O poema “Fátima” de Ievguéni Ievtuchenko

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© João Tomaz Parreira

No próximo mês de Maio, no Centenário das Aparições na Cova da Iria, torna adequado, culturalmente sobretudo, trazer à memória um ponto de vista de um Poeta que o Estado Novo há cinquenta anos não censurou.

Ievguéni Ievtuchenko (Sibéria, 1933 -) é um dos mais célebres e ouvidos poetas russos do século passado ainda vivo.

Como autor soviético, sempre usou do livre arbítrio e da liberdade criadora para de um modo forte, mas de verbo gentil, por vezes pícaro, afrontar o regime pós-estalinista da antiga URSS. Talvez por esta razão tenha sobrevivido poética e literariamente depois do XXº Congresso do PCUS. Não foi por acaso que a sua ironia  levantava auditórios em recitais de poesia, no seu país e fora dele.

Com surpresa, fez em 1967 uma digressão por Portugal e deu um recital em Lisboa, o qual foi muito divulgado pelos média nesse ano, dada a particularidade da sua origem e o seu estilo e verbo poéticos.

Tratava-se de um poeta que se desdobrava em gestos quando declamava os seus poemas. A sua gestualidade sublinhava no ar as palavras fortes que usava. Grandes poemas como o célebre Baby Yar, que descreve a matança de judeus ucranianos numa ravina em Kiev pelos nazis na II Guerra Mundial: “Nenhum monumento supera o Babii Yar. / A pedra sepulcral é uma pura lágrima.” 

A sua poesia que nunca obedeceu aos padrões estéticos estalinistas, o realismo socialista centrado sobre a Revolução de Outubro e o povo heróico da II GG, foi muitas vezes sancionada pela crítica porque ora condenava o sistema soviético, ora exorcizava o anti-semitismo russo como no poema de 1961 acima citado: “Eu sou hoje tão remoto / como todo o povo judeu.”
Assim, transformou-se no principal porta-voz dos desejos de renovação na URSS. Como consequência acabaria em 1989 por dar suporte aos governos de Gorbachev e Yeltsin, no início das Glasnost e Perestroika.

A irreverência lúcida e nada diplomática do autor de Baby Yar, Pearl Harbor (novela) ou Autobiografia Prematura, estes editados pela D.Quixote, de Lisboa,  acabou por deixar marcas num poema fortíssimo que resultou da sua ida à Cova da Iria, em pleno Maio desse ano de 1967.
O que o poeta contemplou, di-lo de uma forma rude mas deixando entrever uma ternura poética revelada nas palavras.

As categorias da gente que passa no poema, as qualificações partem do olhar do poeta sobre o que vai ocorrendo como sinal dito de “enorme fé”: “tristes camponeses”, povo que se arrasta “de joelhos ligados”, “pastores de rebanhos”, “os ideólogos de andar de rastos” que “não pensam tirar os seus filhos da cruz”.

“Fátima” é um poema tragicómico. Começa com uma imagem visual que desfavorecia os chamados “peregrinos”, salientando no entanto com um tom de ternura “o povo que se arrastava”, “de joelhos ligados”:

“ Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas / cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas, / e ao longo das estradas, de joelhos ligados, / em todo o asfalto, de cabeça perdida, o povo se arrastava”

Neste poema, o poeta russo quis dizer muitas coisas, sobretudo descreve o que está a ver,  como outrora, na época romântica, Lord Byron descrevia o que estava a ver, em versos longos, e não o que imaginava.

Essencialmente,  o que Ievtuchenko nos quis transmitir, a nós leitores portugueses e conhecedores da realidade e do que chamarei Factor Fátima, foi uma encenação da alegada Fé na Senhora da Cova da Iria.

O sentido que deu às suas palavras poéticas é tudo menos místico. Os seus olhos foram mais perscrutadores do que santos,  com algum deslumbramento, mas irónicos.

 A sua comoção reside na atitude de entrega do povo anónimo, com expressões  que já publicitamos acima.  Contudo,  pouca poesia podemos encontrar ao longo dos trinta e dois versos, dispostos em 8 quadras do poema “Fátima” ( Seabra, Manuel de, Antologia da Poesia Soviética, Editorial Futura, Lisboa,1973-166)

O poeta deixa nos versos, por vezes longos, uma crítica a hierarquia religiosa, que parecendo à primeira leitura saborosa de ironia, entristece pelos sacrifícios exigidos na óptica de uns serem “filhos e outros enteados”:

“E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos, / com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira, / corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos”.

Naturalismo e tom polémico em todo o poema no qual sobressai a terminar um epílogo inevitável que o próprio Martinho Lutero sobrescreveria, uma verificação quase do domínio da hermenêutica teológica, vincando uma temporalidade que se mantém, desde 1917 até hoje, mormente na data em que o poeta russo escreveu o poema, 1967:

“E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam / que os pastores do rebanho, de submissa e simples fé, / não só não podem – tudo podem os grandes no mundo! -/ como não pensam tirar os seus filhos da cruz… “

A cronologia do poema, que não é explicitada, deixa-nos entrever que foi escrito relacionando um acontecimento importante da época. A visita do Papa Paulo VI ao Santuário de Fátima, no dia 13 de maio de 1967, para as celebrações do 50º aniversário das aparições de 1917.

Retrato social e religioso, que no Centenário das Aparições persiste em ocupar lugar de destaque na religiosidade do nosso país, enquadrada pela Igreja Católica Romana.

 

 

 

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