Zaqueu, o publicano ou de coisas novas que o autor aprendeu no fim-de-semana

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Rui Miguel Duarte

O Evangelho segundo Lucas 19:1-9 relata um encontro entre Jesus e um publicano (ou cobrador de impostos), Zaqueu. Considerados entre os principais pecadores, estes judeus colaboravam com as autoridades romanas na cobrança de impostos. A parte que era de César entregavam-na a César; o excedente (que tinham liberdade de cobrar, podendo dispor de um corpo de guardas para os apoiar nessa cobrança) guardavam para si. Eram especialmente odiados pelos seus compatriotas por serem colaboracionistas, vichystas avant la lettre, corruptos, usurários e ilicitamente ricos.

Perante o Mestre, Zaqueu mostra arrependimento, um novo coração: restituir o quádruplo a quem tirou em excesso. Jesus exclama, entusiasmado (v. 9): αὐτὸς υἱὸς Ἀβραάμ “ele é filho de Abraão”.

Nenhuma, absolutamente nenhuma, das traduções que consultei em várias línguas, acerta na interpretação deste inciso aparentemente tão linear. Nenhuma, repito, incluídas nelas as traduções em português. NENHUMA. Este fim-de-semana aprendi isto, com quem sabe. E levou-me a umas investigações por minha conta.

O aramaico “bar” significa “filho”; corresponde ao hebraico “ben”. O grego bíblico recorria a vários termos para verter, um das quais υἱὸς (hyios), sendo outro τέκνον (téknon). Este último denota relação mais de natureza biológica, à letra “filho gerado”. Metonimicamente, significava também a “descendência”. Assim se verteu, para fugir à letra, em diversas traduções. Mas o termo era (e é ainda no hebraico hodierno) de uso muito profícuo em diversas expressões idiomáticas que nada denotam de uma relação paternidade/filiação ou ascendência/descendência, mas de uma outra, mais mediata: a de “ser de uma determinada e mesma qualidade de outra pessoa ou coisa”. Assim, Barnabé (Actos 4:36), υἱόςπαρακλήσεως (hyios paraklēseōs) “filho da consolação” ou do “encorajamento”, presumivelmente do aramaico נביא, bar naḇyā “filho de profeta”. Paulo, na 1 Carta aos Coríntios 14:3, escreve que um dos atributos do profeta era consolar! Barnabé, profeta, encorajador, consolador. Dizer “filho da consolação”, literalmente, soa demasiado semita e só nesse contexto é a expressão entendida.

Ora, Zaqueu. Dizer que era filho ou descendente de Abraão não faz sentido. Isso era evidente. Todos os Judeus eram e consideravam-se filhos de Abraão! Jesus teria dito uma coisa tão óbvia? Ele que, no Evangelho de João 8, discute com os religiosos judeus: estes reclamavam-se da autoridade dessa condição, Jesus refutava-os: “não sois filhos (τέκναtékna) de Abraão”. Faz sentido? Faz, se a acepção do termo pretendida por Jesus for outra.

O seu antecessor na pregação, João Baptista, tivera um diálogo idêntico com o mesmo grupo, enquanto baptizava: “Deus pode suscitar filhos (τέκνα) a Abraão das pedra do deserto.” (Mateus 3:9 = Lucas 3:8).

Então que pretendiam primeiro João e, depois, Jesus, com a filiação abraâmica? Biológica e genealógica, visivelmente, não era essa, pois declaram aos seus interlocutores que não são filhos de Abraão. É que todos os Judeus, recorde-se, eram filhos de Abraão. A polaridade filhos/não filhos é outra.

Note-se o que há de comum a estes passos e ainda com um terceiro: Lucas 13:16, onde Jesus declara que uma mulher que acabara de curar a um sábado era “filha de Abraão”. Em todos eles se exige e/ou testemunha um acto de fé, de confiança e sujeição a Deus e aos homens que o representavam, João e Jesus, a par com a renúncia aos preceitos religiosos. Paulo, o teólogo, na Carta aos Romanos, entendeu-o. Leiam-se os capítulos 4 e 8: a filiação abraâmica é a da fé, não a da genealogia; o verdadeiro judeu, circuncidado e de bem com Deus, não é o que sofre essa cirurgia ritual, mas o que crê. Esta é a justificação, aqui está a salvação. Isaac e Ismael eram filhos de Abraão, mas este representa a eleição pela genealogia (espúria e irrelevante para Deus); Isaac a da promessa, sendo que uma promessa é um acto de fé e amor: de quem promete em que a cumprirá, e de quem a recebe, certo de que a receberá. Como um pai que promete algo a um filho no Natal e este fica na alegre expectativa de que o receberá.

Esta foi a salvação de Zaqueu: não de ser judeu de etnia e muito menos de religião; mas ser “filho de Abraão”, isto é, da têmpera espiritual, moral e de carácter deste!

Escrevi acima que nenhuma tradução, mesmo em português, entendeu. Todas? Não! As minhas investigações levaram-me uma, uma só. Embora vertendo por “filhos”, teve a intuição certa acerca dos privilégios da filiação abraâmica: a Bíblia de Jerusalém, explicando-o somente em comentário exarado em nota. Com efeito, remete para Lucas 3:8 (João Baptista e os Fariseus), Romanos 4:11 sqq. e Gálatas sqq.. Neste último escreve Paulo explicitamente que Γινώσκετε ἄρα ὅτι οἱ ἐκ πίστεως, οὗτοι υἱοί εἰσιν Ἀβραάμ “Ficai cientes que é pela fé que sois filhos de Abraão”.

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