O Circo mediático em Fátima

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Paulo Mendes Pinto

São difíceis os tempos que vivemos hoje em dia na incapacidade de distinguir as naturezas das coisas. Facilmente informação se transforma em espectáculo, não apenas por ser diversão, mas por trazer a mais ridícula e degradante subversão da ideia de conhecimento para dentro da função de informação que certos canais deveriam, em meu entender, ter.

Por estes dias estou com a SIC em Fátima.  Fui convidado para fazer parte de um painel de “comentadores” entre os quais se encontram sacerdotes, Frei Fernando Ventura e o Pe. José Maria Brito, a teóloga Teresa Toldy, e o jornalista António Marujo. Isto é, estou enquadrado por um grupo de gente que conhece o fenómeno religioso e o questiona, seja pelo lado da crença, ou não.

O santuário instalou uma grande estrutura, um plateau, onde quatro canais televisivos instalaram os seus estúdios com o próprio santuário como fundo. É desse local, com uma vista impressionante, que somos entrevistados, que damos a nossa opinião, que questionamos e reflectimos, tentando dar algo de significativo ao telespectador.

Mas o circo mediático, na sua azáfama e procura do mais especial para transmitir, subverte a natureza do próprio evento. Esse plateau, instalado no extremo oposto ao altar onde tudo se vai passar, passou a ser uma segunda fonte de atracção, rivalizando, para muitas centenas de supostos peregrinos, com a imagem da Virgem Maria.

Ao nosso lado, noutros dos estúdios vizinhos, figuras mediáticas, em nada detentoras de interesse algum em termos religiosos ou de conhecimento, funcionam como imanes e a multidão aproxima-se, assenta arraias para ver, de costa um Goucha um Marco Paulo ou uma Fátima Lopes.

Grita-se pelo Manuel Goucha e mandam-se beijinhos. Ele vira-se para trás e corresponde simpaticamente. Marco Paulo chega a cantar com o público, já muito longe de serem peregrinos. Fátima Lopes é ovacionada quando entre no plateau – grita-se “tu és linda!”

Sem palavras, assisto a este circo. Muito se poderia dizer da fraca cultura da nossa população. Muito se poderia dizer sobre este povo que vai a Fátima mas vira costas ao santuário quando vislumbra uma estrela televisiva.

Mas muito mais se poderia dizer sobre as estações que decidiram seguir este modelo. Muito mais se poderia dizer sobre estas máquinas de fazer audiências que conteúdo nenhum apresentam para melhorar o nosso mundo, a não ser, possivelmente, chorudas contas bancárias.

Não falo como crente, porque o não sou.  Mas falo como indignado em relação ao aproveitamento mediático em que os crentes são apanhados, usando-se das fragilidades sociais e culturais como ferramenta para inebriar e afastar os peregrinos daquilo que era o seu foco: a peregrinação, a crença na Senhora de Fátima.

É difícil fazer concorrência a isto; é difícil fazer concorrência a este estado de coisas.

Contudo, fico contente por estar no estúdio ao lado, da SIC.

Custa-me muito ver isto. A náusea é grande.

 

Fonte: Público.

 

 

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