Sobre a tentação de Cristo a partir do deserto

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             ©  João Tomaz Parreira

 

As observações sobre os três momentos da tentação de Cristo no deserto, não poderiam  deixar de considerar o local inóspito como palco do rigor da entrada do Filho do Homem no seu ministério no Mundo.  Antes das multidões a solidão, o estar Consigo mesmo e com o Pai, antes do peso inamovível da Palavra, a leveza inefável do silêncio do deserto.

O evangelho de Mateus (Cap.IV) inicia este capítulo na vida e obra de Jesus Cristo, referenciando o deserto como espaço de estar só como necessidade de meditação, sem nenhuma sacralização do local, aliás circundante da Palestina do Seu tempo, tão-pouco um sítio para a auto-ajuda contemporânea nem sequer para o pseudo culto do eremitismo, muito menos como local “terapêutico”.  Não houve busca de anacoretismo na ida de Cristo para o ermo.

  1. 1Τότε ὁ Ἰησοῦς ἀνήχθη εἰς τὴν ἔρημον ὑπὸ τοῦ πνεύματος πειρασθῆναι ὑπὸ τοῦ διαβόλου. (Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo)

As noites no deserto

As noites no deserto não são o breu, mas um tecto celestial que ultrapassa qualquer criatividade pictórica, uma escuridão levissimamente iluminada, mais azul marítimo que negro, com uma luz que dimana do interior inalcançável, repleto de uma multidão incontável de pontos luminosos, de constelações, galáxias, nebulosas.

Por que razão no dialogo inapropriado e imprudente de Satanás com Jesus Cristo,  ele não ousou confrontar o Filho de Deus com uma “oferta” do universo enquanto espaço celeste, na sua forma suprema de Cosmos como o podemos apreciar numa noite no Sahara, uma vez que estavam no deserto e à noite o céu é um viveiro apelativo e belíssimo de estrelas? O mais fácil e avisado seria essa tentação do inalcançável.

 No livro autobiográfico “Terra dos Homens”, Saint-Exupéry descreve o ambiente telúrico e celeste do  deserto que proporciona esta visão:

 “Quando acordei, vi unicamente a braseira do céu nocturno, pois estava deitado ao comprido, frente a esse viveiro de estrelas. Ali nada mais eu possuía neste mundo. Era apenas mortal perdido no meio de areia e estrelas.”

(“Terra dos Homens”, Vega,  1995- 49,62)

Contudo, Lucifer  tentou Cristo com coisas terrenas, ainda que ornadas de milagre.

Seguir os momentos da tentação diferenciados de proposta e de lugar, quase é seguir uma liturgia profana infligida por parte do Diabo a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pedras em pão, exorbitar as funções primordiais como Criador

O diabo não só tentou o Filho de Deus usando a necessidade fisiológica (a fome num jejum) como quis espiritualizar a tentação, dando-lhe um carácter de dúvida no meio de uma proposta sobrenaturalmente criacionista. “Se tu és…manda que estas pedras se tornem em pães” ( vs.3). Não que o diabo duvidasse ou não soubesse, a expressão no grego denota que a suposição “se tu és” é um facto.

John Broadus no seu comentário ao Evangelho de Mateus questiona porém se o diabo entendia o que era ser Filho deDeus, é que ao diabo não lhe assiste o dom da fé. Mas esperaria um milagre? O pão é tão importante que faz parte de uma oração ensinada por Cristo, não tanto como o pão/farinha, mas o pão Palavra de Deus, no dizer de Lutero na seu livro “Explicação do Pai Nosso”.

O pão, produto manufacturado do cereal e passado pelas mãos do homem e do fogo, tinha lugar preponderante na cultura oriental, designadamente em Israel.

Na literatura universal, existe uma ode ao pão, escrita pelo poeta Pablo Neruda (1904-1973), na qual o pão se torna pela força poética um elemento antropomorfizado: “pan…te levantas / repites el vientre de la madre”.  O pão equitativo, para todos, para cada boca, conforme o aspecto social, humanitário, da Oração do Pai Nosso.

Lançar-se do pináculo do templo, auto-flagelação

Auto-flagelação e suicídio são formas limite que andam ligadas ao desprezo pela Vida, na concepção do Criador que após ter formado Adão disse que “era bom”, o que no grego da Septuaginta é melhor que bom, é “belo”.

Como não foi por acaso literário que Albert Camus escreveu que o “suicídio é um problema filosófico  verdadeiramente sério” (“Mito de Sísifo”,  Livros do Brasil Enciclopédia, pág. 17).

Todavia a sugestão do diabo poderia ter sido no sentido de insinuar em Jesus o desejo de ostentação, de se exibir perante quem visse, esperando humanamente uma intervenção divina. Por isso o diabo, conhecedor do VT pelo que se lê, cita o Salmo 91 (vs.11).

O diabo desejaria que Jesus destruísse, sem sentido, a beleza da Vida, da Sua vida? Felizmente que o Príncipe das Trevas, como uma criatura, não é omnisciente.

Mas deveria ter a consciência, senão o conhecimento de que a morte prematura de Cristo não cumpriria o Plano divino da Redenção.  Não seria uma queda que iria ferir o calcanhar do Redentor. 

A oferta dos reinos do mundo, a experimentação da ambição

Finalmente o momento de glória do Diabo, o poder dar alguma coisa a Deus?  Nem tanto, mas sobretudo, o poder ter Deus, na pessoa do Filho, aos seus pés. Como chamado nas Escrituras o “Príncipe deste Mundo”,  teria a hora fulgurante da sua carreira: “Tudo te darei se, prostrado, me adorares” (vs.9)

Visava Satanás subverter, romper mesmo, a centralidade das Escrituras. O que não conseguira lá longe na Eternidade do Princípio, ao sublevar-se contra Deus, desejaria alcançar na Terra.  Tanto lhe fazia que não fosse na eterna Luz Celeste,  poderia ser mesmo ali, na noite ou no dia do deserto. Que glória, Cristo a Luz do Mundo ajoelhado aos pés do Príncipe das Trevas!

A resposta de Jesus Cristo, conhecemo-la. O que foi essa resposta afinal? Um retorno à Eternidade, ao Principio anterior à Criação. “ Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás.”(vs.10)

A perenptória autoridade divina na ordem, “ Vai-te, Satanás”, possuía a fortaleza inexpugnável da Palavra: “porque está escrito”.

A partir deste paradigma, somos levados a pensar que Igreja ( Movimento, Denominação,  Comunidade ou Igreja local) que não se erga nem dirija pela Escritura ou a Palavra, mas que a pretenda condicionar ou avaliar, não tem Autoridade.

 

 

 

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