Judeus: estará em Portugal a nova terra prometida?

Há um novo fenómeno no interior português. Milhares de turistas judeus estão a invadir lugares como Castelo de Vide, Belmonte ou Trancoso para conhecer o património judaico nacional. No último ano, o número de visitantes aumentou extraordinariamente. Há novas linhas aéreas entre Portugal e Israel, novas agências especializadas, novos hotéis, novas lojas kosher. História de um retorno.
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Texto Ricardo J. Rodrigues | Fotografias Rui Oliveira/Global Imagens

 

Nas cozinhas dos hotéis que vão nascendo junto à raia, toda a gente sabe para que lado fica Jerusalém. «Essa foi uma das primeiras coisas que tivemos de aprender quando os turistas judeus começaram a chegar», diz António Lopes, proprietário do hotel Monte Filipe, um quatro estrelas com cinquenta quartos nos arredores de Castelo de Vide. Até 2015 acolhiam em média 150 hóspedes hebreus por ano, gente que vinha à procura das suas raízes no interior português.

Mas em 2017 esse número subiu para mil e neste ano esperam dobrar o milhar de dormidas em junho. «Há um verdadeiro boom no turismo judaico e isso está a revelar-se um balão de oxigénio para nós. Neste momento, estamos a treinar todos os nossos empregados para nos adaptarmos às necessidades desta nova clientela. Sobretudo na cozinha, onde a comida tem de ser confecionada sob os preceitos kosher. A carne, por exemplo, tem de ser cortada na direção de Israel.»

Na semana passada, a secretária de Estado do Turismo fez uma digressão pelas comunidades semitas dos Estados Unidos para promover o país como destino religioso judeu. «A ideia é mostrar Portugal como lugar tolerante e seguro e com uma herança judaica muito forte», dizia Ana Mendes Godinho à Notícias Magazine na véspera da partida.

«O número de israelitas a visitarem-nos explodiu e queremos que este nicho convoque gente também do outro lado do Atlântico. Portugal pode ser visitado enquanto destino final mas também pode ser um stopover [paragem por uns dias] para quem viaja para Israel.»

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A primeira frase performativa na Bíblia

E disse Deus; aja luz

 

© João Tomaz Parreira

 

Não existia ainda o homem, mas Deus preparou tudo para o receber, a partir da Sua linguagem. É esta, a linguagem, e o pensamento que distinguem o homem, criado por Deus, das outras criaturas animais.

“Então Deus disse: “Que a luz exista!” E a luz começou a existir” (Genésis, BPT).

Experimentar ler esta estrutura sintáctica, ou dito de um modo mais acessível, narrativa breve do início do primeiro capítulo do Génesis, apenas como uma narração simples para uma sequência de acontecimentos, como se de uma “reportagem” se tratasse, é não perceber o alcance teleológico da frase.

É óbvio que os modernos instrumentos da Linguística nos permitem hoje outras análises bíblico-gramaticais.

O ateísmo poderá ver ali uma explosão, um “big bang” que originou os mundos a partir da luz. O crente pode ver um enigma, sim, mas enigma revelado de Deus Criador. Os críticos do Velho Testamento, teologia e ciências da linguagem à parte, ainda assim tomarão a diegese da frase como uma metáfora de uma vontade que é do domínio do Invisível.

Poderíamos resumir, para os que contestam, a uma observação de um filósofo idealista como Wilhelm Dilthey (1833-1911) : “A religião, a mística precede a filosofia”.  E a linguística, também. Deus começou também a gramática da língua. Aquela fala divina é uma frase seminal.

A expressão imperativa do Criador poderia ter ficado apenas retida na actividade mental de Deus, mas o pensar divino teve uma acção correspondente. E toda a Bíblia é a Acção de Deus interveniente na Humanidade e na História do Homem.

Ver uma significação onde outros vão ver apenas um acontecimento, é também a lição da Semiologia sobre aquela primordial afirmação divina.

Foi um filósofo inglês, John Austin (1911-1960) que teorizou sobre o acto da fala, uma função da linguagem que baptizou de “performativa”. Isto é, “quando dizer é fazer”.

A sua obra mais significativa “How to Do Things with Words (Como fazer coisas com palavras), ajuda-nos a perceber aquela sublime linguagem performativa de Deus.

A frase divina não foi uma expressão de constatação, foi afirmativa e criadora. O que disse fez-se. É a característica da frase performativa que, depois, as instituições do homem começaram a utilizar.  Exemplo? No casamento: “Vos declaro marido e mulher”, ou no tribunal: “Condeno a…”

Até àquele momento do princípio do livro do Génesis, momento que desconhecemos, quer no cronos quer no kairós, e nenhuma ciência apenas a teologia pode descortinar, havia trevas. A terra estava sem forma, vazia, sem ordem. “Era um mar profundo coberto de escuridão” (BPT)

A emissão linguística do Criador, expressão das ciências da Linguagem, não se limitou apenas no dizer, pelo contrário, criou. A constatação veio depois do que foi feito. Hoje, e provavelmente muito antes, dir-se-ia que a expressão é mágica e encantatória.

Aliás, todos os momentos originais da Criação, no que concerne ao Universo,  que lemos no Livro do Génesis numa progressão encantatória, surgiram da palavra performativa de Deus.  “Depois Deus disse: “Que exista um firmamento entre as águas, para as separar uma das outras” (vs.6).  Há uma correlação entre o que foi feito e por que meios, a palavra performativa divina deu origem à palavra da constatação: “Deus chamou céu a este firmamento” (vs.8)

Todos (quase todos) os versículos do capítulo 1 do Génesis começam pela expressão, que traduz a acção performativa da linguagem do Senhor, “Depois Deus disse”; “Deus disse então”.

Quando leio este Princípio vem à minha mente a cor, as cores do Cosmos, e penso com o ouvido no pedido do tenor na ópera Tosca, de Puccini: “Dammi colori” e depois “Recondita armonia di bellezze diverse!”

A harmonia de beleza diversa e inaudita que ocorreu depois de cada frase performativa de Deus.

O que se tem vindo a dizer, a partir das ciências da linguagem, é que há certos enunciados que têm a capacidade de realizar, e no que corresponde ao Criador não só expressar uma vontade, mas realizar um acto criador. O próprio facto de enunciar, já em si mesmo produz o enunciado.

Por fim, quando Deus foi dizendo em cada acto criador, do que acabara de fazer que era bom ( “E Deus achou que eram coisas boas” (BPT), a sua frase verificativa expressou uma atitude metafísica de satisfação, de gozo divinal, de alegria por fazer existir coisas que têm e iriam ter sentido, designadamente para o Homem que Deus iria criar adiante.

Eu acredito que Deus teve uma atitude lírica em tudo que criou e a sua palavra criadora foi, acima de tudo, poética. O Belo não se cria a partir da fealdade de um discurso. O arquétipo da criação divina foi a Beleza na voz e no verbo de Deus.

Aveiro, 04/02/2018

 

 

 

 

 

 

 

“O equívoco” de Camus e os erros do Messianismo

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© João Tomaz Parreira

 

O entendimento da peça de teatro “O Equívoco” de Albert Camus e do desenlace final da mesma, é capaz de nos fazer pensar em um paralelismo bastante arrojado, reconheço, com os erros do Messianismo dos dias de Jesus Cristo. Em que medida é que se ensaia essa ligação, é o que veremos.

Literatura e teologia podem estar de mãos dadas, como nas obras de C.S.Lewis, ou no “Paraíso Perdido” de John Milton. Se o que estiver a ligá-las, mesmo subliminarmente, for também a historiografia bíblica.

Todavia, “O Equívoco” não tem rigorosamente nada a ver com teologia. Mas confere-nos uma ideia por contiguidade e por metáfora também. O drama, ou melhor, uma tragédia moderna, diria doméstica, foi escrita e representada em 1944. Insere-se no estudo camusiano sobre o Absurdo.

O mal entendido – como se apelida em francês-, representa um erro familiar por atitude de torpe ganância, materializada no roubo de uma fortuna e que leva ao assassinato do próprio filho da casa, que não é reconhecido quando chega.

A preocupação de Camus com este tema, parece ter sido uma evidência que o perseguia, porquanto no célebre romance “O Estrangeiro” -, talvez a obra-prima do autor argelino-francês – tem uma história similar. Na Checoslováquia, um homem partiu para fazer fortuna e regressou depois, passados anos, a casa, à família que sempre o esperou. No regresso a casa, propondo-se alugar um quarto exibe uma grande quantidade de dinheiro, porém não tendo sido reconhecido, a mãe e a irmã matam-no para o roubar.

Camus regressa à tragédia, agora em peça teatral. Uma mãe e uma irmã esperam o filho e irmão que partiu para longe. Esperam que regresse.

– Ele há-de voltar.- diz a Mãe

– Ele disse-lhe que sim? – pergunta a filha

– Disse. -responde a Mãe.

Assim começa a Cena Primeira (Livros do Brasil, “Calígula seguido de O Equívoco”, s/data, 175).

Quando ele chega, não o reconhecem como filho nem como irmão, não repararam bem nele para o seu crime ser perfeito e não deixar traços trágicos na consciência. O importante, era o visitante ser um homem de fortuna, sozinho, ao que apuraram.

– Mãe, é preciso matá-lo.- diz Marta (a filha)

– “Não há dúvida que é preciso matá-lo. – responde a mãe.

– “ É mais fácil matar o que não se conhece”- afirmou a Mãe

É aqui que somos levados à aparente ambivalência histórico-bíblica da espera do Messias, por parte do judaísmo, mais do domínio político e social, do que teológico. O Filho do homem sem beleza nem formosura, aparentemente só, para um Reino que vivia apenas do ritual. E assim, foi fácil levá-lo à crucificação porque não o conheciam, quem era aquele que se fazia passar por filho de Deus e rei dos judeus?: De facto, “é mais fácil matar o que não se conhece”.

Israel aguardava um messias para um reino e não um Cristo para a salvação da alma e do corpo. Também, se quisermos ir mais longe no plano evangélico, o autor terá ido à origem da parábola evangélica do filho pródigo, embora esta tenha o desfecho feliz.

Uma boa resposta para isso, encontramo-la nos versículos 10 e 11, do conhecido “No princípio era o Verbo” do prólogo do Evangelho de João. “Estava no mundo (…), e o mundo não o conheceu.” “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.”

Mas tal como na peça de Camus, Jesus Nazareno, o Filho e o irmão,  foi morto. De um ponto de vista extra jurídico, como sabemos, pelas irregularidades cometidas pelos judeus, foi humanamente assassinado pela lei mosaica.

Finalmente e sem meias palavras, o próprio apóstolo Pedro, no seu discurso do Pentecostes, afirma-o: “Este Jesus Nazareno (…) tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” (Actos, 2,23).

Por vezes, como neste caso, a Literatura coloca-se ao serviço da teologia e da historiografia bíblica e retoma da religião a sua visão do mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estamos já num pré-após-Francisco?

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Paulo Mendes Pinto

 

A necessidade de um novo paradigma na relação com a sexualidade e a confiança.

Seria longa a reflexão sobre a relação entre a Igreja Católica e a sexualidade. Da visão da mulher, entre um ideal que é Maria, Virgem, sem pecado, e uma Madalena, vista como prostituta, mas capaz do arrependimento, à questão da sacralidade associada ao sacerdócio e aos votos, passando pela questão da moral familiar e da recusa do uso de meios contraceptivos, terminando na castidade e no celibato dos padres, muito haveria para ser dito e discutido num quadro onde esta milenar estrutura se sente cada vez mais a perder crentes e a capacidade de dar respostas aos que nela ainda as procuram.

Mas o grande universo de questões para uma reflexão que vá além do furor do momento, e que nos leve para os movimentos estruturais da Igreja Católica, encontra-se, possivelmente, na problemática muito complexa da pedofilia. E encontra-se nessa questão, não nela em si, mas nos danos que ela causou nas sociedades católicas.

Num cruzamento entre a moral e a ética e a dificuldade em ultrapassar os constrangimentos de uma hierarquia, não só sólida, como fundamentada na própria ideia de sacralidade consolidada pela noção de sacramento, a Igreja Católica não tem conseguido dar respostas de um nível de razoabilidade que a opinião pública espera, tendo sempre como imagem o aparelho judicial.

De facto, tendo o interessado o olhar marcado, definido, pela justiça civil, a Igreja muito pouco tem feito para “vigiar e punir” os sacerdotes que são acusados de pedofilia, usando um título famoso do filósofo Michel Foucault. Aos olhos necessitados de ver correr uma justiça que prenda, afaste e torne públicas as culpas, tal como acontece no aparelho judicial civil, a Igreja parece fugir às responsabilidades, esconder, proteger, quando, de facto, o que acontece é de natureza diversa, onde a Igreja tem instrumentos com outras eficácias diferentes de um processo dirigido pelo Ministério Público.

E esta diferença de natureza processual, que resulta da dimensão de sacralidade dos indivíduos e das funções eclesiásticas atribuídas, está a criar, arrisco essa leitura, uma percepção cada vez mais intolerante por parte dos católicos que, cada vez mais, trazem para o olhar religioso o filtro da cidadania. Neste momento, nesta situação, o crente católico, mais que sentir o vexame da pedofilia em si, sente as não respostas da estrutura.

A visita do papa Francisco ao Chile é, neste assunto, marcante. A um clima de significativa animosidade que vem desde a ditadura de Pinochet, junta-se a aparente indiferença da estrutura da Igreja Católica aos casos de pedofilia. Padres e bispos acusados de pedofilia, ou de protegerem quem é acusado, continuam em funções.

Foram as narrativas que se alteraram. Nesta visita ao Chile, as populações agiram e não ficaram caladas, passivas. Se até aqui o pedido de perdão por parte de um Papa foi significativo, nas ruas do Chile vimos tarjas a dizerem que não, que isso não bastava, que era preciso justiça. Isto é, à linguagem religiosa do perdão, a sociedade cristã, cada vez mais “civil”, exige justiça. Já não basta o gesto simbólico do pedido de desculpas.

Sem ser necessário usar como argumento demonstrativo o facto de terem sido queimadas dez igrejas no Chile, estamos perante uma mudança muito significativa no grau de rancor, de desconfiança e de acusação para com as práticas percepcionadas como responsabilidade da Igreja Católica.

Eventualmente, o líder desta milenar e imensa estrutura terá de rever o paradigma de actuação e de resposta. Mais que para se manter no mundo, para ser respeitada nele, a Igreja Católica terá de dar resposta a este grau de exigência que já não é simplesmente do quadro mental do fenómeno religioso. É o preço e são as implicações de uma secularização que olha para o mundo através do policiamento e dos processos judiciais.

Podemos estar a muito pouco tempo de uma mudança muito significativa que um novo Sumo Pontífice terá de dar caminho. Será a Igreja Católica capaz de o fazer em sociedades, como as americanas, onde os movimentos evangélicos são tão fortes?

 

Fonte: Público.

A semiótica narrativa dos objectos de Gideão

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      © João Tomaz Parreira

 

O episódio bíblico-histórico de Gideão já originou um importante movimento evangélico à escala mundial. O paradigma foi, sem dúvida, a selecção tendo em vista uma determinada tarefa. Os Gideões Internacionais, como são conhecidos, seleccionados entre as diversas igrejas, desenvolvem, assim, um ministério nobre de espalhar o Livro de Deus em hotéis, escolas, hospitais, etc.

Mas a proposta fundacional daquela personagem do Velho Testamento aprofunda e desencadeia outros pensamentos e outras hermenêuticas. Porventura uma das mais aliciantes abordagens, será no âmbito da semiologia, digamos assim, dos objectos usados por Gideão.

Um episódio da história

Ao lermos o texto bíblico que narra a preparação da batalha contra os medianitas, cingimo-nos exclusivamente a que se trata de um episódio de passagem, em que Deus pretende que o seu povo de Israel compreenda que só pode ganhar combates confiando, não na sua força, mas na do seu Iavé.

Neste âmbito, o livro de Juízes é, de facto, um conjunto de eventos, de repetição de eventos, dando sempre ênfase à estrutura moral e ética da história de uma nação teocrática e na exclusiva dependência do Único Deus.

Não devemos, no entanto, ignorar que existe, designadamente no episódio «Gideão, com trezentos homens, vence os medianitas», uma narratividade literária que estrutura o alcance teológico do ensino de Deus ao seu povo, numa circunstância adversa e de crise. Convém colocar em paralelo em todo texto, o assombro da grande literatura, a imaginação, e uma linguagem. Numa palavra, a linguagem dialogal de Jeová, o próprio dizer de Deus à conversa com Gideão.

O filósofo e linguista George Steiner justificou no seu livro «Depois de Babel » a capacidade por parte do homem entender a língua de Deus, no Paraíso, pela existência de uma sintaxe divina, que ao longo da história do relacionamento de Deus com os patriarcas, profetas, sumo-sacerdotes, reis no Velho Testamento, se foi manifestando até à encarnação do Verbo. E assim dos Apóstolos até ao crente mais simples na Igreja de Cristo.

Neste relato bíblico, histórico-literário, com o seu poder de causar assombro como obra literária, a escolha dos homens culminaria depois com a escolha dos objectos e da expressão nominal simples de cada um dos mesmos.

A avaliação dos acontecimentos na estrutura da narração, dá-lhe de facto valor literário; a espiritualidade do texto, o que se pretendeu alcançar – o desígnio divino – confere-lhe o valor inspirado biblicamente, com os três objectos utilizados.

A semiologia espiritual dos cântaros, tochas e trombetas de chifre.

Os objectos apresentados na narração, representavam-se a si mesmos como objectos de uso comum, na vida e na realidade. Tiveram um papel instrumental. Mas eles apresentaram-se como uma metalinguagem também, não apenas como utensílios. Cada objecto caracterizava uma mensagem que se descreve pela semiologia. Cabe, assim, à semiologia descrever cada mensagem contida nesses três diversos tipos de comunicação.

Independentemente de tais objectos haverem tido uma funcionalidade precisa, ilustrando uma espécie de guerra psicológica engendrada pela estratégia de Gideão (in Comentário Bíblico Moody, Vol. II, pág.55 ), podemos apreciá-los pelo seu conteúdo espiritual e pelo que podem, idealmente, representar na vida do crente.

Cântaros de barro

A Bíblia Sagrada apresenta uma metáfora para falar da criatura humana como um vaso de barro nas mãos do Oleiro.

Nos livros de Isaías e de Jeremias lemos acerca do homem como barro e obra das mãos de Deus, também no plano colectivo como Deus modelou o povo de Israel, usando o exemplo de uma olaria; na epístola aos Romanos, Paulo escreve sobre nós próprios como vasos de barro para honra ou para desonra, na perspectiva de que o oleiro tem direitos sobre o barro. É mais claro ainda um texto determinante desta verdade, que o mesmo apóstolo Paulo recomendou aos crentes de Tessalónica (4:4), nomeando o corpo como vaso ( no grego,skeuos ). «Que cada um de vós saiba possuir o próprio vaso (ou corpo) em santificação ».

Mas, o vaso de cerâmica (ostrakinos) ou de barro é um continente, vale o que vale o seu conteúdo, metaforicamente.

No plano espiritual é um receptáculo, no que concerne ao ego precisa, na perspectiva bíblica, de desvestir-se ou partir-se para que resplandeça a Luz interior, como sucedeu com os cântaros ou jarros para água ( chamados na Septuaginta ydrias, os ydrías kenàs, jarros vazíos) dos homens de Gideão. Muitos séculos depois, já na Igreja Primitiva, Paulo falava de que o conhecimento da glória divina fora entregue, qual tesouro, em vasos de barro (os tais ostrakinois skeuesin) (2 Co 4.6,7) Esta «declaração surpreendente» de Paulo, explica como Deus para dar ao apóstolo o conhecimento da sua glória, lhe iluminou o coração, das trevas fez resplandecer a luz, lhe entregou um tesouro que é o Evangelho.

Lâmpadas

Iluminar, nos textos bíblicos em paralelo com a experiência histórica, não é apenas fazer claridade na escuridão.

Teologicamente, a iluminação é sobretudo fundadora do reino da Luz contra o reinado das trevas espirituais, assim como no aspecto da vida social e familiar quotidiana desses remotos tempos, a iluminação era conseguida através do fogo em lâmpadas com azeite.

Na obscuridade, o exército inimigo seria confrontado com a luz, o habitual medo do escuro funcionaria nesse episódio dos midianitas versus Gideão ao contrário, a luz repentina das tochas do outro lado iria aterrorizá-los.

Transportando tal experiência para o campo da vivência cristã, dir-se-à que tal episódio também marca a relação do crente com o mundo. Quando Jesus Cristo afirmou «vós sois a luz do mundo», foi mesmo isso que quis dizer, na decorrência da proclamação das Boas Novas que incumbe ao homem e à mulher cristãos. Portanto, o crente não é uma metáfora da luz, ele mesmo é portador dessa luz pelo novo nascimento. Paulo escreve aos Tessalonicenses que «sois filhos da Luz e filhos do dia», e, assim, o Dia do Senhor não apanhará o crente de surpresa.

Trombetas de chifre

O toque das trombetas não foi um som de beleza, um sinal estético, foi um toque por impulso da urgência. A prática do povo com as trombetas de chifre era uma experiência de vitória. Foi um paradigma que não deveria ser mudado. O objecto de osso de carneiro lembrava este como substituto no sacrifício de Isaac.

Shofar, do hebraico, é um instrumento de sopro antiquíssimo, não produz sons delicados. Não é usado por prazer ou divertimento. Gideão usou as trombetas como uma sinalização, para marcar uma presença inesperada no campo da noite. O som poderia ter uma leitura semiótica, do nosso ponto de vista menos do que a leitura do significado do objecto.

Na obscuridade da acção o inimigo seria confrontado com um som e com a representatividade de uma nação, já que a trombeta era um objecto nacional dos israelitas.

A trombeta (shofar) não tem função em serviços religiosos nos dias de hoje. Contudo, na sua transposição metafórica para a Igreja, digamos que tem um substituto, do ponto de vista do que pode simbolizar. Como experiência no campo espiritual para os cristãos, a trombeta insere-se no plano do testemunho pessoal do crente, da sua nacionalidade e cidadania dos céus, da proclamação do Evangelho e da notícia que Jesus Cristo é Redentor. Noutro plano, se quisermos escatológico, o crente é um arauto da mensagem da Parousia, que assinala a próxima Segunda Vinda do Senhor, como anuncia o rapto da Igreja.

 

“Que queres ser quando fores grande?”

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Joaquim Franco

 

Quando as luzes se acendem e os tons se melodiam, abrem-se “aspas” na rotina. Diz-se… Natal! Ao mito quase perdido nas teias do quotidiano, junta-se um misto de calor humano e afetos reciclados. A época combate a frieza das relações superficiais para reconstruir a utopia da felicidade, a experiência da solidariedade.

 

Mas o que nos distingue neste tempo e fora dele? Com que mãos enfeitamos a árvore? Se for o caso, com que barro moldamos o presépio?

As narrativas evangélicas, que desenham os contornos culturais do “nosso” Natal, fazem a deriva para a infância. Dizer natal, é dizer criança, fragilidade, proteção e… escândalo. Sim, porque isto de um Deus se dizer na fragilidade e precisar de proteção é uma provocação escandalosa à razoabilidade.

Pelo menos uma vez no ano, sintonizamos o olhar e a ideia. Ao mais próximo damos presentes. Para o que mais precisa, sabemos que nos é exigida uma presença. Mesmo que não o façamos, pelo menos uma vez no ano, andamos sintonizados.

Trago, da idade dos sonhos e das consoadas em família, uma pergunta para a qual ainda não obtive resposta – não me incomodo, mais importante que obter respostas às perguntas que conseguimos fazer, é ter a capacidade de fazer mais perguntas às respostas que julgamos ter -, e me tem acompanhado: “Que queres ser quando fores grande?”

Não me quedo pelas semânticas possíveis de uma pergunta tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexa. Seria perder tempo. Se somos em relação, não somos sem uma cainhada partilhada, um percurso na construção permanente de um nós. Neste caminho, chegar a “grande” é também acumuluar conceitos e preconceitos. E para conjugar o transitivo “querer”, teremos de retomar o equilíbro ético de Cortella, entre o quero, o posso e o devo: encontraremos a harmonia quando o que queremos ser é o que podemos ser, o que podemos ser é o que devemos ser e o que devemos ser é o que queremos ser.

Prefiro acreditar que este é o tempo dos que recusam a falência da esperança, como diria Paulo Freire. Não a esperança de “esperar”, mas a esperança de “esperançar”, dos que atuam na Procura e não ficam parados na expectativa.

Assim, teremos sempre de fazer a pergunta que nos persegue: “Que queres ser quando fores grande?” Ou, dito de outra forma: “O que andas a fazer?” Mais do mesmo? Incompleto porque sobretudo ou apenas tu, agarrado aos teus preconceitos? Ou o aventureiro que quebra barreiras, disponível para um outro que vem e está aqui ao lado, sem o qual não és?

Enredados no cinismo de interesses mesquinhos e necessidades superfluas, numa hipocrisia disfarçada de astúcia, privilegiamos a aparência dos acontecimentos e das pessoas. Para salvar a pele ou subir a montanha, esmagamos um outro, tantas vezes inadvertidamente porque nem questionamos eticamente os atos e os gestos.

Há um filme nas salas de cinema a sondar-nos neste natal. É sobre a dificil inclusão social de uma criança particularmente inteligente, que quer ser astronauta “quando for grande”, mas com uma doença rara que lhe deformou o rosto. Um filme raríssimo de sensibilidade e foco. Perante o embate dos primeiros dias de bulling na escola, a mãe conta-lhe o segredo da essência: “a aparência revela o que foste até aqui, o coração há-de revelar o que vais ser daqui por diante”.

Para conhecer realmente alguém, é preciso estar disponível para lhe dar atenção, vendo, para lá da carapaça superficial, a matéria não visível a que chamamos metaforicamente… “coração”. Um pequeno grande passo para evitar a falência da esperança. E as luzes acendem-se e os tons melodiam-se…

 

Fonte: http://sicnoticias.sapo.pt

A Corda (conto de João Tomaz Parreira)

                                

Ainda tentou erguer os olhos acima da sua cabeça, mas a luz apagou-se.
Debaixo do céu onde principiavam a pairar os corvos, que o homem já não poderia ver, porque cortara todos os laços com esse céu, o corpo não passava agora de um peso no laço da corda.
Um outro tipo de peso, denso como uma nuvem negra, tinha-se formado antes na sua consciência.
-Traí o sangue inocente – dissera ele. Ainda não pesava o ter cometido suicídio, uma proibição entre as 613 leis da Torah. Por isso, aquele suicídio seria embaraçoso, não deixava de ter uma ligação com os sacerdotes principais de Jerusalém, mais tarde até um evangelista iria levar o caso para o cristianismo.
O homem, mesmo antes do resultado final, ao saber que Jesus tinha sido condenado a morrer, resolveu o assunto.
-É verdade, é verdade, não posso alterar a história – disse com voz trémula, mas cava. E acrescentou – Se pudesse ia falar com Pilatos, dizer-lhe que o dinheiro não é tudo agora.
E foi ao fundo da memória lembrar-se da viúva que lançou a sua última moeda na caixa das esmolas do templo.
-Isso é contigo – tornaram os chefes judaicos.
-Digo-o, porque é verdade, era isso que gostaria de fazer. E atirou aos pés dos religiosos as moedas de prata.
-Ele, apesar do que lhe fiz, falou-me – ainda disse o homem, mais para si próprio do que para os dirigentes do tribunal.
-O que Ele te disse, não nos interessa agora- e fecharam-lhe a porta à conversa.
Nos seus ouvidos ressoavam como pedradas as palavras que ouvira, embora tivessem o peso do algodão que se aplica numa ferida: – Amigo, faz o que tens a fazer – dissera-lhe Ele após o beijo.
Depois desse momento, há quem garanta que o viu a chorar, mas não se pode confirmar esse acontecimento. As lágrimas são, por natureza, gotas de água suave que saem duma fonte trágica que se acorda e que ninguém sabe onde fica. As suas seriam no entanto chicotadas nas faces . O homem não podia parar de pensar nisso.
Nos últimos três anos de vida, enquanto acompanhara aquele a quem um dia chamou Mestre, o seu trabalho tinha sido tesoureiro e acumulador de decepções acerca da missão desse Mestre. Agora não seria nem tinha mais nada.
– O corpo, é a única coisa que tenho – disse para si, enquanto escolhia uma árvore adequada.
Tinha cerca de quarenta anos, evidenciava amargura, a barba crescida tornava-o escuro,
tinha um olhar aguçado nuns olhos que pareciam sempre escondidos entre duas fendas, as suas mãos eram belas, dedos compridos, quem procurasse o seu trabalho anterior não era pelas mãos que o descobriria. Era de Queriote e não havia lá a tradição da pesca, o mar estava morto.
Enforcou-se, a seguir. Teve medo de viver com a sua traição. O ter devolvido as trinta moedas não foi suficiente para tirar o vil metal da sua alma, nem os ruídos das moedas lançadas à lage de mármore se sobrepuseram aos remorsos. O coração parou, enfim, a excitação.
O local, com as suas figueiras, e o vento a espreitar por entre as folhas, era sossegado.
Pendurado debaixo da figueira cuja copa e as folhas impediam que a luz solar lhe deramasse pelo chão o desenho do seu corpo, o homem era uma sombra dentro da sombra.
O corpo já não lhe importava, seriam agora livres de se servirem dele, o que Judas I estava a enforcar era a sua alma. A pequena morte nas carótidas a apertar a maçã de Adão era o menos.

2013
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