Cohen, um sacerdote do sublime humano

AFP/JOEL SAGET

 

Paulo Mendes Pinto

 

Considerem-no santo, porque ele oferece o alimento do seu Deus.

Levítico 21, 8

A arte tem, sem dúvida, o condão de nos tornar tão humanos e que nos faculta o vislumbre do sobre-humano, do que nos é superior e, para muitos, se torna numa porta para o transcendente, o divino. Terá dito Nietzche que a arte, na sua relação com a realidade e a verdade, é o que nos permite suportar. Suportar a própria verdade, mas também o simples humano que nos rodeia, tanto o indivíduo ao lado como o mundo que nos aterra tantas vezes.

Leonard Cohen era um dos poucos seres que dominava plenamente esta capacidade tão rara de nos fazer tudo ser muito mais facilmente suportável. Com tremendas paixões, com uma vida recheada de venturas e de aventuras, Cohen dava-nos o mais simples através da poesia e da música, reduzindo ao fundamental a essência daquilo em que tocava.

No sentido de uma leitura mística, muito se disse nos últimos dias sobre o que escreveu a propósito da morte da sua amada Marianne. Muito também se disse sobre uma entrevista de há muito pouco em que falava da morte. Muito mais ainda se há-de dizer sobre as letras das poesias do seu último álbum onde declara “Hineni, hineni; I’m ready, my lord”.

Com este, “eis-me, estou pronto”, Cohen poderia dizer muita coisa, mas é o sentido profético que lhe colocamos como o mais forte, condensando numa única frase o que, afinal, já antes se entendia de todo o seu percurso, quer musical, quer espiritual. O cantor de “Hallelujah” (de 1984), que se definia na mais perfeita linhagem judaica ao dizer que era um “Canadien errant” (de 1979), parafraseando Moisés quando este ensina ao seu povo uma declaração de fé em que se refere a Abrão como um “Arameu errante” (Deuteronómio 26, 4-10), buscava sempre na sua identidade em construção o núcleo da sua mensagem.

Nesse sucesso de 1984, Cohen referia na sua poesia o mítico Rei David, rei sábio, cantor que aliviava todas as dores do anterior monarca, Saúl, com as suas melodias.

Now I’ve heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?

Para Cohen, a música era o centro de uma Boa-Nova, de um Evangelho que afirmava como remissão. Mas a sua herança judaica não se tornava, nem obsessiva, nem exclusivista, tendo até um toque muito contemporâneo. De facto, o seu percurso espiritual passou, quer pelas ilhas gregas, quer por um mosteiro budista onde esteve quase meia-dúzia de anos. Uma busca aparentemente incessante até ao momento da serenidade em que afirma que está pronto.

Espiritual e misticamente, no nome está muito da essência do nomeado. E Cohen é, no mais profundo sentido do seu nome, em que um «cohen» é um sacerdote, aquele que lida com o divino, que transforma em divino aquilo em que toca, sacrificando-o, tornando-o sacro. Mas Leonard era mais que cohen, sacerdote, na medida em que podia tocar o divino, de forma quase ritual. Leonard Cohen era a mais plena encarnação da ideia de profetismo, de ascensão e inspiração do divino, numa tremenda dimensão de interpretação do seu mundo.

Leonard Cohen afirmava a sua voz no campo da ligação, do re-ligare. E afirmava-o, não apenas porque as referencias religiosas são imensas, não apenas porque a sua vida teve uma componente espiritual plurifacetada, mas porque o leitor e ouvinte obtinha através dele a serenidade que apenas David dava a Saúl no meio das maiores calamidades. Sim, ouvir Cohen é condição para suportar o mundo, especialmente nestes dias em que nos abandonou, com um populismo que nada deve entender das suas palavras profundas.

Há poucos dias Leonard Cohen deixou de produzir arte, poética e musical, deixando-nos apenas tudo o que produziu numa longa carreira. Contudo, na verdadeira dimensão da profecia, ela não está encerrada. A verdadeira poética encontra-se na abertura hermenêutica que o autor permite ao leitor através dos ritmos e das palavras que os preenchem. Se Leonard Cohen nos abandonou fisicamente, em nada isso tem peso algum na forma como os seus textos e músicas continuam connosco.

Como uma oração ou um mantra,

Hallelujah!

Hallelujah!

Hallelujah!

 

Fonte: Público.

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