistos a uma luz cada vez mais negativa, mesmo dentro do casamento, até que o celibato completo passou a ser requerido dos líderes eclesiásticos. Na equação do negativismo sexual, sexo nenhum equivale a nenhum prazer, e nenhum prazer equivale a muita virtude.
Consolidava-se assim, nos primeiros séculos do cristianismo e graças a uma influência alienígena à visão de mundo bíblica, uma tendência que nem os ajustes da reforma protestantem seriam capaz de abalar: para o cristianismo histórico, a moralidade ficou para sempre reduzida à moralidade sexual.
Perdemos assim a sanidade da visão judaica a respeito do sexo e do prazer, que é favorável e celebratória e nada tem de neurotizada. Ainda mais importante, perdemos de vista o coração do ensino de Jesus sobre ética e santidade. Como deixam claro os evangelhos, a postura e o ensino de Jesus requeriam uma profunda revisão na nossa rasteira noção tradicional de moralidade. Afinal de contas, o mesmo Jesus que comia e bebia com gente de má fama, que via heróis em prostitutas e marginais e tinha prazer na companhia de pecadores, enxergava corrupção e podridão na vida dos carolas, devotos e santinhos da sua época. Para Jesus, como espetacularmente demonstrado no Sermão do Monte, nada é simples na moralidade, especialmente o reducionismo: nossa tendencia a nos sentirmos seguros na abstinência e a tendência correspondente de condenarmos os outros em seus excessos.

Cegados pelo falso brilho do estoicismo e pelas promessas tortas do gnosticismo, os cristãos eliminaram de forma brutal todas as sutilezas do ensino de Jesus sobre a moralidade, e passaram a proclamar a má nova – tudo que dá prazer é pecado – ao invés da boa – não há ninguém sem pecado, por isso a graça da aceitação está disponível para todos.

Hoje, dois milênios depois, permanecemos reduzindo religiosamente a moralidade à esfera sexual. Jesus não tolerava a mentira, a ganância, o orgulho e a crueldade; nós toleramos tudo isso, mas quem não se submeter aos nossos elevados padrões de moralidade sexual terá de ser excluído do nosso meio.
Os católicos permanecem obcecados com o celibato e com a contracepção; os protestantes permanecem obcecados com a virgindade antes do casamento e com a homossexualidade. A mentalidade evangélica permite a exploração de pessoas pelo capitalismo e a alienação social que ela ocasiona, mas não tolera a união sexual antes da sanção reparadora do sacerdote. O Vaticano ensina que padres não podem casar-se, e trata como embaraçosa infelicidade o fato de que tenham de recorrer eventualmente a meninos. A igreja evangélica norte-americana, patrocinadora ideológica dos avanços militares dos Estados Unidos, é reconhecida, essencialmente, pela sua postura antihomossexual; ou seja, um homem pode matar outro, mas não pode beijá-lo. As campanhas católicas contra o uso de anticoncepcionais são reflexos contemporâneos da antiga luta estóica contra o prazer; a única função legítima do sexo, como ensinava Sêneca, deve permanecer a procriação.
Para os cristãos do terceiro milênio, toda imoralidade – a única verdadeira imoralidade – é sexual. O inquietante é que, com o passar do tempo, perdemos a capacidade de ver que não há nessa postura nenhum traço de Jesus, do Antigo Testamento ou dos apóstolos. Pela familiaridade com o nosso próprio discurso, tornamo-nos inteiramente incapazes de reconhecer nossa neurose sexual.
Ao contrário, o que fazemos constantemente é acusar o mundo contemporâneo de ser obcecado com sexo. Pode ser hora de reconhecer que, depois de milênios do nosso exemplo, eles simplesmente aprenderam conosco.

A Pós-Verdade e a Pessoa de Cristo

 

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​Jorge Pinheiro

Embora cunhada há relativamente pouco tempo, a expressão pós-verdade (*) traduz uma realidade velha de séculos. Podemos afirmar que ela (a realidade) existe desde que o Homem se assumiu como ser pensante, estando presente na prática em todas as situações em que as nossas convicções pessoais se confrontam com a realidade dos factos. Nesta perspectiva, sempre que lidamos com ideias e concepções, sejam elas filosóficas, religiosas, ou de outra índole, temos de esperar a sua manifestação.

Na realidade, não é a circunstância de apresentarmos factos objectivos que nos dá a garantia de, com eles, levarmos o outro ou nós próprios a alterar uma convicção anteriormente adquirida. O nó górdio situa-se precisamente aqui – nem sempre os factos são objectivos e nem sempre os factos apresentados retratam o real. Pelo menos é a essa conclusão que as nossas convicções nos levam e mais nos levam quanto mais arreigadas e principalmente sedimentadas estiverem. E se as nossas convicções nos levam a fechar a porta à argumentação lógica de base científica e se escancaram ao domínio do emocional qualquer facto apresentado, mesmo que comprovado, arrisca-se a bater numa parede de aço.

Deste drama e dessa tensão ecoa a pergunta de Pilatos a Jesus quando o Nazareno lhe foi levado a julgamento perante factos (nem sempre objectivos) apresentados pelos seus acusadores: “O que é a verdade?” Os factos acusatórios ou a sua interpretação (pelo menos alguns deles eram objectivos e traduziam uma realidade indesmentível) não se encaixavam no quadro paradigmático das convicções dos acusadores. Podemos até, em jeito de análise de intenções, concluir que o quadro mental de Pilatos não lhe permitia aceder a outra decisão senão aquela que tomou e que os evangelhos registam, mesmo que o real que os factos veiculavam apontasse por hipótese numa outra direcção. E nesse quadro judicial, os mesmos factos acabam por provocar reacções distintas e até contraditórias. Os factos não chegaram para que a unanimidade se estabelecesse.

É que os factos, nunca o esqueçamos, por muito objectivos que possam ser e por muito tradutores que sejam do real confrontam-se com o quadro mental paradigmático das convicções pessoais. Isso em parte explica por que razão a apresentação de factos como prova de validação de uma determinada teoria ou ideologia nem sempre se apresenta com o rigor da objectividade, na medida em que o arauto dessa teoria ou ideologia cede à tentação de, por assim dizer, se travestir emocionalmente. Por vezes o day after é não apenas traumático mas apocalíptico. E apocalíptico tanto no sentido restrito de uma realidade reveladora, como no sentido genérico de uma catástrofe tida como arrasadora.

Quem escreve sobre a vida e a mensagem de Jesus Cristo não pode ignorar esta realidade e esta tensão. Por vezes, tanto o escritor como o pregador cristão se esquecem de que a mensagem cristã se baseia em factos e não tanto em elaborações de ordem doutrinal ou filosófica. É verdade que o Cristianismo se ordena em torno de uma ideia central – a comunhão com Deus, o que exige uma profissão de fé, logo do domínio da ideia – mas, como diz Paulo, se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé, logo, do domínio do facto. Na realidade, todo o edifício ideológico cristão está dependente de um facto concreto – a pessoa de Cristo. Como tal, a mensagem apresentada pelo escritor cristão tem de estar sempre baseada nessa verdade central – o facto que é Jesus Cristo – mesmo que a mensagem provoque emoção no ouvinte ou no leitor. Ou seja, a emoção tem de ser sempre um subproduto da factualidade da mensagem veiculada.

É bem de ver que a emoção, poderíamos dizer toda a emoção, é volátil e não precisa de se basear em factos objectivos e concretos mas no equilíbrio (ou desequilíbrio) homeostático desejado. Por outro lado, o facto objectivo, precisamente porque ocorreu em resultado da intrusão do real, adquire consistência e entrega-se sem receio ao escrutínio da sua análise.

Ora, no tocante ao cerne da mensagem evangélica (entenda-se por evangélico a realidade da factualidade narrada pelos evangelhos), quem escreve sobre ela não está a elaborar senão sobre o concreto de um facto histórico que não é do domínio do onírico. Por isso, toda a escrita sobre as verdades evangélicas, mesmo apelando a uma resposta emocional, deve ater-se ao maior rigor objectivo, ainda que fruto de uma interpretação subjectiva ou pessoal. A não proceder desse modo, estará a transformar o facto-Jesus (centro do evangelho) na ficção-Jesus. Não basta que o discurso tenha lógica e consistência interna. É mister que ele não se submeta aos ditames do subproduto emocional.

Recorrendo a uma linguagem mais chã, podemos dizer que uma situação em que o conceito de pós-verdade impera se identifica com o “achismo”. No achismo, o facto, tradutor da realidade, é irrelevante e muitas vezes supérfluo, indesejado e um estorvo. O que conta não é a factualidade do real, mas a defesa de forma estrénua das nossas convicções, mesmo que, e principalmente, a sua base não seja lógica nem factual, mas dependente da argumentação do “porque sim”. O achismo dá-se mal com a objectividade do real porque o seu real é o resultado de um constructo conceptual que garante a quem o defende a estabilidade emocional sem necessidade de recurso a provas de aferição.

A verdade é que o universo religioso presta-se ao proliferar do achismo na medida em que, procurando as mensagens religiosas sossegar as consciências, elas abrem caminho à aceitação fácil de um quietismo que permita ao crente prosseguir sem sobressaltos no estado de graça de que desfruta. Ora, encarando e anunciando a mensagem cristã apenas na sua vertente religiosa, o escritor cristão não pode ignorar essa realidade e deve esforçar-se por não cair no logro de escrever para agradar ao seu leitor ou para se limitar a relatos de circunstância.

É também verdade que qualquer facto é interpretado segundo o quadro ideológico de quem o analisa e o enfrenta. O escritor cristão, como qualquer outro ser pensante, tem também o seu quadro ideológico mais ou menos definido. Por isso, não admira que o seu discurso reflicta o quadro em que ele se move. Mas uma coisa é a interpretação de um facto, outra bem diferente é a sua distorção, obrigando-o a encaixar-se nos quadros conceptuais de quem o analisa e sobre o qual escreve. Como já foi dito atrás, o Cristianismo caracteriza-se por ser uma mensagem que está mais dependente da factualidade do concreto do que da elaboração de uma argumentação de axiomas dogmáticos. É verdade que, como qualquer sistema ideológico, o Cristianismo provoca e muitas vezes motiva emoções (seria estultícia negá-lo), mas estas deverão ser sempre a consequência e não a causa.

Perguntar-se-á: como conseguir que, havendo tantas interpretações dos factos quanto os analistas, não haja distorção dos factos abordados? Tal como no universo das medições há sempre um padrão face ao qual as medições apresentadas são contrastadas, assim também o discurso do escritor evangélico ao discorrer sobre a pessoa e mensagem do Nazareno tem de ser contrastado com o padrão aferidor que é a revelação divina dada aos homens. Ela própria faz-se eco desta realidade no episódio da pregação de Paulo aos crentes de Bereia. Perante uma argumentação baseada em factos de que Paulo era testemunha (ainda que teológica e não presencialmente), os Bereanos confrontaram-na com o padrão aferidor que eram as Escrituras veterotestamentárias à sua disposição. E embora confrontados com factos novos, não tiveram pejo em os aceitar como válidos porque os concluíram avalizados pela Revelação.

Esta questão da autoridade é de extrema importância e a sua realidade deve estar sempre presente no espírito do escritor cristão. É que a pós-verdade impõe-se não apenas por ignorância ou laxismo de quem lhe está sujeito, mas pela existência de uma agenda escondida de quem a propaga, recorrendo muitas vezes a um excesso de informação e à referência a uma autoridade. Ora, a autoridade a que o escritor cristão deve estar sujeito não é nem o seu programa ou nome pessoais, mas a autoridade da Revelação, que o mesmo é dizer que é com ela que o seu discurso deve estar sintonizado.

Permanece, contudo, sempre no horizonte uma questão inescapável: o conflito real versus verdade. Sem entrar em grandes elaborações sobre a natureza e a realidade concreta do real, podemos dizer que entramos em contacto com o real através dos factos. Ou, inversamente, que o real se manifesta através dos factos. No entanto, a verdade pode nem sempre coincidir com o facto tradutor do real e, por intermédio dele, com o real. Na realidade, a verdade tanto se pode construir sobre os factos como sobre o constructo conceptual do pensante, em que o facto pode ou não estar presente. E não se pense que essa é uma realidade estranha ao universo religioso e, por maioria de razão ao Cristianismo. A Escritura faz-se eco dessa realidade no magnífico capítulo onze de Hebreus, em que lemos que os crentes creram contra toda a esperança face aos factos que enfrentavam. A realidade dos factos era uma – a desesperança – mas a verdade que alicerçava os crentes, sem negar a factualidade do que enfrentavam, era outra, apontando para uma realidade que ultrapassava os factos. Naturalmente poderemos sempre perguntar: e essa esperança não traduzia o verdadeiro real? É nesta ambiguidade e aparente contradição que a pós-verdade joga: nem sempre o facto traduz o verdadeiro real. Ela escamoteia, contudo, uma verdade que não podemos ignorar: a fé baseia-se na veracidade e fidelidade de uma palavra autoritativa. Como cristãos, acreditamos que essa palavra autoritativa provém do Criador e Mantenedor do universo em que nos movemos. E tendo ele já falado, então todos os factos e todas as verdades têm de estar consonantes com essa mesma palavra autoritativa já anteriormente falada e que Ele colocou ao nosso dispor. Essa palavra é d’Ele e só d’Ele e colocar outra a par ou em sua substituição é roubar a glória que só a Ele pertence. Não a subvertamos, pois.

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(*) pós-verdade – Segundo a definição do dicionário Oxford, é um substantivo que faz referência a “circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”. Segundo a Oxford Dictionaries, foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich.