Frederico Lourenço, a Bíblia, o elogio da poética e o regresso à cultura

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Paulo Mendes Pinto

 

Tal como no chamado Cântico dos Cânticos, ou nas imensas poesias tradicionalmente atribuídas a Salomão e insertas na Bíblia, alguns cantos da Odisseia continuam a despertar em nós o fascínio que despertam os enigmas que nada de estranho nos apresentam, mas que indizivelmente fogem à compreensão que as palavras, quase sempre imediatas, procuram abarcar.

Nesse distante poema homérico, de mais de 2.500 anos de sentidos e leituras, um aedo é chamado a declamar, tal como sucederia nas comuns noites num palácio em que se reuniriam em torno do lume os grandes, os nobres, os guerreiros e os aventureiros, aqueles que tinham novas para transmitir. O aedo, qual metáfora do poder do seu olhar, é cego. Mas fala, declama. É escutado.

E as “novas” poderiam ser plenamente novas ou não. Os mitos nasciam desse afastamento a um tempo concreto mediante a assunção de uma dimensão primordial, organizadora de uma ordem, de um sistema. Ouvir um aedo a declamar a sua poesia era, quer escutar novidades, num tempo onde o Saber era lento na transmissão, quer voltar a entrar dentro de conhecimentos ancestrais, já sabidos, em nada novos, mas constantemente rememorados e revalidados. Sendo apreendida individualmente, a poesia era uma dimensão social e colectiva.

A poesia era verdadeiramente uma linguagem de códigos, de descoberta. Se a prosa descrevia o linear, os tratados, as contas, os registos, a poesia, com o seu ritmo, com a rima e a entoação, quase sempre acompanhada de música, era o campo do que não podia ser apenas ouvido, mas tinha de ser entendido. A poesia era hermenêutica em potência, era abertura à interpretação, era convite a elaborar e a descobrir.

Não será, obviamente por acaso que muitos Textos Sagrados se encontram nessa forma ritmada que faz entrar o leitor e o ouvinte numa dimensão fora da linguagem normal, num quadro de ritmicidade, numa valoração de ritual, de contacto com uma Verdade fora da compreensão imediata.

É este, em meu entender, o ponto de contacto mais interessante entre traduzir Homero e traduzir a Bíblia. Pouco aqui interessa a qualidade das traduções de Frederico Lourenço, mais que aclamadas, validadas e reconhecidas por gente de cultura e académicos; o que de mais importante o recém premiado com o Prémio Pessoa nos trouxe foi, literalmente, a Bíblia de volta.

Muitos foram, ao longo dos séculos, os medos, os receios e os interditos ligados à tradução da Bíblia. Se o mundo influenciado pela Reforma Protestante democratizou a Bíblia, deixando-a influenciar a sua cultura, desenvolvendo rapidamente a alfabetização, por exemplo, nos meios católicos a Bíblia manteve-se até quase hoje um absoluto desconhecido.

Frederico Lourenço, numa tradução não ligada a confissão cristã alguma, municiado essencialmente da sua capacidade de domínio do grego, começou a fazer com o texto bíblico aquilo que fez tão elegantemente com a Ilíada ou a Odisseia.

E fazer o mesmo com estes textos que num olhar religioso são tão diferentes, é assumir que um aspecto fundamental eles apresentam em comum: seja-se religioso, ou não, a Bíblia é um texto fundante do que somos. Ao retirar o monopólio da tradução e da edição da Bíblia ao mundo religioso, Frederico Lourenço fez regressar a Bíblia à cultura, de onde, afinal, nunca deveria ter saído.

Com o trabalho de Frederico Lourenço, passamos a ter mais que uma nova edição da Bíblia, passamos a ter uma edição descomprometida com uma visão religiosa. Não que para a História da Bíblia toda e qualquer ligação religiosa não seja importante, mas hoje, mais que nunca, urge perceber que ela é um património que não se esgota no campo da crença e das afirmações de fé.

E, num passo mais a seguir, ao ter uma tradução que pega no texto coo produtor de cultura, somos todos nós, leitores, chamados a ler, agora fora dos púlpitos onde se apoia a dogmática e a palavra certa. Regressando com a Bíblia aos textos de Homero, aliás, textos em muito contemporâneos dos bíblicos, e geograficamente não muito distantes no que respeita aos locais de redacção, esta nova tradução realizada pelo classicista da Universidade de Coimbra impele-nos à leitura poética do texto, como que declamada, como eram, de facto, para serem lidos quando foram escritos.

É que a poética abre-nos a porta para o único e o irrepetível; cada leitura é uma vivenciação. A grande tentação de reduzir a capacidade de pensamento e de leitura a uma lógica religiosa encontrava-se na uniformização, na normativização, na nivelação. Por esta razão a Bíblia foi tão pouco tida em conta em grande parte da História do Cristianismo: ler a Bíblia, como qualquer outro texto antigo, fornece ferramentas para as mais profundas problemáticas, ou não fosse isso mesmo que fez com que estes textos perdurassem e se tornasse “clássicos”.

É desta forma livre e liberta que o texto bíblico pode ser redescoberto como centro de cultura. É na sua capacidade de inebriamento, fora das regras religiosas, que a sua Sabedoria surge e se espraia no leitor ou, regressando ao aedo de Homero, no ouvinte, anulando a diferença entre o que escreveu, seja poeta, ou não, e o ouvinte, aquele que ouve, trauteia ou repete.

 

Fonte: Jornal de Letras.

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