A identidade do altar

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© João Tomaz Parreira

 

No monte Carmelo, os profetas de Baal, ao pretenderem responder ao desafio de Elias, por assim dizer, forjaram um «avivamento». Eles clamavam em altas vozes, eles saltavam, eles profetizavam. No entanto, até os críticos modernos do Movimento Pentecostal admitem que eles não falaram em línguas estranhas e que, apesar de todo o barulho, o seu movimento «espiritual» era falso.

Todos sabemos que os 450 profetas de Baal estavam apenas a procurar responder ao confronto com o profeta de Deus, que não estavam à procura de nenhum «pentecostes» ou avivamento; mas procurariam, na sua tradição cananeia, amonita, com influências remotamente egípcias, apelar às suas divindades pelo espectáculo da voz e do corpo e de sacríficios inflingidos ao corpo.

Ao contrário, Elias estava a demarcar o terreno, para além da linha plausível e humana, a fim de que um genuíno avivamento espiritual viesse a Israel. O que Elias estava a fazer era simbólico, por um lado, e, por outro, era a preparação institucional do reatamento da ligação de Israel com Jeová.

Pedagogicamente, ao povo de Deus estava a faltar a doutrina, desde o rei Acabe aos seus súbditos, que «haviam deixado os mandamentos do Senhor, seguindo os baalins»             (I Rs.18,18). Com efeito, tornava-se necessário reaprender a Quem seguir, e para tal Elias não hesitou em colocar o povo no meio de um conflito prático e vital.

A necessidade de um avivamento revelava-se, do ponto de vista espiritual e da comunhão com Deus, pela incerteza que estruturava os seus pensamentos religiosos, pela atitude não assumida, por falta de coragem religiosa, de estar hesitante entre dois pensamentos, isto é, entre dois sistemas confessionais. «Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o.» A clareza e o pragmatismo de tal desafio era simples.

O historiador Flávio Josefo tem um modo literário-teológico de narrar este evento, que nos coloca muito como testemunhas no centro do mesmo: «Até quando vosso espírito ficará hesitando, na incerteza do partido que deveis tomar? Se credes que o nosso Deus é o Deus eterno, único, por que não vos dedicais inteiramente a Ele? (…) Se credes, ao contrário, que são esses deuses estrangeiros, que deveis adorar, por que não os tomais por vossos deuses?»

O espectáculo do “avivamento” 

Fazia parte da adoração religiosa pagã da região, ao que parece também nas imediações do Monte Carmelo, conforme antigos relatos, que os adoradores ficassem «possuídos» pelo deus, falassem uma linguagem extática e utilizassem as profecias orgiásticas, como sucedia nos sacrifícios ao deus Amon, na costa siro-palestiniana, por volta do ano 1.100 a.C. Desta época, existe um relatório de um oficial egípcio, Wen-Amon, que narra o seguinte: «Então, quando sacrificavam aos seus deuses… o deus apoderou-se de um dos nobres jovens, tornando-o frenético e esteve possesso toda a noite, falando em nome do deus.»

Não é difícil visualizar a cena dos profetas de Baal e de Aserá, a tal ponto a narrativa bíblica apresenta o sentimento gerado pelo espectáculo, pelo vistos tradicional e «revivalista». O próprio profeta Elias, homem circunspecto e afeito à seriedade das palavras de Deus, não pôde deixar de ironizar com o que seus olhos contemplavam. Era um espectáculo de frenesi, risível e deprimente.

O que culminou num vazio quanto à «resposta» de Baal, foram inacabáveis e longuíssimas horas de insistência, mas a verdade é que «não houve voz, nem resposta, nem atenção alguma.»( I Rs.18,29)

O altar do avivamento

Conhecemos pouco das estruturas materiais dos altares, sobretudo os falsos, que o Velho Testamento descreve, conhecemos melhor a matéria, o significado e o conceito, daqueles que serviam o culto verdadeiro ao Senhor. Deveriam ser de pedra ou terra, significavam a comemoração de algum acontecimento em que interviera Jeová, queriam dizer lugar de sacrifício, e o seu conceito genericamente era o da simplicidade.

De facto, a primeira perspectiva que temos sobre o altar do avivamento, é a da sua simplicidade. Doze pedras – doze tribos apesar do reino dividido – foram o número exacto, porque eram a medida estruturante da unidade.

As pedras eram simples, não lavradas, eram as pedras toscas, retiradas do ambiente natural comum, mas pedras de que Deus se serviria, naquele momento. Para realçar a servidão das mesmas, o texto sagrado afirma que o «fogo do Senhor consumiu as pedras» (18,38). Pedras queimadas pelo fogo, como material combustível, para reforçar, naquela circunstância, que só o Senhor é Deus, pedras utilizadas para a obra de Deus anonimamente, não pedras glorificadas.

Do mesmo modo, um Avivamento é para benefício da obra geral do Senhor, para expansão e aprofundamento do Reino de Deus e não para a exaltação de pessoas.

A segunda perspectiva é a do altar restaurado, o que quer dizer que houve um passado de intensa adoração, de ortodoxia espiritual, um «primeiro amor». Esses tempos de consagração são vivenciados, no interior do breu triste de uma caverna, por um profeta desalentado, que reclama: «Os filhos de Israel derribaram os teus altares.» ( 19,10). Chegados a esse ponto, a comunhão através da adoração estava quebrada, o altar reparado era sinónimo da retoma do caminho para o Céu, da religação com Deus. Israel tornar-se-ia de novo numa nação religiosa, no bom sentido, e teocrática.

Assim, podia retomar o nome de Israel, a identidade definida. (I Reis,18:30,31). E a identidade do povo de Deus com o próprio Senhor é que define a qualidade e a genuinidade do altar -«Com aquelas pedras edificou o altar em nome do Senhor» ( 18,32). Não poderia haver, não há e jamais haverá, avivamentos em altares estranhos e falsos, tão-pouco em altares por restaurar. O altar do Avivamento não é anónimo, nem abstracto, tem Nome.

No dia da festa de Pentecoste, a festividade judaica relembrava um passado de muitos nomes, por assim dizer, escravos no Egipto, passageiros no deserto, cultivadores de cevada, conquistadores de Canaã, reino de Israel, reino de Judá, cativos e exilados na Babilónia, etc.

Ao contrário, a manifestação do Espírito Santo, de que todos os presentes no Cenáculo foram cheios, a festa do avivamento pentecostal estava a preparar o futuro da Igreja, identificada com o Nome de Jesus Cristo. «Todos reunidos no mesmo lugar » interpretando o mandamento para a obediência e a unidade em torno já não da pessoa física do Mestre, mas da presença do Nome que é sobre todo o nome.

Finalmente, o altar do Avivamento – a Igreja de Cristo -, por assim dizer, pressupõe unidade como princípio, unidade na obediência, unidade na doutrina, e não globalização de várias crenças, de sincretismos religiosos que até se anulam entre si, com o intuito de formar uma só família na fé.

No tempo de Elias, os profetas de Baal e os profetas do Senhor poderiam por absurdo constituir uma «só família» na crença religiosa. Mas o desafio de Elias não foi nesse sentido, porque tal desafio não era e nunca será, sobretudo nos nossos dias, uma alternativa.

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