Intermediários para o sofrimento – gente como nós

mil

 

© João Tomaz Parreira

 

Nos princípio da década de 60, o psicólogo judeu americano Stanley Milgram (milgram é maçã em hebraico), levou a cabo com todas as críticas e contestações possíveis, um estudo de psicologia social que veio revelar o que anda escondido. A maioria das pessoas comuns, gente como nós, dos mais diversos extractos da sociedade, é capaz de infligir dor e sofrimento aos outros se for obrigada a isso. O perigo da obediência cega a uma autoridade, seja ela qual for, apenas para obedecer sem critério.

A ideia para esse estudo surgiu do julgamento mediático do nazi Adolfo Eichmann, julgado e condenado à pena de morte pela forca, abrindo uma excepção à lei israelita, em 1962 na cidade de Jerusalém, como responsável por crimes contra a Humanidade e o Holocausto. Ele planeou e dirigiu a prisão, o transporte e o extermínio de 6 milhões de pessoas, não como um simples executor físico, mas como um burocrata que “apenas cumpria ordens”, como alegou no tribunal. “As ordens eram o mais importante da minha vida e tinha que lhes obedecer sem discussão”- escreveu no seu diário na prisão.

Vários psiquiatras que o acompanharam no cárcere, declararam que Eichmann estava mentalmente são, que tinha uma vida familiar normal e que era uma pessoa como nós, apesar de ser uma das mais altas patentes do regime nazi.

A filósofa Hanna Arendt (1906-1975), que enquanto jornalista assistiu ao julgamento, tendo escrito depois a obra “Eichmann em Jerusalém: A reportagem sobre a banalidade do Mal” (tradução nossa à letra), deu origem ao conceito fundamental da sua carreira, a revelação da “banalidade do Mal”. Escrito em 1963 com base nos relatos que foi fazendo para revista The New Yorker, a reapreciação do Mal do ponto de vista kantiano, a luta entre a Ética e o Mal, mas levado para a política e para o Estado.

Hannah Arendt escreveu acerca do acusado que este se declarou “inocente face às acusações de que sou alvo”, o que a comunidade judaica na América não recebeu bem. Mas o seu advogado, Robert Servatius, contratado por Eichmann e pago pelo Estado de Israel, explicou o posicionamento do seu cliente: “Eichamnn sente-se culpado perante Deus, não perante a Lei”.

 

A experiência Milgram

Nesta experiência, os participantes contratados revelaram como se pode obedecer às autoridades mesmo que estas contradigam o bom senso individual, a ética, a moral e a religião.

Milgram queria averiguar da facilidade com que se convence gente comum, não criminosos, a cometer maldades, se não idênticas às que os nazis cometeram na II Guerra Mundial, designadamente sobre os judeus, mas no mesmo sentido do Mal inexplicável e absoluto. A chave da sua experiência com dezenas de cobaias, homens e mulheres, negros e brancos, americanos médios, com escolaridades primárias até doutorados, pacatos e desconhecidos cidadãos urbanos, é a “facilidade” e a continuação de proporcionar dor mesmo quando ouve os “gritos” do outro.

A experiência na qual não vamos deter-nos exaustivamente, porque pode ser lida em pormenor e com grafismo na Wikipédia, era a seguinte:

Um investigador e um aluno, actores, e o “professor”, o sujeito voluntário da experiência, ao qual se pagava 4,50 dólares pela sessão. O “aluno-actor” estava numa sala, incomunicável, a não ser pelas reações sonoras à dor que ia “sentindo”. O “professor” noutra contígua, fazendo perguntas, declarando que as respostas estavam erradas, e acionando os interruptores do aparelho que produzia choques eléctricos que iam de 45 a 450 watts. As descargas iam-se sucedendo.

No início o “alegado” professor, a cobaia, recebia uma descarga de 45 vóltios para sentir a dor que iria causando ao suposto “aluno”. Isto até à intensidade da corrente eléctrica de 450, a qual, na realidade, pode ser mortal. O “aluno” dizia sempre que tinha problemas cardíacos. Os “gritos” iam-se seguindo a cada erro e a cada descarga. O “actor” que desde o início, obviamente, já havido tirado os eléctrodos dos seus pulsos, ia suplicando a cada nova intensidade do choque que não aguentava nem aguentaria mais, que deveriam parar.

Mas o “ investigador” ia ordenando ao participante-“professor” coisas como “você não tem alternativa”, “não pode parar”, “tem que continuar a cada resposta errada”.

Alguns “professores” reagiram, recusaram-se a continuar, mas sob as ordens em tom enérgico e impiedoso iam prosseguindo. Houve alguns que abandonaram mesmo a experiência a meio, à medida que a intensidade do choque aumentava, diziam não se responsabilizar pelo que pudesse acontecer do outro lado ao “aluno”.

 

A obediência e a autoridade na Bíblia Sagrada

Nos relatos sobre obediência de que podemos dispor na Bíblia Sagrada, do ponto de vista social e de Estado, no Velho Testamento sobretudo, a obediência à autoridade nunca é cega e sem critério. Porque a autoridade divina não é cega e destituída de critério, nem obriga o ser humano a saltos no escuro.

Tratava-se de obediência profética e a ordens divinas. Eram os desígnios e a vontade de Deus que imperavam, ainda que o homem não os entendesse. O profeta Jeremias transmite, no seu Livro, uma expressão de Deus que nos dá a medida dos pensamentos divinos sobre o Homem: “ Pensamentos de paz, e não de mal” (29,11)

Bem pelo contrário, o povo hebreu foi quem acabou por suportar obediências irrecusáveis a outras entidades em que o primado foi a banalidade do mal, no Egipto; na diáspora da Babilónia; depois mais tarde na própria Palestina sob o Império Romano.

Séculos depois, para além os chamados “pogroms” no Leste europeu, e que o romancista Prémio Nobel judeu-russo Isaac Bashevis Singer (1902-1991) bem retratou na sua obra “The Slave” (“A Escrava”);  houve no Século XX o Holocausto, e antes da década de 50, os poucos judeus que regressaram à Palestina tiveram ainda que suportar os jogos da política internacional, a que os britânicos não foram alheios, até ao estabelecimento do Estado de Israel em Maio de 1948.

No Novo Testamento, a palavra obediência não está por acaso contida nas expressões de Jesus Cristo, afirmou “Serão meus amigos se fizerem o que vos mando” (João, 15,14)  e do autor  da Carta aos Hebreus, o conhecido “obedeçam aos vossos pastores, aceitando as suas directivas, porque eles procuram estar atentos às vossas almas” (13, 17). E quanto à palavra “autoridade” ( ἐξουσίαν), autoridade nos actos e nas palavras de ensino, ela está cometida sobretudo a Jesus Cristo, paradigmaticamente no Evangelho de Mateus (7,29).

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