A rede onde nos deitamos

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Ricardo Gondim

Rubem Alves escreveu que Deus não é pássaro para prendermos em redes. Ele é a rede onde nos deitamos. Concordo, Deus é a rede que nos dá repouso, onde encontramos algum sentido na feliz e trágica aventura de viver.

Depois do mito, do símbolo e do rito, as religiões procuram se perpetuar através das doutrinas. Quanto mais frágil uma religião, maior apego a seu conjunto de afirmações e discursos. A doutrina é um último recurso para proteger uma religião. Como em todas elas, o Divino é seu tema principal, sempre que uma corrente religiosa se sente em perigo, mais precisa ser exaustiva em definir e explicar Deus. O Mistério ficaria, assim, domesticado pelo clero. Contido nas afirmações que a teologia faz a seu respeito, aquela denominação mostra sua força.

E, quando vida e dogma colidirem, a teologia virá sempre em primeiro lugar. O feixe de arrazoamentos ganha primazia sobre o compromisso com as pessoas porque a instituição estaria com alguma agressão de alguém ou de algum sistema. Ao invés de colocar-se como defensora da vida, a religião passa a defender o conjunto de verdades que pode lhe salvar.

Eis um motivo porque as religiões, ao tentarem se proteger, precisam usar afirmações inegociáveis. Essas certezas se tornam seus fundamentos. A sustentação do edifício eclesiástico depende deles. Daí o termo fundamentalismo. Uma premissa do fundamentalismo é existirem verdades absolutas e elas transcendem cultura, tempo e qualquer circunstância.

No fundamentalismo, para fazer a doutrina valer, a vida é relativizada. E as afirmações categóricas da religião ganham apologetas. Defendidas a qualquer custo, são mais preciosas que pessoas. Clichês e chavões só acontecem depois. Se a existência se mostrar bruta, e o enunciado teológico não der conta de explicar o sofrimento, algumas frases passam a ser, piedosamente, defendidas. Vazias de argumento, mas sagradas.

Se guerras e genocídios cobram explicação, o fundamentalismo não se importa se suas respostas beiram a bobagem. Mas, como responder aos horrores da fome, da miséria e aos crimes nacionais? Algumas chegam tão vazias de conteúdo que ninguém as respeita. Nesse ponto, o fundamentalismo é um tiro no pé. Não liga sequer se arremeter a algum conceito frio sobre a divindade. Eis uma possível explicação para o ateísmo: se Deus é malvado e obscuro, melhor abandoná-lo.

Reagimos ao risco de existir, e aos percalços do dia a dia, com quais conteúdos? O que nos dá algum sentido? Na hora em que for necessário debulhar o infortúnio  que acossa a humanidade, melhor insistir no diálogo respeitoso com o diferente. Talvez Deus habite a máxima de toda espiritualidade: faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você. Penduremos nossas redes neste gancho.

Chega de cartilhas de teologia, catecismos e livros de apologética. Eles se organizam em questiúnculas. E só alimentam discórdias. Padres, pastores, rabinos, seminaristas, alunos de escola dominical e pretensos defensores da glória de Deus sabem: suas certezas não são inquestionáveis. Aprofundemo-nos apenas no que importa: a preservação da dignidade e da vida. A agenda de quem escreve, discursa ou prega, deve coincidir com esse alicerce da coexistência humana: todos somos irmãos.

Abandonemos a ideia de esquadrinhar o Eu sou. Desejemos nos deitar em redes brancas. Procuremos alimentar a alma com o amável, louvável e gentil. Caminhemos nos verdes prados da paz. Caso encontremos quem nos dê de beber da água do poço em Samaria, não hesitemos em chamá-lo de irmão. Abramos a nossa tenda para receber o estrangeiro; quem sabe, na hora de partir o pão, nos vejamos na companhia do divino companheiro.

Soli Deo Gloria

 

Fonte: sítio Ricardo Gondim.

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