“O Manuscrito Inacabado”, de Jorge Pinheiro: notas breves e iniciais de um leitor apressado

v livro (2)

 

 

João Tomaz Parreira

 

Este longo Comentário ao capítulo 16, versículo 1 ao 16, do Evangelho de João, do meu velho amigo e “compagnon de route” Jorge Pinheiro (Letras d’Ouro, 2018), faz com que exista um paralelismo entre o real das palavras de Jesus Cristo e a representação do Seu discurso na linguagem dos outros, isto é, dos Evangelistas.

Nos nossos dias o que temos de Cristo, quanto à Sua mensagem e mais do que esta, o seu Pensamento, é a Palavra escrita pelos Outros, do Seu discurso oral e discurso de poder – que nos inebria e ao mesmo tempo, de acordo com Roland Barthes, nos faz ver a nossa culpa – a sua representação para usar uma expressão da Linguística e da Semiologia.

O que muitos das multidões que O ouviram não aceitaram (“duro é este discurso quem o poderá suportar?”), há biliões multitudinários que, desde o Século I até ao presente XXI, creem, aceitam e praticam. Os Evangelhos representam não apenas a Vida quotidiana – se assim me posso exprimir- do Cristo, mas sobretudo as Suas palavras, os seus discursos de poder que faziam ver a culpa e o pecado dos ouvintes, o chamado kerygma, foi sempre em Cristo uma representação revelada em actos de poder também.  De facto, desde a antiguidade que as palavras, orais ou escritas, procuraram representar sempre alguma coisa. Mas, acima de tudo, as palavras de Jesus transformaram o mundo. Tocaram a alma, depois de tocar o intelecto – porque o crer nas palavras do Nazareno não é um salto no escuro.

A certa altura, logo nos inícios do seu livro, o autor lembra-nos que “mesmo não tendo a palavra oral do Nazareno, temos a sua palavra escrita, com o mesmo poder e energia. A preponderância da palavra escrita sobre a oral deve-se ao facto de a palavra escrita estar como que congelada no suporte que a sustenta. Não está dependente de factores a ela externos” (pág.23). Todos gostaríamos de ter ainda hoje esse suporte, a voz do Amado.

É natural que não tenhamos hoje, como desde que o Filho de Deus ascendeu aos Céus, a Sua palavra oral. Mas não ficamos nem no escuro nem no silêncio – temos a Sua palavra escrita, não por Ele, mas pelos outros e por essa mesma razão, sempre palavra inacabada até que venha a eternidade.

Os autores dos Evangelhos, os sinópticos e o de João, são como um espelho que reflecte a palavra do Nazareno, como nuns versos de Sylvia Plath sobre o espelho: “Não faço pré-julgamentos / tudo o que vejo aceito sem reservas”, uma outra tradução mais surrealista diz ”tudo o que vejo engulo de imediato”. Não sei qual a melhor asserção para captar o que os Evangelhos são com um espelho do que o Filho de Deus foi proclamando, com Seu discurso presencial. E não posso deixar de me lembrar aqui das palavras de Jeová ao profeta Ezequiel: “Filho do homem come o que achares; come este rolo, e vai, fala à casa de Israel. Então abri a minha boca, e me deu a comer o rolo”.

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