A heresia do desamor

 

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José Brissos-Lino

 

Um grupo de 79 signatários, dentre os quais não constam cardeais, bispos, teólogos ou figuras de maior expressão no catolicismo, entendeu dirigir ao Papa e ao mundo uma correcção (“Correctio filialis de haeresibus propagatis”), através dum documento tornado público, onde acusam insistentemente o papa Francisco de espalhar heresias na fé católica. Baseiam-se em particular na exortação apostólica “Amoris Laetitia” (A Alegria do Amor), e em geral em “outras palavras, actos e omissões de Sua Santidade.”

Simples leigos ousam “corrigir” assim o papa, acusando-o de heresia, e explicando que quem o faz “peca mortalmente e perde a vida eterna”. Estes leigos sabem que têm as costas quentes pela ala mais conservadora do Vaticano, havendo entre eles sedevaticanistas (que consideram que a Igreja não tem Papa desde Pio XII), membros da TFP (Tradição, Família e Propriedade), organização católica brasileira de extrema-direita, que apoiou a ditadura militar e as prisões, torturas e mortes de opositores ao regime, e um inimigo feroz das investigações contra os milhares de casos de abuso de menores na Austrália. O banqueiro italiano Ettore Gotti Tedeschi é o líder do manifesto

O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, e o ataque a Lutero e ao ecumenismo.

Embora reconheçam a necessidade de obedecer aos superiores, todavia reclamam o direito de “serem governados de acordo com a lei.” Não se importam de utilizar o episódio em que Paulo confronta Pedro (Gálatas 2), para daí concluir, pela mão de textos de Tomás de Aquino, Agostinho de Hipona e do próprio Código de Direito Canónico, que estão à vontade.

Esquecem-se, porém, que a repreensão paulina nada tem que ver com matéria de fé e doutrina, mas de comportamento dúplice, face a judeus e gentios. E esquecem-se, sobretudo, que Pedro não era superior de Paulo, sendo que ambos eram apóstolos e não existia hierarquia na igreja do I século, apenas uma autoridade apostólica comum a ambos.

Além disso Paulo não considerou Pedro herético, ao contrário do que os subscritores afirmam repetidamente sobre Francisco, ao longo de todo o documento.

Os autores afirmam adesão sincera à doutrina da infalibilidade papal, mas depois desvalorizam-na por completo ao admitir que, afinal, ela não é para levar a sério, a não ser quando o papa é da sua linha doutrinário-conservadora, segundo se entende. Acto contínuo, chegam ao ponto de questionar a “validade da renúncia” de Bento XVI ao pontificado, sugerindo que Francisco ocupará ilegitimamente a cadeira do Vaticano…

Como se isto não bastasse, os subscritores passam a acenar com dois fantasmas, aos quais tentam colar Francisco. O primeiro é o Modernismo e o segundo os ensinamentos de Lutero. Deste modo se desmascaram por completo nas suas intenções e filiações.

Francisco é um crítico severo dos abusos do sistema capitalista, que já classificou como “ditadura subtil”, e pouco “amigo” dos bancos: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto.” Já o banqueiro arvorado em líder e porta-voz dos conservadores rebelados acha o capitalismo uma coisa quase divina.

Investigado pela justiça italiana em 2007, o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi – sempre identificado pela imprensa católica conservadora como “economista” – é amigo do homem forte do papado de Ratzinger, o todo-poderoso cardeal Tarcísio Bertone que está envolvido num escândalo de desvio de dinheiro do hospital pediátrico Bambino Gesù, do Vaticano, para obras no seu apartamento de luxo. Bertone nomeou então Gotti para gestor das finanças da Cidade do Vaticano. Em 2009 foi nomeado por Bento XVI presidente do IOR, o Banco do Vaticano, mas passado um ano foi acusado pela Procuradoria de Roma de violações às normas contra a lavagem de dinheiro nas instituições financeiras, e em 2012 foi afastado do Banco.

Richard Gaillardetz, teólogo do Boston College e ex-presidente da Associação Católica Teológica dos EUA afirma, porém, que os signatários “são figuras marginais” na Igreja e “devem ser reconhecidos como vozes extremistas e automarginalizadas”.

Os signatários atacam Francisco, mas o seu objectivo final é fazer parar a opção da igreja católica pelos pobres e frágeis e revogar o Vaticano II, advogando a restauração do Concílio de Trento (1545-1563), que marcou o rompimento da Igreja com a Modernidade nascente e significou uma declaração de guerra à Reforma Protestante.

Como escreveu Inês Cardoso no Jornal de Notícias: “O que está em confronto, nas posições que agora se manifestam publicamente, não é apenas a conceção do sacramento do matrimónio ou um princípio teológico. É toda uma visão das relações humanas que ao longo dos séculos colocou completamente a tónica na culpa, relegando para plano muito secundário o perdão e o acolhimento.

Mergulhando na Bíblia, Jesus Cristo é alguém que se senta à mesa dos pecadores, perdoa o cobrador de impostos que enriqueceu por vias tortuosas, arranca a mulher adúltera à pena de morte e está sempre, sem exceção, do lado dos fracos. Historicamente, a Igreja fez demasiadas vezes o inverso. E com isso contagiou uma forma de ser que se foca social e culturalmente no apontar de dedo às diferenças, e menos do que devia no respeito pelo outro. As religiões influenciam inequivocamente o meio em que intervêm. É pena que a laicização nos leve a ignorar debates que acabam por nos tocar, mesmo que nem o notemos.”

 

 

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