Alepo, o exercício forçado da perda da memória

Quando falamos, a respeito da Síria, de destruição de património, falamos, em especial, de património imaterial naquilo que ele tem de mais valioso: o pensamento e a vivência.

O interior da cidadela, visto da porta de um dos torreões defensivos DR

 

As imagens que hoje povoam o nosso imaginário mostram-nos uma Alepo que em tudo é um monte de ruínas, um verdadeiro cataclismo que representa a destruição realizada pelas guerras que arrasaram, e continuam a arrasar, a Síria.Advertisement

Tive o grato prazer de estar em Alepo no ano de 2008. Classificada pela UNESCO desde 1986, a cidade mostrava orgulhosamente o seu passado como parte integrante da sua identidade hodierna. Da cidadela à Mesquita Omíada, passando por vários palácios e museus, muito esta milenar cidade nos dava a ver.

Ironicamente, hoje em dia, o site da UNESCO continua a apresentar uma página sobre a cidade de Alepo em muito parecida à de há oito anos. Quem ler o texto apresentado parece que tudo continua na mesma: “Localizado na encruzilhada de várias rotas comerciais a partir do II milênio a.C., Alepo foi governado sucessivamente pelos hititas, assírios, árabes, mongóis, mamelucos e otomanos. A cidadela do século XIII, a Grande Mesquita do século XII e várias madrassas, palácios, caravanserais e hammams do século XVII fazem parte do tecido urbano único e coeso, agora ameaçado pela superpopulação.”

Contudo, nada disto já é verdade. Do mais material, em que quase tudo o que é indicado nesse texto já não existe, até à “superpopulação” de uma cidade hoje quase abandonada, nada coincide com a realidade. Tudo isto se modificou de forma brutal. Irreparável e irrecuperável.

E por que é tudo tão irrecuperável em Alepo? Porque os monumentos não se podem reconstruir? Não. Esses até talvez se pudessem reconstruir, houvesse a vontade e os meios, mas o principal, a vida humana de uma cultura de convívio, essa perdeu-se talvez para sempre.

Antes desta tremenda e re-islamização do Médio Oriente no século XX, criando-se uma marca arabizante que tudo procurou uniformizar e reduziu muitos dos direitos humanos e marcas de modernização a mera figura demonizada de um anti-ocidentalismo que alimentou e alimenta os grupos terroristas, Alepo, tal como Damasco, era uma cidade de um convívio assinalável entre sunitas e xiitas, um espaço onde o próprio sunismo abria portas a uma religiosidade popular secular que dialogava com formas normalmente mais vistas como xiitas.

Exemplo do que afirmei é o que se encontrava na Mesquita Omíada de Alepo, uma magnífica construção do século XIII, feita com base numa anterior, do início do VIII, onde os crentes sunitas peregrinavam para ver e tocar o túmulo do pai de João Baptista, Zacarias, um importante Profeta do Islão. Nesta dimensão de religiosidade, num convívio cultural único, a impossibilidade, a proibição, levada à letra pelo sunismo de adorar figuras e homens, era compaginada com a peregrinação ao túmulo de um Profeta.

A par desta realidade sincrética entre sunismo e xiismo, a comunidade cristã era muito significativa e, tal como em Damasco, mantinha os seus lugares de culto e era herdeira de um quadro de diálogo com o Islão. Tal como em Damasco, também a Mesquita Omíada de Alepo fora nas primeiras dezenas de anos da sua fundação espaço religioso dos cristãos, tendo mantido essa dimensão dialogante pelo facto de ter os restos mortais de uma figura importante do Cristianismo, Zacarias.

Quando falamos, a respeito da Síria, de destruição de património, falamos, em especial, de património imaterial naquilo que ele tem de mais valioso: o pensamento e a vivência. Com a destruição de edifícios de séculos, perdemos muito. Mas com essa destruição vem atrás muito mais: com o desmoronar de um edifício, de uma parede com séculos de vida, vemos cair toda uma forma de convívio que nela se materializava e que era marcada profundamente pelo diálogo herdado de gerações e gerações.

De facto, um dos dramas mais importantes das guerras que desde a chamada Primavera Árabe grassam pela Síria e pelo Iraque, é a sistemática anulação dos traços que alimentam a memória colectiva.

Ao destruir materialmente o património, assistimos ao nascimento de uma nova sociedade, sem memória, sem alicerces, sem referências. Apenas as feridas abertas pela guerra se irão manter. Por muitos séculos, claro.

Fonte: Público.

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