A “Revolta de Nika”

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Paulo Mendes Pinto

Os verdadeiros desportistas, têm de afirmar altíssimo que o seu corpo, as suas capacidades, a sua luta pela superação não podem ser mais o campo para a afirmação animalesca daqueles que nunca souberam o que é o desporto

Foi memorável a minha primeira visita a Istambul. Os monumentos, todo um património único, a envolvente, a sociedade turca. Mas o que mais me marcou foi a conversa que no final da visita à Basílica de Santa Sofia tive com o guia local que me acompanhou.

O ponto de partida foi simples: quando ele me diz que a actual basílica, com quase mil e quinhentos anos de idade, não era a original, que a anterior tinha sido destruída por um incêndio; questionei se se sabia da razão. E foi aí que se abriu todo um dossier de uma imensa actualidade.

Num país também tão afectado hoje em dia com os actos nada civilizados de muitos dos que vão aos eventos desportivos, o dito guia atirou, como quem arremessa algo muito pesado, a simples frase: “A Santa Sofia foi destruída num confronto de claques desportivas”. Na altura ele contou-me um pouco da sua versão, uma versão talvez pouco rigorosa a nível histórico, mas muito sentida. Regressado a Portugal, fui tentar saber um pouco mais desse terrível evento, no qual me custava a acreditar e que, ironicamente, tinha destruído a “Santa Sabedoria”, levando o seu nome à letra.

Enfim, como em tudo, muito se pode enquadrar em termos de contexto, em termos de toda uma situação social, no fundo, de um clima de revolta latente. Mas, como causa próxima, sim, foi um grande incidente entre claques, perante a atribuição da vitória a um cavalo e não a outro, que levou a uma rebelião que incendiou parte da cidade antiga de Constantinopla, e que terminou com um banho de sangue onde terão morrido mais de 30.000 pessoas.

Hoje, longe das corridas de cavalos da Antiguidade, muito mais longe das lutas de gladiadores, parece pouco termos aprendido nestes quase dois milénios que medeiam entre nós e os acontecimentos de Constantinopla no ano de 532.

Mais uma vez, os nomes trazem-nos ironia: o nome da dita revolta, «Revolta de Nika», quer dizer “revolta da vitória”, como se fosse essa busca sôfrega de vencer o mal do desporto quando não se consegue viver a disputa pela disputa.

Mas foi por achar que o desporto é uma ferramenta excepcional para transmitir valores, que aceitei ser Embaixador do Plano Nacional para a Ética no Desporto – do IPDJ. E é pela actual situação de constantes atropelos de uma ética-mínima que tenho de elevar a voz e dizer o quanto me envergonha aquilo a que hoje teimamos em chamar desporto, mas nada dessa noção tem.

Os agentes, todos eles, têm de olhar para o que se está a passar e têm de mostrar à “república”, ao comum que somos, que repudiam este estado de coisas afastando-se da voragem de dezenas de horas semanais de instigação ao confronto em comentários televisivos perfeitamente alienadores e vazios. Os dirigentes têm de ter consciência do mal que estão a fazer à sociedade como exemplo, quando instigam e quando possibilitam que claques estejam num constante ponto de ruptura com o fair-play e muito próximo da violência, quando não da própria ilegalidade e da criminalidade.

Mas, por fim, os verdadeiros desportistas, têm de afirmar altíssimo que o seu corpo, as suas capacidades, a sua luta pela superação, aquilo que é o desporto, não podem ser mais o campo para a afirmação animalesca daqueles que nunca souberam o que é o desporto, tendo apenas feito carreiras no mais vil caciquismo, na mais baixa imposição do medo, no mais repugnante domínio das hostes pelo cortar das consciências.

Hoje, após semanas em que vimos árbitros a serem agredidos em pleno jogo, quando ouvimos alguns dirigentes com discursos inflamados que apenas fomentam a luta e o ódio, quando vemos claques a cantar músicas que desejam a morte….

Muito está mal. Urge olhar para a Constantinopla do ano 532, para ver novamente a Hagia Sophia a arder, e perceber que quem está a arder somos nós enquanto sociedade, na nossa incapacidade de tornar o desporto em algo de superior e sublime.

Como cidadão, tenho vergonha.

Estamos tão longe do desporto!….

NOTA: o autor é Embaixador do Plano Nacional para a Ética no Desporto – do IPDJ

 

Fonte: Público.

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Contra a usura: a Bíblia, a Poesia e “O Capital”

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 ©  João Tomaz Parreira  

 

A usura nada cria, no dizer do poeta americano Ezra Pound (1885-1972), mas é um modo de produção exploratório, escrevia Karl Marx em “O Capital”.

Por seu lado, antes de todas as afirmações reprobatórias, a lei de Moisés contida no Pentateuco, no livro bíblico de Deuteronómio, determinava que “se emprestarem alguma coisa a outra pessoa, não poderão entrar-lhe na casa para se apoderarem de um penhor ou reaverem o que emprestaram (…) se o homem for pobre e não puder dar-vos mais do que o próprio cobertor com que se cobre, vocês não podem dormir sob ele.”(O Livro- A Bíblia para Hoje)

No que possa concernir à usura, nem sequer pensar. A usura não podia jamais estar ao serviço da grande caridade, no Velho Testamento, muito menos no serviço cristão. O uso da usura acaba por ser um pecado contra a Moral bíblica e filosófica. E contra a Virtude.

Já no século passado o filósofo francês Merleau-Ponty (1908-1961) escrevia que  a filosofia é um esforço para reaprender como ver o mundo, mas no que concerne à usura o mundo não aprendeu nada nem com a filosofia e nem infelizmente com as leis divinas.

De facto, o próprio Aristóteles, escreveu no decorrer do ano 300 a.C, em um dos seus oito livros sobre a Política ( Πολιτικά ), estas sábias palavras:  “O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva? Ela foi inventada para facilitar as trocas; a usura, pelo contrario, faz com que o dinheiro sirva para aumentar-se a si mesmo” 

A Lei mosaica (a Bíblia)

Qual a razão subjectiva que levou ao que significa o vocábulo “usura”

(nawshak) no hebraico, isto é, “mordida”, por extensão simbólica, uma boca de serpente venenosa que morde?

“Se emprestarem dinheiro a um vosso irmão hebreu necessitado, não o farão com interesse usurário” (Êx,22:25, O Livro).

“A teu irmão não emprestarás à usura; nem à usura de dinheiro, nem  à usura de comida, nem à usura de qualquer cousa que se empreste à usura.” (Deuteronômio 23: 19-20).

O povo hebreu, no contexto da sua saída do Egipto e peregrinação para a Terra Prometida, e no futuro como Pátria da Bíblia, não poderia dar o seu dinheiro a juros, nem fazer caridade com seus víveres para obter lucro – dizia o livro de Levítico.

E, no entanto, na Idade Média, os judeus cobravam por empréstimo uma taxa ao ano de 20%.

Podemos agora legitimamente intuir, que, no século XVIII, o próprio Karl Marx leu estes parágrafos legais da Torah. A sua obra clássica, “Das Kapital”, tão detestada como incompreendida sustenta uma luta também contra a usura, a rondar a terminologia bíblica.

 “O Capital”

Do ponto de vista económico, Marx é peremptório e indesmentível: “A usura explora um dado modo de produção: não o cria”, isto é, cria riqueza sem trabalho e apenas em um sentido, o do próprio emprestador. Marx continua: “A usura atingiu nesta época uma tal amplidão, que já não quer ser vício, nem pecado, nem vergonha, mas quer fazer-se passar por grande virtude e bela honra, como se fizesse grande caridade às pessoas” (O Capital – Marx, Karl;  Delfos, 1975-529 )

A Poesia

Na poesia bíblica, designadamente no Livro dos Salmos, há uma composição considerada didáctica, o Salmo 15, que introduz uma pergunta inicial à consciência daquele que procura temer a Deus e viver em santidade. Todo o contexto deste Salmo, seja qual for a sua versão, vai no sentido dos que temem ao Senhor e desejam encontrar refúgio na Sua casa (“Senhor, quem pode achar refúgio na tua casa, / e ficar contigo no teu santo monte? – O Livro).

Aquele que / não empresta seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem assim conduz sua vida caminhará seguro e em paz.” (Bíblia King James Actualizada)

Na poesia não religiosa, ou dita secular, a usura é invectivada duramente,  ainda que em discurso poético por um poeta que tinha uma ideia sui generis sobre a economia, Ezra Pound. A sua demonização da usura exprime vergonha por uma realidade social. O seu código verbal não deixa margem para quaisquer dúvidas.

Trata-se de um dos cantos do poeta americano, um libelo em forma de ode, que faz parte da obra-prima “Os Cantos” que ocupam lugar fundamental da Literatura Universal do século XX.  Numa auto visão da obra, que o próprio poeta considerou épica, Pound ao condenar a Usura, reuniu história e economia, e disse: “ Não há história, sobretudo na nossa época, sem economia.” É o tema principal dos Cantos 31 a 51, entre os quais está o 45.  Escreve o poeta estado-unidense neste Canto: “ Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra / (…) Com usura / nenhum homem tem um paraíso / pintado na parede de sua igreja / ou onde a virgem receba a mensagem / Com usura / a lã não chega ao mercado / a ovelha não dá lucro com a usura / A usura é uma praga / Usura mata a criança no ventre” (Os Cantos, Antologia Poética, Tradução de Augusto de Campos, Editora Ulisseia, 196? )

Afirmações que não são nem gerais nem abstractas, que seguem, de resto, a lição de Ezra Pound quanto ao não uso de linguagem supérflua: “o adjectivo quando não dá vida, mata” – disse ele.

 

 

 

Graça Morais e a coragem de enfrentar o (nosso) medo

A pintora Graça Morais

A pintora Graça Morais ADRIANO MIRANDA/arquivo

 

 

 

 

Quando há mais de um ano participei na escolha da imagem que fecharia a narrativa do Centro de Interpretação da Cultura Sefardita do Nordeste Transmontano (CICS), em Bragança, pude, pela primeira vez, embrenhar-me um pouco na obra de Graça Morais.

O edifício do CICS situa-se mesmo ao lado do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, e era inevitável ir a um grupo de obras desta pintora, uma série baptizada com o nome “O medo”, buscar uma imagem que colocasse um ponto final numa exposição que estava marcada pela memória da Inquisição, pelos processos e pelos condenados, pelo seu sofrimento e morte. E era inevitável porque toda a exposição estava montada em cima da ideia do medo, da necessidade de os cripto-judeus se esconderem, sob risco de serem denunciados, perseguidos e mortos.

A imagem escolhida era exactamente o que se pretendia. Um quadro esplêndido, uma excelente peça, mas também com a típica imagética da Graça Morais, onde os seres pareciam clamar por morte. A cabra que se contorcia ao olhar-nos, estava enquadrada por um vermelho que sem ser sangue, era dor, era morte, era um turbilhão de tudo aquilo a que eu quereria fugir no meu mundo quotidiano, mas era exactamente aquele o mundo que se queria mostrar didaticamente ao visitante.

Inaugurada no dia 15 de Junho, nesse mesmo centro com o seu nome, Graça Morais mostra-nos uma grande exposição que é um forte soco na visão antropológica, na imagem da nossa memória e das nossas acções, no desejo de ser diferente e de fugir a esse medo ancestral que parece nos ter impregnado no modo de agir e de ver o mundo.

Integrado no evento Terra(s) de Sefarad, uma grande mostra e debate de cultura judaica, Graça Morais, com a curadoria de Jorge da Costa, leva-nos numa inebriante viagem através de imagens que, sendo atemporais, quase mitológicas pelos arquétipos, pela imagética definida da pintora, são também todas as tragédias dos nossos dias. Numa pintura sem tempo, Graça Morais mostra-nos como a crueza que permitiu as barbaridades de mortes passadas, como a dos cristãos-novos de Bragança, se plasma numa imensa capacidade de matar, de fazer sofrer que a nossa espécie teima em levar por diante. É, de facto, o Mal que temos aqui retratado.

Mas esse Mal tem uma gramática própria e implicações complexas na nossa mentalidade. Desde Hannah Arendt que ainda nos é mais insuportável o Mal, ou o que quer que enquadremos por baixo desse rótulo. Com esta pensadora percebemos, com a ideia da banalização do mal, que o que ele implica é um caminho que, quando cruzado com a tensão social produzida pela Santa Inquisição, por exemplo, e por toda a mentalidade que dela nos adveio, me deixa sem palavras perante a brutalidade do que isso implicou na nossa mentalidade colectiva: o normal que é ter medo.

Então, o ter medo torna-se, não num quadro pontual, mas num quotidiano, numa normalidade, como que uma visão antropológica, uma cosmovisão. O mundo é medo, e tudo o que ele implica. Somos filhos do medo, mas não no que ele é de adrenalina injectada no momento em que por ele somos invadidos. Somos filhos de um outro medo, o que nada de reacção promove, o da normalidade que não suscita em glândula alguma o acender de uma luzinha que indica urgência ou anomalia. O medo é o normal, é uma forma de estar que se transformou numa forma de ser. Não ter medo é que implica o acender de um alarme.

Retomo João de Almeida Santos e Filipa Oliveira Antunes (“Reflexões em torno do Belo […])[1] e a questão da subjectividade e da universalidade do sentimento do belo: “[…] o belo não seria confinável num conceito ou numa simples representação sensorial, já que ele transcende a dimensão do pragmático, do útil ou do interesse, como mera projecção da vontade, porque remete precisamente para essa “subjectividade universal” que o diferencia do simplesmente agradável, como defendem o Kant da Crítica do Juízo (1790) ou o Schopenhauer de O Mundo como Vontade e Representação (1819)”. Talvez o belo seja a única saída, mesmo que desconfortável, para o medo tão plasmado desde a ancestralidade na nossa cultura popular.

Seguindo a epígrafe com que Graça Morais abre a sua exposição, “É através destas pinturas que faço uma reflexão profunda sobre a resistência de mulheres e homens que procuram o seu lugar na Terra, lugar no qual recusam a fatalidade do Medo e a indignidade do Mal.” O universal que nos obriga a sair de nós mesmos porque pertencente a uma subjectividade que já não é apenas nossa, reside no tempo longo de todas as memórias e de todas as possibilidades de mal. Não é apenas mal, mas sim Mal. Avassalador, como se marcasse a condição humana.

Contudo, a narrativa de Graça Morais não é uma derrota. É dura, difícil de digerir na nossa imagem de sapiens sapiens, mas é criadora de redenção. Recuperando as tensões a que somos levados ao ver esta exposição, recentemente, numa breve entrevista Graça Morais dizia que “Nós, através da arte, podemos lutar contra a barbárie”. É por aqui que, ao mesmo tempo que somos esmagados pelo peso do Medo, somos lançados numa hermenêutica que nos remete para a libertação.

Aliás, não é nada por acaso que a exposição tem como título “A coragem e o medo”. Este medo, é condição, mas não me parece ser resignação. É dor, mas é uma dor que mostra que ele apenas existe porque a vida se mantém. E nessa pequena chama que se vislumbra num olhar, num rosto, está a saída que temos para derrubar tudo o que hoje em dia nos representa a lembrança mais distante dos critpo-judeus mortos pela Inquisição ou do drama dos refugiados nesta velha Europa.

[1] “Reflexões em torno do Belo, do Infinito e da Linha Elíptica II”, Jornal Tornado, 28-03-2017

 

Fonte: Life&Style, Público.

Felicidade ou contentamento?

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Ed René Kivitz

A neurociência está descobrindo que, quando as pessoas falam em felicidade, na verdade estão descrevendo estados de espírito, estão falando de momentos quando se sentem bem, em comparação a outros quando experimentam algum tipo de desconforto.
Não é possível encontrar uma definição completa e definitiva para a felicidade, mas qualquer que seja ela, estará associada aos estados de espírito com os quais atravessamos a vida.
Felicidade, para a maioria, é uma questão de “como estou me sentindo agora”. E isso quer dizer que, tanto a alegria indescritível de ganhar um filho, quanto a tristeza insuportável de perder alguém que a gente ama, não duram para sempre. O grande desafio que enfrentamos na correria da vida é administrar os estados de espírito com que atravessamos nossas rotinas do dia-a-dia. Por esta razão, prefiro trocar a palavra “felicidade” por “contentamento”. Contentamento deriva do latim contentu (conteúdo). Contente é aquele que tem conteúdo em si mesmo, ou é capaz de usufruir o conteúdo do momento.
A vida é o bem e o mal entrelaçados, numa dinâmica que precisamos aprender a dominar. Como disse São Paulo, o Apóstolo, precisamos aprender a nos adaptar a cada situação, adquirir a capacidade de usufruir o conteúdo do momento. Quando a vida mandar chorar, a gente chora, e quando mandar sorrir, a gente se alegra.
Viktor Frankl, um psicanalista vienense, precursor da logoterapia (terapia do sentido), que viveu muitos anos como prisioneiro do nazismo num campo de concentração, recomendou: “quando a situação for boa, desfrute-a, quando for ruim, transforme-a, e quando não puder ser transformada, transforme-se”.
A felicidade, ou melhor, o contentamento, o estado de espírito harmonioso e sereno, aquilo que descrevemos como paz interior, é uma conquista de todo dia, passo a passo. O rabino Harold Kushner disse que “tentar encontrar a Grande Resposta, a Grande Solução, realizar o Grande Feito capaz de dar sentido à nossa vida é como tentar comer a Grande Refeição, para nunca mais se ter de preocupar com a fome”, e que “a perseguição da felicidade é um objetivo errado. Você não passa a ser feliz perseguindo a felicidade. Você se torna feliz vivendo uma vida com significado”. A vida não consiste em poucos grandes momentos, mas sim em milhares de pequenos momentos aos quais emprestamos significado.
Em outras palavras, feliz é quem consegue viver um momento de cada vez, dando sentido e significado a cada passo do caminho, pois a felicidade não é lugar aonde se chega, mas um jeito como se vai.

Jesus, o perfeito supremacista branco e o eunuco etíope

É da maior desonestidade intelectual, do mais profundo sentido de desrespeito, de uma indizível infantilidade colocar o cristianismo e a sua figura fundadora como base das justificações supremacistas brancas.

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Paulo Mendes Pinto

Dear “Christian” white supremacists: your Saviour is a dark-skinned Jewish men from the Middle East who spoke Aramaic. His mom was Jewish too. James Martin, SJ

 

Iria já longo o principado de Augusto em Roma quando terá nascido Jesus, filho de Maria. Pouco se sabe da vida desta que viria a ser uma das mais importantes figuras da História da Humanidade, por muitos visto como Filho de Deus.

Contudo, e ao contrário, muito sabemos sobre essa época. Tal como hoje em dia, os tempos de Augusto eram de oportunidade e de drama. Num quadro de verdadeira globalização no Mediterrâneo Oriental, com imensas metrópoles com gentes de todas as origens, havia uma fatia da população que se adaptara e vencia nesse caldo cultural onde as identidades se diluíam, e havia quem, talvez a esmagadora maioria, sobrevivia ou morria desejando que o mundo fosse outro, vendo o demónio em tudo, desejando o fim dos tempos.

Jesus nasce num contexto ainda mais específico e complexo, onde ao parágrafo anterior há que juntar o facto de o judaísmo do séc. I e.c. estar profundamente marcado pelas questões de pureza religiosa que caracterizavam todo o não judeu como impuro, indigno, impróprio. De resto, pululavam as religiões iniciáticas que dividiam o mundo espiritual entre os que estavam dentro da salvação obtida pelos ritos e os que estavam fora, perdidos.

Ora, e apesar de alguns trechos de interpretação mais complexa, se há dominante que podemos encontrar nos discursos de Jesus, é exactamente a negação de toda a forma de segregação, fosse ela entre judeus e gentios, entre homens e mulheres, entre origens ou geografias ou, ainda, tons de pele.

Por diversas vezes Jesus se opõe à mentalidade primária da época de punir o que é diferente, de punir quem vai conta a moral dominante, ou, simplesmente, de não estar à mesa com romanos, isto é, com gentios. Tudo isso Jesus fez. Com todos comeu, com todos caminhou, a todos ajudou.

E, obviamente, nesse corolário, não é de estranhar que a doutrina religiosa que ele monta e que Paulo desenvolve, seja verdadeiramente universalista, aberta a toda a humanidade. De resto, há um episódio descrito no Novo Testamento, no livro Actos dos Apóstolos, onde se relata uma das primeiras conversões ao movimento então frágil dos que sobreviveram à morte de Jesus.

Nesse episódio, diz-se que Filipe, talvez a figura mais importante na comunidade pré-cristã da época, é levado pelo Espírito Santo para uma pista caravaneira, onde se cruza com um eunuco, alto-funcionário da rainha etíope. Para espanto, lia um texto bíblico do profeta Isaías, e pediu a Filipe ajuda para o compreender. Conhecendo a mensagem de Jesus, junto de uma poça de água, faz a derradeira pergunta: “Que impede que eu seja baptizado?” (8; 36). Converte-se de imediato e é baptizado.

Mas a pergunta deste eunuco é fundamental e não é simples retórica. É marca profundamente ideológica. Este que é um dos primeiros convertidos ao cristianismo, não sendo judeu de origem, tinha em si tudo o que os preconceitos religiosos abominavam: era presumivelmente negro, era estrangeiro, e tinha uma sexualidade não normal, era eunuco – isto para além de, ao não ser judeu, ser impuro!

E é esta figura, com tudo o que de negativo ela tinha para ser repudiada, que é convertida sem hesitação por Filipe. Estava lançada a tónica do que o Cristianismo deveria ser. O Cristianismo tem uma longa e muito complexa história de atropelos da dignidade humana, mas não terá sido por acaso que foi em ambiente cultural cristão que os mais importantes desenvolvimentos no campo dos Direitos Humanos se deram, começando pela abolição da escravatura e da pena de morte.

É da maior desonestidade intelectual, do mais profundo sentido de desrespeito, de uma indizível infantilidade colocar o cristianismo e a sua figura fundadora como base das justificações supremacistas brancas. Termino recuperando as palavras do Pe. Jesuíta James Martin: Jesus não era branco, era judeu, e não falava inglês. Era um judeu cosmopolita, que cruzava culturas, e que veio democratizar a ideia de que todo o ser humano pode ter a vida eterna. Acredite-se na sua mensagem, ou não. Ela foi um imenso avanço civilizacional.

E isto não é religião, é o que de fundamental a religião cristã deixou à nossa cultura.

 

Fonte: Público.

Intermediários para o sofrimento – gente como nós

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© João Tomaz Parreira

 

Nos princípio da década de 60, o psicólogo judeu americano Stanley Milgram (milgram é maçã em hebraico), levou a cabo com todas as críticas e contestações possíveis, um estudo de psicologia social que veio revelar o que anda escondido. A maioria das pessoas comuns, gente como nós, dos mais diversos extractos da sociedade, é capaz de infligir dor e sofrimento aos outros se for obrigada a isso. O perigo da obediência cega a uma autoridade, seja ela qual for, apenas para obedecer sem critério.

A ideia para esse estudo surgiu do julgamento mediático do nazi Adolfo Eichmann, julgado e condenado à pena de morte pela forca, abrindo uma excepção à lei israelita, em 1962 na cidade de Jerusalém, como responsável por crimes contra a Humanidade e o Holocausto. Ele planeou e dirigiu a prisão, o transporte e o extermínio de 6 milhões de pessoas, não como um simples executor físico, mas como um burocrata que “apenas cumpria ordens”, como alegou no tribunal. “As ordens eram o mais importante da minha vida e tinha que lhes obedecer sem discussão”- escreveu no seu diário na prisão.

Vários psiquiatras que o acompanharam no cárcere, declararam que Eichmann estava mentalmente são, que tinha uma vida familiar normal e que era uma pessoa como nós, apesar de ser uma das mais altas patentes do regime nazi.

A filósofa Hanna Arendt (1906-1975), que enquanto jornalista assistiu ao julgamento, tendo escrito depois a obra “Eichmann em Jerusalém: A reportagem sobre a banalidade do Mal” (tradução nossa à letra), deu origem ao conceito fundamental da sua carreira, a revelação da “banalidade do Mal”. Escrito em 1963 com base nos relatos que foi fazendo para revista The New Yorker, a reapreciação do Mal do ponto de vista kantiano, a luta entre a Ética e o Mal, mas levado para a política e para o Estado.

Hannah Arendt escreveu acerca do acusado que este se declarou “inocente face às acusações de que sou alvo”, o que a comunidade judaica na América não recebeu bem. Mas o seu advogado, Robert Servatius, contratado por Eichmann e pago pelo Estado de Israel, explicou o posicionamento do seu cliente: “Eichamnn sente-se culpado perante Deus, não perante a Lei”.

 

A experiência Milgram

Nesta experiência, os participantes contratados revelaram como se pode obedecer às autoridades mesmo que estas contradigam o bom senso individual, a ética, a moral e a religião.

Milgram queria averiguar da facilidade com que se convence gente comum, não criminosos, a cometer maldades, se não idênticas às que os nazis cometeram na II Guerra Mundial, designadamente sobre os judeus, mas no mesmo sentido do Mal inexplicável e absoluto. A chave da sua experiência com dezenas de cobaias, homens e mulheres, negros e brancos, americanos médios, com escolaridades primárias até doutorados, pacatos e desconhecidos cidadãos urbanos, é a “facilidade” e a continuação de proporcionar dor mesmo quando ouve os “gritos” do outro.

A experiência na qual não vamos deter-nos exaustivamente, porque pode ser lida em pormenor e com grafismo na Wikipédia, era a seguinte:

Um investigador e um aluno, actores, e o “professor”, o sujeito voluntário da experiência, ao qual se pagava 4,50 dólares pela sessão. O “aluno-actor” estava numa sala, incomunicável, a não ser pelas reações sonoras à dor que ia “sentindo”. O “professor” noutra contígua, fazendo perguntas, declarando que as respostas estavam erradas, e acionando os interruptores do aparelho que produzia choques eléctricos que iam de 45 a 450 watts. As descargas iam-se sucedendo.

No início o “alegado” professor, a cobaia, recebia uma descarga de 45 vóltios para sentir a dor que iria causando ao suposto “aluno”. Isto até à intensidade da corrente eléctrica de 450, a qual, na realidade, pode ser mortal. O “aluno” dizia sempre que tinha problemas cardíacos. Os “gritos” iam-se seguindo a cada erro e a cada descarga. O “actor” que desde o início, obviamente, já havido tirado os eléctrodos dos seus pulsos, ia suplicando a cada nova intensidade do choque que não aguentava nem aguentaria mais, que deveriam parar.

Mas o “ investigador” ia ordenando ao participante-“professor” coisas como “você não tem alternativa”, “não pode parar”, “tem que continuar a cada resposta errada”.

Alguns “professores” reagiram, recusaram-se a continuar, mas sob as ordens em tom enérgico e impiedoso iam prosseguindo. Houve alguns que abandonaram mesmo a experiência a meio, à medida que a intensidade do choque aumentava, diziam não se responsabilizar pelo que pudesse acontecer do outro lado ao “aluno”.

 

A obediência e a autoridade na Bíblia Sagrada

Nos relatos sobre obediência de que podemos dispor na Bíblia Sagrada, do ponto de vista social e de Estado, no Velho Testamento sobretudo, a obediência à autoridade nunca é cega e sem critério. Porque a autoridade divina não é cega e destituída de critério, nem obriga o ser humano a saltos no escuro.

Tratava-se de obediência profética e a ordens divinas. Eram os desígnios e a vontade de Deus que imperavam, ainda que o homem não os entendesse. O profeta Jeremias transmite, no seu Livro, uma expressão de Deus que nos dá a medida dos pensamentos divinos sobre o Homem: “ Pensamentos de paz, e não de mal” (29,11)

Bem pelo contrário, o povo hebreu foi quem acabou por suportar obediências irrecusáveis a outras entidades em que o primado foi a banalidade do mal, no Egipto; na diáspora da Babilónia; depois mais tarde na própria Palestina sob o Império Romano.

Séculos depois, para além os chamados “pogroms” no Leste europeu, e que o romancista Prémio Nobel judeu-russo Isaac Bashevis Singer (1902-1991) bem retratou na sua obra “The Slave” (“A Escrava”);  houve no Século XX o Holocausto, e antes da década de 50, os poucos judeus que regressaram à Palestina tiveram ainda que suportar os jogos da política internacional, a que os britânicos não foram alheios, até ao estabelecimento do Estado de Israel em Maio de 1948.

No Novo Testamento, a palavra obediência não está por acaso contida nas expressões de Jesus Cristo, afirmou “Serão meus amigos se fizerem o que vos mando” (João, 15,14)  e do autor  da Carta aos Hebreus, o conhecido “obedeçam aos vossos pastores, aceitando as suas directivas, porque eles procuram estar atentos às vossas almas” (13, 17). E quanto à palavra “autoridade” ( ἐξουσίαν), autoridade nos actos e nas palavras de ensino, ela está cometida sobretudo a Jesus Cristo, paradigmaticamente no Evangelho de Mateus (7,29).

O testemunho cristão na sociedade de pós-verdades

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Tony Watkins

 

A verdade foi destruída e desapareceu dos seus lábios”, Jr 7.28.

Vivemos hoje numa sociedade de pós-verdades. O adjetivo pós-verdade foi a palavra do ano de 2016 do dicionário Oxford. Ele se refere às “circunstâncias nos quais fatos objetivos são menos influentes na formação de opiniões públicas do que o apelo emocional”. Isto descreve perfeitamente as campanhas políticas de 2016 que levaram à votação pelo “Brexit” no Reino Unido e à eleição presidencial nos Estados Unidos.[1]

Casper Grathwohl, presidente da Oxford Dictionaries, disse que a crescente popularidade do termo “está sendo impulsionada pelo crescimento das mídias sociais como fonte de notícias e pela crescente falta de confiança nos fatos oferecidos pela mídia estabelecida”.
Ele sugere que o termo irá se tornar “uma das palavras que definirá a nossa época”.[2]

Grathwohl insinua que o termo pós-verdades está intrinsecamente conectado com o dilúvio de “notícias falsas” que temos experimentado. Jonathan Freedland escreve: “Nesta era de pós-verdades políticas, aquele que não hesita em mentir pode ser rei. Quanto mais descarada a desonestidade, menos ele se importará em ser descoberto em flagrante e mais poderá prosperar. E aqueles pedantes que ainda estão presos aos fatos, evidências e todas as outras coisas desinteressantes, são deixados para trás, enquanto ainda começam amarrar seus sapatos, a mentira já se espalhou por metade do mundo. [3]

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