Nos 500 anos da Reforma, um ponto prévio sobre anti-semitismo

luts

 

João Tomás Parreira

 

O ponto prévio a que aludo em título, faz parte da minha certeza de que todos os evangélicos que neste ano de 2017 se vão debruçar em conferências, em colóquios, ou simples evocações em púlpito sobre o meio milénio da Reforma luterana, não esquecerão um simples facto.  Que a “história faz-se com textos”.  Foi o historiador Lucien Febvre que aduziu ao estudo da História esta fórmula. Acrescentando que “toda a história é escolha”.

As 95 Teses de Vitemberga, que hoje as nossas Igrejas Evangélicas recuperam, e os livros de Lutero “Do Cativeiro Babilónico da Igreja”, “O Pai Nosso” ou “Da Liberdade Cristã”, exempli gratia, são o caudal do grande rio luterano, que a História da Igreja após 1517 alimenta.

Mas é preciso também percebermos que nas margens desse rio há pontos de interrogação e zonas perigosas. É natural que assim seja, porque manter e bem Martinho Lutero como ícone do protestantismo, um ícone severo diga-se em abono da História, devemos em bom rigor histórico entender que existe uma historiografia por detrás do Monge, que nem por isso o torna, aos nossos olhos, menos Homem cristão. Não podemos por de parte a orteguiana (de Ortega Y Gasset) consideração de ao homem corresponder a sua circunstância.

Não tomemos um ar de espanto se dissermos que Lutero foi anti-semita e que influenciou o anti-semitismo católico na Alemanha e depois protestante a partir do Século XVI.  Ora o anti-semitismo poderia ter sido apenas uma corrente do pensamento cristão sobre as coisas do judaísmo, porém, o facto é que conduziu ao Holocausto no século XX. Culpa de Lutero? Claro que não, mas as suas palavras não terão deixado de pesar.

Martinho Lutero afirmou: “os judeus são para nós um pesado fardo, a calamidade do nosso ser, são uma praga no meio das nossas terras”, frases que foram já consideradas como um “massacre homilético” de 1543, “Sobre os Judeus e as Suas Mentiras”. “Possamos libertar-nos desta carga demoníaca insuportável- os Judeus!”

A virulência destas palavras de Lutero têm também cinco séculos, para sermos evangélicos intelectualmente honestos teremos de as não omitir hoje. Veremos se há coragem protestante nestas comemorações para abordar esta temática.
A própria Igreja Evangélica Luterana na América reconheceu, em 1994, “as diatribes anti-semitas de Lutero e os seus escritos contra os judeus” e expressou o seu profundo pesar.

 

 

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