Jesus, o perfeito supremacista branco e o eunuco etíope

É da maior desonestidade intelectual, do mais profundo sentido de desrespeito, de uma indizível infantilidade colocar o cristianismo e a sua figura fundadora como base das justificações supremacistas brancas.

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Paulo Mendes Pinto

Dear “Christian” white supremacists: your Saviour is a dark-skinned Jewish men from the Middle East who spoke Aramaic. His mom was Jewish too. James Martin, SJ

 

Iria já longo o principado de Augusto em Roma quando terá nascido Jesus, filho de Maria. Pouco se sabe da vida desta que viria a ser uma das mais importantes figuras da História da Humanidade, por muitos visto como Filho de Deus.

Contudo, e ao contrário, muito sabemos sobre essa época. Tal como hoje em dia, os tempos de Augusto eram de oportunidade e de drama. Num quadro de verdadeira globalização no Mediterrâneo Oriental, com imensas metrópoles com gentes de todas as origens, havia uma fatia da população que se adaptara e vencia nesse caldo cultural onde as identidades se diluíam, e havia quem, talvez a esmagadora maioria, sobrevivia ou morria desejando que o mundo fosse outro, vendo o demónio em tudo, desejando o fim dos tempos.

Jesus nasce num contexto ainda mais específico e complexo, onde ao parágrafo anterior há que juntar o facto de o judaísmo do séc. I e.c. estar profundamente marcado pelas questões de pureza religiosa que caracterizavam todo o não judeu como impuro, indigno, impróprio. De resto, pululavam as religiões iniciáticas que dividiam o mundo espiritual entre os que estavam dentro da salvação obtida pelos ritos e os que estavam fora, perdidos.

Ora, e apesar de alguns trechos de interpretação mais complexa, se há dominante que podemos encontrar nos discursos de Jesus, é exactamente a negação de toda a forma de segregação, fosse ela entre judeus e gentios, entre homens e mulheres, entre origens ou geografias ou, ainda, tons de pele.

Por diversas vezes Jesus se opõe à mentalidade primária da época de punir o que é diferente, de punir quem vai conta a moral dominante, ou, simplesmente, de não estar à mesa com romanos, isto é, com gentios. Tudo isso Jesus fez. Com todos comeu, com todos caminhou, a todos ajudou.

E, obviamente, nesse corolário, não é de estranhar que a doutrina religiosa que ele monta e que Paulo desenvolve, seja verdadeiramente universalista, aberta a toda a humanidade. De resto, há um episódio descrito no Novo Testamento, no livro Actos dos Apóstolos, onde se relata uma das primeiras conversões ao movimento então frágil dos que sobreviveram à morte de Jesus.

Nesse episódio, diz-se que Filipe, talvez a figura mais importante na comunidade pré-cristã da época, é levado pelo Espírito Santo para uma pista caravaneira, onde se cruza com um eunuco, alto-funcionário da rainha etíope. Para espanto, lia um texto bíblico do profeta Isaías, e pediu a Filipe ajuda para o compreender. Conhecendo a mensagem de Jesus, junto de uma poça de água, faz a derradeira pergunta: “Que impede que eu seja baptizado?” (8; 36). Converte-se de imediato e é baptizado.

Mas a pergunta deste eunuco é fundamental e não é simples retórica. É marca profundamente ideológica. Este que é um dos primeiros convertidos ao cristianismo, não sendo judeu de origem, tinha em si tudo o que os preconceitos religiosos abominavam: era presumivelmente negro, era estrangeiro, e tinha uma sexualidade não normal, era eunuco – isto para além de, ao não ser judeu, ser impuro!

E é esta figura, com tudo o que de negativo ela tinha para ser repudiada, que é convertida sem hesitação por Filipe. Estava lançada a tónica do que o Cristianismo deveria ser. O Cristianismo tem uma longa e muito complexa história de atropelos da dignidade humana, mas não terá sido por acaso que foi em ambiente cultural cristão que os mais importantes desenvolvimentos no campo dos Direitos Humanos se deram, começando pela abolição da escravatura e da pena de morte.

É da maior desonestidade intelectual, do mais profundo sentido de desrespeito, de uma indizível infantilidade colocar o cristianismo e a sua figura fundadora como base das justificações supremacistas brancas. Termino recuperando as palavras do Pe. Jesuíta James Martin: Jesus não era branco, era judeu, e não falava inglês. Era um judeu cosmopolita, que cruzava culturas, e que veio democratizar a ideia de que todo o ser humano pode ter a vida eterna. Acredite-se na sua mensagem, ou não. Ela foi um imenso avanço civilizacional.

E isto não é religião, é o que de fundamental a religião cristã deixou à nossa cultura.

 

Fonte: Público.

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