Como se fosse uma Ode, escrita por Paulo

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© João Tomaz Parreira

 

Levar aos limites da Literatura a Carta aos Colossenses não será inapropriado, se pensarmos que o apóstolo Paulo, o seu autor, a inicia com um exórdio maravilhoso que se constitui como uma Ode a Jesus Cristo, enfatizando sua supremacia sobre todas as coisas.

Uma Ode (Oidê), ou um cântico ou hino, na poesia clássica grega traduzia-se sempre em louvor. E assim é na epístola de Paulo.

“Ele [Jesus] é a imagem do Deus invisível,

 o primogênito de toda a criação,

pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra

 […] Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste.

 Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja;

é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia.”

(Cl 1.15-18, in NT NVI)

Nesta ode, a lira que acompanhou Paulo foi a palavra inspirada e uma visão de Cristo recolhida desde a Eternidade. É tão perfeita que as traduções e versões da Bíblia Sagrada, sejam as mesmas de João Ferreira de Almeida ou de Frederico Lourenço, interconfessionais ou outras em linguagem corrente, não podem omitir uma melopeia, uma estrutura melódica nesse conjunto de versos. Nenhuma desconstrução formalista desune a sua integridade textual.

O apóstolo Paulo relembra aos que já foram redimidos por Jesus Cristo qual o carácter glorioso do Senhor, usando uma linguagem cuja estrutura além de obedecer a ritmo poético, transfere para o nosso conhecimento argumentos teológicos inefáveis acerca da eternidade de Jesus, que nos deu a redenção com o seu sangue. Diríamos que Paulo parte da história para a meta história do Eterno.

Ao usar uma descrição de Cristo compreensível, leva-nos à imagem do Deus invisível. E ao falar da Criação não a deixa órfã, entregue ao critério mitológico dos deuses gregos e seus equivalentes latinos, tão-pouco sem coadjutor, vemos Deus e Seu Filho em acção.

Paulo tornou real e compreensível, no dealbar da Era Cristã, o próprio Deus em Jesus Cristo na História. O que antes de Cristo existia eram mitos, Rudolf Bultmann escreveu que “as velhas narrativas dos povos ainda não eram história, mas mitos” (in History and Escatology, 1962)

Todavia, era tradição clássica, digamos assim, trazer os deuses à compreensão dos homens através do hino e do poema (ode). Os dois poetas, Aratos Solense e Cleantes, que escreveram hinos a Zeus na perspectivaa do criacionismo, que Paulo cita no seu discurso do Areópago, em Atenas, são evidência intemporal disso mesmo:

Aratus (in Phaenomena)

“Começamos com Zeus, de quem nunca deixamos de falar.

Cada rua, cada mercado, estão cheios de Zeus

Até o mar e o porto estão cheios dessa divindade.” (trad. Livre)

Já Cleantes, aquele que é o mais provável citado em Actos 17:28, aborda o assunto de outro modo, no seu “Hino a Zeus”:

“O mais glorioso dos mortais, deus de muitos nomes e sempre poderoso

Em ti está a nossa origem, a sorte de ser a imagem de um deus,

Só a nós coube (Trad. Profª. Maria Helena da Rocha Pereira)

É óbvio que o apóstolo conhecia tais poetas e os seus escritos, mas estava longe, com certeza, de endossar as suas teogonias para uma epístola apostólica e altamente teológica, de facto ele trazia uma mensagem nova, o Evangelho de Jesus Cristo para indoutos e cultos, revelando coisas que até aí estiveram ocultas aos homens como aquela descrição das características de Cristo feita aos cristãos da igreja em Colossos, na Ásia Menor.

A Igreja Cristã não amalgamou nem ajustou tradições gregas e do Velho Testamento, mais exactamente do judaísmo, como afirmou que sim o citado teólogo Bultmann. O apóstolo Paulo não trouxe uma nova concepção de Cristo para a Igreja Cristã que não pudesse ser provada historicamente nem de Deus como governador (ruler) da história.

O que Paulo nos trouxe, envolto na poiética das metáforas, foi, com um certo e inevitável paralelismo (que é também da ordem da poesia), uma descrição como a do Prólogo Joanino: ”No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus”. Perante os dois textos, paulino e joanino, na epístola aos Colossenses e no Evangelho, não é necessário que aduzamos seja o que for, não precisamos ser prolíficos, está tudo lá.

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As mil manipulações de Maria Madalena

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Historiadora que há décadas estuda a realidade feminina em relação com a tradição cristã, e diretora de “donne chiesa mondo”, o suplemento mensal do jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, de que é editora e consultora, Lucetta Scaraffia explica em entrevista à edição mais recente de “Le Monde de la Bible” como ao longo dos séculos a Igreja eliminou pouco a pouco o papel de apóstola de Maria Madalena, sobrepondo-lhe o rosto de pecadora arrependida.

Maria Madalena é mais a pecadora ou a apóstola?

Gostava de começar com uma recordação pessoal. Quando era jovem, em Milão, depois do Maio de 1968, muitas mulheres nos ambientes feministas italianos chamavam as suas filhas de Madalena. Para elas era claramente em antítese de Maria: tratava-se de contrapor à figura da mulher obediente a da dona livre e pecadora. Foi então que comecei a interessar-me por Maria Madalena, que penso ter sido uma das figuras mais manipuladas da história. Da parte quer da Igreja quer das feministas, entre outros.

Porquê este olhar dúplice sobre Maria Madalena?

Maria Madalena é uma figura forte desde os inícios do cristianismo. Mas, numa sociedade patriarcal, que Jesus ressuscitado tenha aparecido em primeiro lugar a uma mulher, confiando-lhe a missão de anunciar aos apóstolos a sua ressurreição – a mais alta missão possível! –, foi um problema para os homens do seu tempo.

Isto traduziu-se de várias formas. Por exemplo, no gnosticismo, a primeira heresia cristã, que tinha grande interesse por Madalena: os gnósticos pensavam que Cristo tinha transmitido um ensinamento secreto, recolhido na “Pìstis sophìa”. Madalena aparece como uma apóstola de pleno direito, que chega a opor-se a Pedro, ao ponto de o vencer depois de se ter tornado num homem, ou melhor, uma espécie de ser andrógino.

Com Maria Madalena coloca-se a pergunta sobre a sexualidade de Jesus, verdadeiro filão de toda uma série de autores que apreciam o escândalo, a começar por Dan Brown…

Se Jesus tivesse tido relações sexuais com mulheres ter-se-ia sabido! Nos Evangelhos ouvem-se as críticas dos fariseus porque comia e bebia juntamente com publicanos e pecadores (cf. Mateus 9, 11), pelo que se pode muito bem imaginar que se tivesse tido uma mulher, saber-se-ia. Todavia não penso que para Ele a ausência de uma mulher exprimisse antes de tudo uma recusa radical da sexualidade. Havia, porém, o risco de uma família hereditária. Se tivesse tido uma criança, a identidade de Filho de Deus seria posta em perigo e isto teria marcado o fim do cristianismo. De resto, são conhecidas as dificuldades, no seio da Igreja primitiva, entre quantos vinham do paganismo e os judeo-cristãos agrupados em torno da família natural de Jesus. Não, realmente, se Jesus tivesse tido filhos, ter-se-ia sabido!

A questão das relações familiares é em todo o caso importante porque o facto de Jesus, após a sua ressurreição, ter escolhido aparecer a Madalena em primeiro lugar, e não à sua mãe, está efetivamente em contraste com as tradições familiares da época. Daí nasceu toda uma série de lendas segundo as quais Jesus teria aparecido antecipadamente e em segredo a Maria e só depois a Madalena; era uma forma de salvaguardar as relações familiares tradicionais. Mas essas narrativas não estão reportadas nos textos canónicos. Quando penso que se os Evangelhos, escritos por homens – e por homens daquele tempo, em que a mulher era considerada como tendo uma dignidade inferior – conservaram a tradição da aparição de Jesus a Madalena em primeiro lugar, é verdadeiramente porque não podiam fazer de outra forma!

Porque é que então se impôs a imagem de Maria Madalena como pecadora?

Começou a assimilar-se a figura de Madalena à de outras duas Marias presentes no Evangelho: a irmã de Marta (cf. Lucas 10, 38-41) e a prostituta que lhe lavou os pés com as suas lágrimas (Lucas 7, 36-50). Maria de Betânia, irmã de Marta, é também irmã de Lázaro, o amigo de Jesus (cf. João 11, 1-45); é, por isso, uma figura quase de família que permite tornar menos perigosa e menos inquietante a sua proximidade a Jesus. Quanto à prostituta, é fácil lançar sobre ela um véu de suspeição e permitir assim a Maria Madalena estar menos em competição com a figura de Maria.

Por outro lado deve sublinhar-se que as tradições do Oriente e do Ocidente sobre este ponto entram em oposição: o Oriente cristão festeja separadamente Maria de Betânia e Maria de Magdala, enquanto que o Ocidente, a partir do século IV, acomunou-a com a prostituta na figura de Maria Madalena. Esta escamoteação transformou Maria Madalena em mulher arrependida que chora pelos seus pecados e por isso deixa de ser a missionária encarregada de anunciar a notícia da ressurreição.

Porquê esta escamoteação?

Escolher a imagem da pecadora arrependida permite ocultar a ligação de Jesus às mulheres, de quem, ao contrário, Ele gostava muito. Mesmo aquelas com uma vida “irregular” são sempre muito importantes em todos os Evangelhos. Jesus vê que as mulheres amam mais que os homens, que compreendem melhor do que os homens o amor. Assim é a samaritana, a primeira pessoa à qual anuncia que é o Messias (cf. João 4, 26). Mesmo se ela teve uma vida desregrada – o Evangelho refere-nos que teve cinco maridos e aquele que agora tem não o é, diz-lhe Jesus –, é uma mulher que procura amor e para Jesus esta é a coisa mais importante.

Dizer que Madalena é uma prostituta é portanto uma maneira de a diminuir, mas mostra também a proximidade de Jesus a estas mulheres à procura de amor, mulheres que Ele muito amou que são muitas vezes apagadas no Evangelho, significando o lugar que Jesus lhes dava. De resto, não se pode excluir que Jesus tenha tido outros relacionamentos com mulheres não reportados pelos Evangelhos. Mas teria sido realmente impossível esconder Maria Madalena a partir do momento em que foi uma figura central na vida de Jesus. Assim, transformá-la em pecadora permitiu eliminar o seu papel de apóstola durante dois mil anos e bloquear o papel das mulheres na Igreja.

Esta eliminação foi completa na Igreja?

Sim. À exceção, talvez, da França, onde uma tradição popular se apropriou da figura de Maria Madalena, confundindo-a, possivelmente, com a figura de Maria Egiziaca, a santa da Palestina que vive na luxúria antes de se retirar para uma gruta no deserto. Uma tradição refere que Maria Madalena teria chegado às costas da Gália e começado a evangelizá-la, antes de terminar os seus dias numa gruta no deserto, em Sainte-Baume. Fazer de Maria Madalena a evangelizadora da Gália permitia à Igreja em França reivindicar uma origem apostólica a par com Roma (Pedro), Bizâncio (André) ou Espanha (Tiago), ainda que aqui se trate de uma mulher. É assim que a tradição popular a acolheu como apóstola, enquanto a Igreja a constrangia ao seu papel de pecadora.

Na prática, como se expressou esse papel?

Um exemplo é o dos numerosos institutos criados ao longo da história e destinados às pecadoras, às prostitutas, às jovens que tinham “pecado” e que, mais ou menos obrigadas, escolhiam arrepender-se numa vida de género religioso. Quase todas essas casas, que as convertiam numa boa vida de família, estavam sob a proteção de Maria Madalena, incluindo aquelas para as viúvas, por seu lado suspeitas porque conheciam o sexo. As virgens, ao contrário, iam para outras instituições, a maior parte sob a proteção de Maria.

Vem à mente o filme “Madalena” [2001] sobre a terrível condição das jovens nesses institutos do século XX na Irlanda…

Felizmente não havia só esses. Havia também muitos conventos em que as coisas funcionavam bem. Em Itália, em muitos deles, ensinava-se um ofício às mulheres ou até se lhes dava um dote para que se casassem. Só havia a preocupação de lhes oferecer uma vida familiar honesta e regular.

Outro exemplo do desenvolvimento da figura de Maria Madalena como pecadora está na pintura. Ainda que a maior parte das modelos dos pintores eram prostitutas, em Roma era proibido representá-las. Não se podia de facto admitir que houvesse prostitutas na cidade do papa! Pintavam-se por isso prostitutas “venezianas” ou Maria Madalena como pecadora arrependida. Era igualmente uma maneira para os pintores fazerem passar conteúdos eróticos, com amplos decotes e copas vermelhas, sinal da paixão sexual.

Porque é que a figura de Maria Madalena como apóstola voltou ao primeiro plano?

Nestes últimos anos muitas mulheres exegetas releram os Evangelhos e começaram a protestar. O seu trabalho permitiu compreender melhor as relações de Jesus com as mulheres, ver melhor o lugar dos vários personagens que compõem a figura atual de Maria Madalena e redescobrir o seu papel de apóstola. Restabelecer a verdade.

Mas o mesmo vale para Maria: fez-se dela um exemplo de obediência de humildade que todas as mulheres deviam seguir. Mas Maria é antes de tudo um exemplo de coragem! Esta jovem aceita ficar grávida ainda antes de se casar, mesmo sabendo que arriscava a lapidação; precisou de uma coragem incrível. Mas, durante séculos, ninguém sublinhou este aspeto.

A 10 de junho de 2016 o Vaticano elevou a memória litúrgica de Santa Maria Madalena a festa litúrgica e publicou um novo prefácio [da oração eucarística] para ela que é agora «a apóstola dos apóstolos». Porque é que esta decisão é importante?

Trata-se de uma decisão do papa Francisco. Que tenha dado a Maria Madalena o título de «apóstola dos apóstolos» é fundamental! Para mim, colocar Madalena no mesmo plano dos apóstolos é ainda mais importante que ordenar mulheres sacerdotes, porque atribui às mulheres uma igualdade ainda mais profunda no âmbito da evangelização. Retenho que é uma decisão tão importante como a de Paulo VI que, em 1970, atribuiu a Teresa de Ávila e Catarina de Sena o título de doutoras da Igreja. Creio que é uma decisão litúrgica e teológica que não será possível eliminar e a partir da qual se poderá chegar à plena igualdade em cada âmbito.

In L’Osservatore Romano, 8.3.2018
Trad.: SNPC
Publicado em 07.03.2018, Pastoral da Cultura.

Despertando, a propósito da visita de Marcelo a uma Igreja Adventista

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

 

 

Joaquim Franco

 

Não sendo uma iniciativa inédita do Presidente da República, a visita a uma Igreja Adventista do 7º dia ocorre num momento decisivo. Ultrapassados os traumas da ditadura, percorridos 17 anos após a Lei da Liberdade Religiosa, consagrados os direitos e os deveres, desmontado o monopólio do pensamento religioso, permanece o desconhecimento e a indiferença quanto ao fenómeno religioso, perigosa e demagogicamente relacionado por alguns pólos de opinião com o fundamentalismo violento de inspiração islâmica ou, pior, com os movimentos migratórios.

Vivemos num tempo de crise ética, com impacto económico, social e existencial, a redefinir a secularização e a laicidade. Um tempo de novas exclusões, que persiste nas desigualdades sociais, no desperdício que atenta contra o planeta, no escândalo inaudito da criação de riqueza através de um lucro criminoso que subjuga o homem. Um tempo que é o da urgência do despertar da política e da corresponsabilidade, para reforçar e/ou reabilitar as liberdades. É um tempo de óbvias violações dos direitos humanos e da não menos óbvia incapacidade de uma governança global. “Um tempo com isto tudo e tudo o que isto implica na experiência religiosa, na inevitabilidade do encontro e da concertação das diferenças. É também o tempo de as religiões se redefinirem na globalização mediática, do não há longe nem distância, onde nada é totalmente privado e o fundamentalismo só cabe fazendo estragos. Estamos perto, muito perto uns dos outros, por força da tecnologia da comunicação e de uma linguagem mediática híper-emotiva, também ela geradora de equívocos que requerem novas ferramentas para melhor entender a comunicação. É por isso tempo de, abrindo-se umas às outras, as religiões assumirem os valores inalienáveis da dignidade humana, no dever da ética política. E, assumido este valores, não se remeterem ao silêncio” (1).

O papa Francisco vem insistindo na necessidade de construir pontes – não fosse um dos seus títulos o de pontífice… – entre religiões e credos, no que estes representam de ideal comum: a ética da relação.

Entre religiões e confissões não se confrontam teologias – seria um diálogo de surdos – mas debatem-se valores, solidificando a convivência, mesmo admitindo que esta não está isenta da dinâmica do proselitismo.

O relacionamento entre religiões e religiosos em Portugal é exemplar. Na forma ativa, com empenho e encontros inter-religiosos. Ou mesmo na forma inativa, em que a indiferença não produz intolerâncias assinaláveis. Para esta situação muito têm contribuido as lideranças religiosas pessoalmente empenhadas, o Estado – através da Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade, de autarquias, da Comissão da Liberdade Religiosa e do Alto-comissariado para as Migrações – e a academia, com iniciativas que, sem grande eco mediático, pretendem levar ao cidadão comum o debate sobre a religião e a cidadania.

Veja-se o exemplo da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona – onde se instalou o Observatório para a Liberdade Religiosa -, que promove de forma organizada e estratégica, não confessional e abrangente, colóquios, conferências e simpósios e outras iniciativas junto da população em geral e da escola. Ou da Universidade Aberta, da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade Católica que criaram também institutos próprios para este campo de ação.

Entende Soromenho Marques que a liberdade religiosa é a única que aparenta estar intocável na Europa. Até mais ver. Esta é uma Europa imprevisível, inquieta, refugiada nos seus medos e fantasmas. E que, “levada pelos seus medos e pelos seus fantasmas – que não consegue enterrar -, dá rédeas à demagogia” (2). A Europa vem revelando a fragilidade do humanismo nas contingências da religião. “Neste tempo conturbado que ergue muros ao diferente, a um outro que transporta também a diferença religiosa, Portugal ainda não foi posto à prova e o silêncio é uma insensatez. Como todas as liberdades, a religiosa também se trabalha. Nenhuma liberdade é absolutamente adquirida” (3).

Marcelo Rebelo de Sousa tem revelado esta sensibilidade desde o primeiro dia do mandato, quando, poucas horas depois da posse, participou numa iniciativa inter-religiosa na Mesquita Central de Lisboa. Voltará lá em Março, com António Guterres, para celebrar os 50 anos da Comunidade Islâmica de Lisboa.

Na visita desde sábado a uma Igreja Adventista, o presidente lembrou a Constituição da República e a Lei da Liberdade Religiosa, instrumentos que, embora fundamentais, não asseguram por si só a prática da liberdade e da tolerância.

A Igreja Adventista tem desempenhado um papel importante na ação social e no debate sobre a liberdade religiosa, instituindo em Portugal, através da Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa (AIDLR), o prémio “Consciência e Liberdade” para trabalhos de investigação sobre o tema (4).

Há todo um trabalho a fazer, de conhecimento, proximidade e diálogo. Para, também através do pluralismo religioso, garantir aquilo a que Marcelo chamou a “vigilância na defesa dos valores éticos em que assenta a sociedade portuguesa”.

Se os poderes publicos não adotam nenhuma religião, têm o “dever de colaboração com as igrejas e comunidades religiosas, considerando a sua representatividade, e tendo em vista a promoção dos direitos das pessoas, o desenvolvimento integral de cada pessoa, os valores da paz, da liberdade, da solidariedade e da tolerância”, disse o chefe de Estado.

Mas o Estado somos nós. E vamos vendo já no terreno iniciativas que incorporam esta prioridade. Sem grandes alaridos mediáticos, rasgando preconceitos e indiferenças, despertando de forma discreta a atenção para esta emergente necessidade: dialogar e valorizar na diferença religiosa os ideais comuns da ética e do humanismo.

 

Fonte: SIC Notícias online. 

(1) (2) (3) Intervenção do Observatório para a Liberdade Religiosa no evento Terra Justa, Fafe, em abril de 2016.
(4) O autor desta crónica teve a honra de, enquanto investigador em Ciência das Religiões, ser distinguido em 2013 pelo trabalho Da liberdade religiosa à urgência do diálogo – a experiência contemporânea.

 

 

 

Judeus: estará em Portugal a nova terra prometida?

Há um novo fenómeno no interior português. Milhares de turistas judeus estão a invadir lugares como Castelo de Vide, Belmonte ou Trancoso para conhecer o património judaico nacional. No último ano, o número de visitantes aumentou extraordinariamente. Há novas linhas aéreas entre Portugal e Israel, novas agências especializadas, novos hotéis, novas lojas kosher. História de um retorno.
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Texto Ricardo J. Rodrigues | Fotografias Rui Oliveira/Global Imagens

 

Nas cozinhas dos hotéis que vão nascendo junto à raia, toda a gente sabe para que lado fica Jerusalém. «Essa foi uma das primeiras coisas que tivemos de aprender quando os turistas judeus começaram a chegar», diz António Lopes, proprietário do hotel Monte Filipe, um quatro estrelas com cinquenta quartos nos arredores de Castelo de Vide. Até 2015 acolhiam em média 150 hóspedes hebreus por ano, gente que vinha à procura das suas raízes no interior português.

Mas em 2017 esse número subiu para mil e neste ano esperam dobrar o milhar de dormidas em junho. «Há um verdadeiro boom no turismo judaico e isso está a revelar-se um balão de oxigénio para nós. Neste momento, estamos a treinar todos os nossos empregados para nos adaptarmos às necessidades desta nova clientela. Sobretudo na cozinha, onde a comida tem de ser confecionada sob os preceitos kosher. A carne, por exemplo, tem de ser cortada na direção de Israel.»

Na semana passada, a secretária de Estado do Turismo fez uma digressão pelas comunidades semitas dos Estados Unidos para promover o país como destino religioso judeu. «A ideia é mostrar Portugal como lugar tolerante e seguro e com uma herança judaica muito forte», dizia Ana Mendes Godinho à Notícias Magazine na véspera da partida.

«O número de israelitas a visitarem-nos explodiu e queremos que este nicho convoque gente também do outro lado do Atlântico. Portugal pode ser visitado enquanto destino final mas também pode ser um stopover [paragem por uns dias] para quem viaja para Israel.»

Continuar a ler aqui.

 

A primeira frase performativa na Bíblia

E disse Deus; aja luz

 

© João Tomaz Parreira

 

Não existia ainda o homem, mas Deus preparou tudo para o receber, a partir da Sua linguagem. É esta, a linguagem, e o pensamento que distinguem o homem, criado por Deus, das outras criaturas animais.

“Então Deus disse: “Que a luz exista!” E a luz começou a existir” (Genésis, BPT).

Experimentar ler esta estrutura sintáctica, ou dito de um modo mais acessível, narrativa breve do início do primeiro capítulo do Génesis, apenas como uma narração simples para uma sequência de acontecimentos, como se de uma “reportagem” se tratasse, é não perceber o alcance teleológico da frase.

É óbvio que os modernos instrumentos da Linguística nos permitem hoje outras análises bíblico-gramaticais.

O ateísmo poderá ver ali uma explosão, um “big bang” que originou os mundos a partir da luz. O crente pode ver um enigma, sim, mas enigma revelado de Deus Criador. Os críticos do Velho Testamento, teologia e ciências da linguagem à parte, ainda assim tomarão a diegese da frase como uma metáfora de uma vontade que é do domínio do Invisível.

Poderíamos resumir, para os que contestam, a uma observação de um filósofo idealista como Wilhelm Dilthey (1833-1911) : “A religião, a mística precede a filosofia”.  E a linguística, também. Deus começou também a gramática da língua. Aquela fala divina é uma frase seminal.

A expressão imperativa do Criador poderia ter ficado apenas retida na actividade mental de Deus, mas o pensar divino teve uma acção correspondente. E toda a Bíblia é a Acção de Deus interveniente na Humanidade e na História do Homem.

Ver uma significação onde outros vão ver apenas um acontecimento, é também a lição da Semiologia sobre aquela primordial afirmação divina.

Foi um filósofo inglês, John Austin (1911-1960) que teorizou sobre o acto da fala, uma função da linguagem que baptizou de “performativa”. Isto é, “quando dizer é fazer”.

A sua obra mais significativa “How to Do Things with Words (Como fazer coisas com palavras), ajuda-nos a perceber aquela sublime linguagem performativa de Deus.

A frase divina não foi uma expressão de constatação, foi afirmativa e criadora. O que disse fez-se. É a característica da frase performativa que, depois, as instituições do homem começaram a utilizar.  Exemplo? No casamento: “Vos declaro marido e mulher”, ou no tribunal: “Condeno a…”

Até àquele momento do princípio do livro do Génesis, momento que desconhecemos, quer no cronos quer no kairós, e nenhuma ciência apenas a teologia pode descortinar, havia trevas. A terra estava sem forma, vazia, sem ordem. “Era um mar profundo coberto de escuridão” (BPT)

A emissão linguística do Criador, expressão das ciências da Linguagem, não se limitou apenas no dizer, pelo contrário, criou. A constatação veio depois do que foi feito. Hoje, e provavelmente muito antes, dir-se-ia que a expressão é mágica e encantatória.

Aliás, todos os momentos originais da Criação, no que concerne ao Universo,  que lemos no Livro do Génesis numa progressão encantatória, surgiram da palavra performativa de Deus.  “Depois Deus disse: “Que exista um firmamento entre as águas, para as separar uma das outras” (vs.6).  Há uma correlação entre o que foi feito e por que meios, a palavra performativa divina deu origem à palavra da constatação: “Deus chamou céu a este firmamento” (vs.8)

Todos (quase todos) os versículos do capítulo 1 do Génesis começam pela expressão, que traduz a acção performativa da linguagem do Senhor, “Depois Deus disse”; “Deus disse então”.

Quando leio este Princípio vem à minha mente a cor, as cores do Cosmos, e penso com o ouvido no pedido do tenor na ópera Tosca, de Puccini: “Dammi colori” e depois “Recondita armonia di bellezze diverse!”

A harmonia de beleza diversa e inaudita que ocorreu depois de cada frase performativa de Deus.

O que se tem vindo a dizer, a partir das ciências da linguagem, é que há certos enunciados que têm a capacidade de realizar, e no que corresponde ao Criador não só expressar uma vontade, mas realizar um acto criador. O próprio facto de enunciar, já em si mesmo produz o enunciado.

Por fim, quando Deus foi dizendo em cada acto criador, do que acabara de fazer que era bom ( “E Deus achou que eram coisas boas” (BPT), a sua frase verificativa expressou uma atitude metafísica de satisfação, de gozo divinal, de alegria por fazer existir coisas que têm e iriam ter sentido, designadamente para o Homem que Deus iria criar adiante.

Eu acredito que Deus teve uma atitude lírica em tudo que criou e a sua palavra criadora foi, acima de tudo, poética. O Belo não se cria a partir da fealdade de um discurso. O arquétipo da criação divina foi a Beleza na voz e no verbo de Deus.

Aveiro, 04/02/2018

 

 

 

 

 

 

 

“O equívoco” de Camus e os erros do Messianismo

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© João Tomaz Parreira

 

O entendimento da peça de teatro “O Equívoco” de Albert Camus e do desenlace final da mesma, é capaz de nos fazer pensar em um paralelismo bastante arrojado, reconheço, com os erros do Messianismo dos dias de Jesus Cristo. Em que medida é que se ensaia essa ligação, é o que veremos.

Literatura e teologia podem estar de mãos dadas, como nas obras de C.S.Lewis, ou no “Paraíso Perdido” de John Milton. Se o que estiver a ligá-las, mesmo subliminarmente, for também a historiografia bíblica.

Todavia, “O Equívoco” não tem rigorosamente nada a ver com teologia. Mas confere-nos uma ideia por contiguidade e por metáfora também. O drama, ou melhor, uma tragédia moderna, diria doméstica, foi escrita e representada em 1944. Insere-se no estudo camusiano sobre o Absurdo.

O mal entendido – como se apelida em francês-, representa um erro familiar por atitude de torpe ganância, materializada no roubo de uma fortuna e que leva ao assassinato do próprio filho da casa, que não é reconhecido quando chega.

A preocupação de Camus com este tema, parece ter sido uma evidência que o perseguia, porquanto no célebre romance “O Estrangeiro” -, talvez a obra-prima do autor argelino-francês – tem uma história similar. Na Checoslováquia, um homem partiu para fazer fortuna e regressou depois, passados anos, a casa, à família que sempre o esperou. No regresso a casa, propondo-se alugar um quarto exibe uma grande quantidade de dinheiro, porém não tendo sido reconhecido, a mãe e a irmã matam-no para o roubar.

Camus regressa à tragédia, agora em peça teatral. Uma mãe e uma irmã esperam o filho e irmão que partiu para longe. Esperam que regresse.

– Ele há-de voltar.- diz a Mãe

– Ele disse-lhe que sim? – pergunta a filha

– Disse. -responde a Mãe.

Assim começa a Cena Primeira (Livros do Brasil, “Calígula seguido de O Equívoco”, s/data, 175).

Quando ele chega, não o reconhecem como filho nem como irmão, não repararam bem nele para o seu crime ser perfeito e não deixar traços trágicos na consciência. O importante, era o visitante ser um homem de fortuna, sozinho, ao que apuraram.

– Mãe, é preciso matá-lo.- diz Marta (a filha)

– “Não há dúvida que é preciso matá-lo. – responde a mãe.

– “ É mais fácil matar o que não se conhece”- afirmou a Mãe

É aqui que somos levados à aparente ambivalência histórico-bíblica da espera do Messias, por parte do judaísmo, mais do domínio político e social, do que teológico. O Filho do homem sem beleza nem formosura, aparentemente só, para um Reino que vivia apenas do ritual. E assim, foi fácil levá-lo à crucificação porque não o conheciam, quem era aquele que se fazia passar por filho de Deus e rei dos judeus?: De facto, “é mais fácil matar o que não se conhece”.

Israel aguardava um messias para um reino e não um Cristo para a salvação da alma e do corpo. Também, se quisermos ir mais longe no plano evangélico, o autor terá ido à origem da parábola evangélica do filho pródigo, embora esta tenha o desfecho feliz.

Uma boa resposta para isso, encontramo-la nos versículos 10 e 11, do conhecido “No princípio era o Verbo” do prólogo do Evangelho de João. “Estava no mundo (…), e o mundo não o conheceu.” “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.”

Mas tal como na peça de Camus, Jesus Nazareno, o Filho e o irmão,  foi morto. De um ponto de vista extra jurídico, como sabemos, pelas irregularidades cometidas pelos judeus, foi humanamente assassinado pela lei mosaica.

Finalmente e sem meias palavras, o próprio apóstolo Pedro, no seu discurso do Pentecostes, afirma-o: “Este Jesus Nazareno (…) tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” (Actos, 2,23).

Por vezes, como neste caso, a Literatura coloca-se ao serviço da teologia e da historiografia bíblica e retoma da religião a sua visão do mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estamos já num pré-após-Francisco?

pf

 

Paulo Mendes Pinto

 

A necessidade de um novo paradigma na relação com a sexualidade e a confiança.

Seria longa a reflexão sobre a relação entre a Igreja Católica e a sexualidade. Da visão da mulher, entre um ideal que é Maria, Virgem, sem pecado, e uma Madalena, vista como prostituta, mas capaz do arrependimento, à questão da sacralidade associada ao sacerdócio e aos votos, passando pela questão da moral familiar e da recusa do uso de meios contraceptivos, terminando na castidade e no celibato dos padres, muito haveria para ser dito e discutido num quadro onde esta milenar estrutura se sente cada vez mais a perder crentes e a capacidade de dar respostas aos que nela ainda as procuram.

Mas o grande universo de questões para uma reflexão que vá além do furor do momento, e que nos leve para os movimentos estruturais da Igreja Católica, encontra-se, possivelmente, na problemática muito complexa da pedofilia. E encontra-se nessa questão, não nela em si, mas nos danos que ela causou nas sociedades católicas.

Num cruzamento entre a moral e a ética e a dificuldade em ultrapassar os constrangimentos de uma hierarquia, não só sólida, como fundamentada na própria ideia de sacralidade consolidada pela noção de sacramento, a Igreja Católica não tem conseguido dar respostas de um nível de razoabilidade que a opinião pública espera, tendo sempre como imagem o aparelho judicial.

De facto, tendo o interessado o olhar marcado, definido, pela justiça civil, a Igreja muito pouco tem feito para “vigiar e punir” os sacerdotes que são acusados de pedofilia, usando um título famoso do filósofo Michel Foucault. Aos olhos necessitados de ver correr uma justiça que prenda, afaste e torne públicas as culpas, tal como acontece no aparelho judicial civil, a Igreja parece fugir às responsabilidades, esconder, proteger, quando, de facto, o que acontece é de natureza diversa, onde a Igreja tem instrumentos com outras eficácias diferentes de um processo dirigido pelo Ministério Público.

E esta diferença de natureza processual, que resulta da dimensão de sacralidade dos indivíduos e das funções eclesiásticas atribuídas, está a criar, arrisco essa leitura, uma percepção cada vez mais intolerante por parte dos católicos que, cada vez mais, trazem para o olhar religioso o filtro da cidadania. Neste momento, nesta situação, o crente católico, mais que sentir o vexame da pedofilia em si, sente as não respostas da estrutura.

A visita do papa Francisco ao Chile é, neste assunto, marcante. A um clima de significativa animosidade que vem desde a ditadura de Pinochet, junta-se a aparente indiferença da estrutura da Igreja Católica aos casos de pedofilia. Padres e bispos acusados de pedofilia, ou de protegerem quem é acusado, continuam em funções.

Foram as narrativas que se alteraram. Nesta visita ao Chile, as populações agiram e não ficaram caladas, passivas. Se até aqui o pedido de perdão por parte de um Papa foi significativo, nas ruas do Chile vimos tarjas a dizerem que não, que isso não bastava, que era preciso justiça. Isto é, à linguagem religiosa do perdão, a sociedade cristã, cada vez mais “civil”, exige justiça. Já não basta o gesto simbólico do pedido de desculpas.

Sem ser necessário usar como argumento demonstrativo o facto de terem sido queimadas dez igrejas no Chile, estamos perante uma mudança muito significativa no grau de rancor, de desconfiança e de acusação para com as práticas percepcionadas como responsabilidade da Igreja Católica.

Eventualmente, o líder desta milenar e imensa estrutura terá de rever o paradigma de actuação e de resposta. Mais que para se manter no mundo, para ser respeitada nele, a Igreja Católica terá de dar resposta a este grau de exigência que já não é simplesmente do quadro mental do fenómeno religioso. É o preço e são as implicações de uma secularização que olha para o mundo através do policiamento e dos processos judiciais.

Podemos estar a muito pouco tempo de uma mudança muito significativa que um novo Sumo Pontífice terá de dar caminho. Será a Igreja Católica capaz de o fazer em sociedades, como as americanas, onde os movimentos evangélicos são tão fortes?

 

Fonte: Público.