A inutilidade da “defesa” das Escrituras

 

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José Brissos-Lino

 

Uma das práticas mais correntes em certos meios religiosos é a necessidade absurda de exaltar e defender a Bíblia. Como se ela não fosse relevante por si mesma, como se precisasse de defensores oficiosos, como se, segundo a própria lógica escriturística, Deus não velasse por ela:

“E disse-me o Senhor: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la” (Jeremias 1:12).

De facto trata-se dum misterioso paradoxo. Aqueles que centram a sua fé mais a Palavra do que no Jesus da Palavra, o Salvador, são os mesmos que correm a querer defendê-la ao mais pequeno sinal de questionamento a que seja submetida. Dietrich Bonhoeffer percebeu bem o drama. É que os tais, afinal, não confiam na Palavra:

“Não tentem tornar a Bíblia relevante. A sua relevância é axiomática. Não defendam a Palavra de Deus, mas dêem testemunho dela. Confiem na Palavra”.

Então, os que a consideram intocável, perfeita, eterna, sagrada, acabam por demonstrar que não confiam que ela se consiga defender a si própria. A capacidade de discernimento do teólogo e pastor alemão leva-o a colocar o foco não na defesa da Bíblia – tarefa redundante e inútil – mas sim no seu testemunho.

De facto nem Jesus sentiu necessidade de defender as Escrituras, apenas dando testemunho delas em inúmeras situações ou defendendo-se a si próprio com elas, como no conhecido episódio da tentação no deserto (Lucas 4:1-13).

Quem precisa que outros o defendam é fraco. É normal procurar proteger os mais fracos, como as crianças, os velhos ou, nalguns casos, as mulheres. Mas a Bíblia não precisa de defesa. Ela não é fraca. É eterna, resiste a tempo, às ideologias, à roda da história e a todos os ataques ferozes de que tem sido alvo há milhares de anos.

Mas a Palavra necessita, isso sim, de testemunhas. Quem fale dela, quem a apresente, quem a proponha. Tal como a fé, que também não necessita de defesa mas de vivência e proclamação. Mesmo no Antigo Testamento, a ideia forte não é defender as Escrituras mas sim guardá-las e vivenciá-las:

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Salmo 119:11).

“Mas ele disse: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lucas 11:28).

Infelizmente muitos líderes religiosos confundem hoje estes dois planos e, supondo que têm o dever de defender a fé defendendo a Bíblia, julgam que a melhor maneira de o fazer é tentar influenciar os poderes públicos para legislar dentro dos limites da sua ética religiosa particular, esquecendo que o estado democrático deve ser laico. É certo que a sociedade nunca o é, mas quem estabelece as leis é o estado e não a sociedade. Muito menos uma minoria religiosa se pode arrogar querer impor a toda uma sociedade multifacetada, multicultural e multirreligiosa, assim como ao estado os seus ditames, por mais adequados que pareçam.

Jesus de Nazaré nunca lutou contra o estado romano, mas sim contra o poder religioso instituído, que era demagógico e farisaico. Nunca procurou mudar as leis do império. Mais. Nunca defendeu as Escrituras mas foi um grande divulgador das mesmas, ao citá-las de forma recorrente, em público e privado, tendo-se notabilizado ao cumpri-las, pois para Ele eram inquestionáveis.

O exercício apologético só existe em função do interesse de terceiros pela fé cristã: “estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15). Isto é, num registo de esclarecimento e não de confronto ou disputa.

Mesmo o apóstolo Paulo, quando fala em destruir “os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5), está a referir-se a problemas internos na comunidade cristã de Corinto, e não a uma espécie de guerra aberta contra os incrédulos.

No mínimo, é ridículo querer defender a Bíblia com argumentação humana. Aqueles que acreditam que é a Palavra de Deus deviam confiar um pouco mais nela. Afinal os mundos foram criados por ela, que ainda possui potencial para vencer a morte:

“Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hebreus 11:3).

“Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte” (João 8:51).

 

 

 

 

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