Bendita esperança

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© José Brissos-Lino

 

A palavra esperança vem do termo latino spes (verbo esperar: sperare). Significa: “espera aberta; que não versa sobre resultados externos (como a expectativa), mas sobre a realização do ser pessoal (ou sobre uma mudança radical da condição humana)” (1). De uma maneira genérica pode abranger “toda a tendência para um bem futuro e possível, mas incerto” (2).

Portanto, será mais do que expectativa, confiança, ou a capacidade de aguardar algo de bom que ainda não chegou, ou até mesmo mais do que uma disposição do espírito que induz a esperar aquilo que se virá a realizar ou suceder. Deduz-se que se fala de esperar por algo positivo, “um bem” (3). Segundo Leonardo Boff, a esperança “é principalmente futuro. É projeto, prospecção, distensão para o amanhã” (4).

A esperança apresenta-se portanto como um conceito dinâmico, qualquer coisa animada por uma natureza propulsora. Note-se que a esperança cristã constitui um conceito teológico, diferente da esperança comum, por assim dizer. Perante a revelação de Deus na história o Seu povo caminha fortalecido para o futuro, à semelhança dos hebreus no deserto, a caminho da Terra Prometida, sempre em movimento.

Deus de esperança

Em termos bíblicos, o Novo Testamento apresenta Deus como “o Deus de esperança”:

“Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo” (Romanos 15:13).

Deus não precisa de ter esperança, Ele mesmo, pois é o Eterno Incriado, o Alfa e o Ómega, tudo sabe, tudo conhece, mas é Aquele que suscita em nós essa tal disposição de espírito ou realização pessoal ou projecto, através do poder (virtude) do Espírito Santo. Mais. O propósito divino é que vivamos em esperança, de forma abundante. O apóstolo Paulo, conhecido como o primeiro teólogo da esperança, explicava aos cristãos de Roma que seria justamente a esperança vinda de cima que os encheria de “gozo (alegria) e paz” numa atitude de fé. Estas palavras podem ter sido motivadas devido às conhecidas perseguições aos cristãos na sede do império romano, assim como à intensa pressão idolátrica que sofriam.

Logo, a esperança que é proposta a todo o cristão não depende das circunstâncias do momento, sejam elas ambientais ou psico-emocionais. Pelo contrário, ela é dom de Deus e caracteriza-se como uma espécie de alegria funcional que se destina a encher os justos (filhos de Deus) até acima, tal como se enche totalmente um recipiente de água até transbordar: 

“A esperança dos justos é alegria, mas a expectação dos perversos perecerá” (Provérbios 10:28).

Mas a esperança cristã é também parceira da fé, da qual é impossível ser dissociada, pois é esta que nos permite manter viva aquela:

“Porque nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça” (Gálatas 5:5).

Fé e esperança

Quem não preserva uma atitude de fé dificilmente terá esperança. O passageiro dirige-se à paragem do autocarro porque faz fé do horário estabelecido pela respectiva empresa de transportes colectivos. Aí chegado espera (tem esperança) de que o seu autocarro chegue, ainda que não o possa ver.

O Deus do Antigo Testamento revelava-se mesmo como fonte de esperança que brota durante toda a vida terrena do justo: 

Pois tu és a minha esperança, Senhor DEUS; tu és a minha confiança desde a minha mocidade” (Salmo 71:5).

O salmista parece considerar aqui a esperança como réstia de salvação, como luz no fundo do túnel, como bordão de arrimo nas duras veredas da vida, mas não se entende ainda o mecanismo da esperança, que vem a ser explicado mais tarde por S. Paulo, já nos escritos neotestamentários, no âmbito duma revelação progressiva.

A Esperança não é uma coisa invisível ou indefinida. Pode e deve poder ver-se:

“Onde, pois, estaria agora a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?” (Job 17:15).

Ou seja, a esperança do crente revela-se pelo seu testemunho e praxis, o que inclui pensamentos, palavras e atitudes. Se eu acredito que o autocarro está prestes a chegar à paragem não desisto, não me vou embora mesmo que se atrase um pouco.

Note-se que o pecador também tem esperança, só que a mesma não vai além da sua existência na terra:

“Morrendo o homem perverso perece sua esperança, e acaba-se a expectação de riquezas” (Provérbios 11:7).

Simone de Beauvoir achava “horrível assistir à agonia de uma esperança.” Mas também disse, por outro lado, que “em todas as lágrimas há uma esperança.” Ou seja, é triste perder a esperança. Mas a esperança cristã não se perde, renova-se porque está sempre associada à fé. A esperança cristã não se conforma aos limites existenciais ou quaisquer outros, porque provém do Criador, Aquele que do nada fez o universo (barah) chamando-o à existência pela palavra do seu poder. Até porque esta estirpe de esperança não é selectiva mas inclusiva, está ao alcance de todos, independentemente da sua condição social, até dos mais pobres e excluídos da sociedade:

“Assim há esperança para o pobre; e a iniquidade tapa a sua boca” (Job 5:16.

Cale-se a iniquidade fale a esperança. Fale porque está umbilicalmente ligada às palavras que proferimos. Ela deve ser confessada porque a confissão da fé tem a capacidade de não apenas manter viva a esperança, mas até de a transformar em realidade:

“Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23).

Uma disposição pró-activa e objectiva

Na sua essência a esperança cristã, longe ser um simples sentimento volátil ou indefinido, é sobretudo uma disposição pró-activa e objectiva. Ésquilo dizia que é a esperança que nos transporta até à meta. Mas, acima de tudo, a esperança cristã é um processo de construção que passa por várias fases, como depreendemos nos escritos paulinos:

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5:1-5).

A fé é o princípio de todas as coisas no reino de Deus. Depois vem a tarefa da construção da Esperança, a qual, paradoxalmente, começa pela tribulação. É no meio das lutas, dificuldades de percurso, aflições e adversidade que é temperada a paciência ou longanimidade (“ânimo longo”). Dessa paciência resulta uma experiência, e vem a ser essa experiência que dá à luz a esperança. Essa esperança não é filha do acaso ou da inspiração do momento, mas da experiência de fé que resulta da paciência, que entretanto foi desenvolvida a partir da adversidade quotidiana.

A esperança cristã não é produto de mentalização, de algum tipo de indução ou técnicas de auto-ajuda de aparência cristã, antes radicando no terreno da luta pessoal e espiritual. E de facto, só uma experiência pessoal crítica poderia criar esta disposição pró-activa e objectiva a que chamamos esperança cristã.

Pablo Neruda inquiria: “Sofre mais aquele que sempre espera do que aquele que nunca esperou nada?” Mas a esperança a que o poeta chileno se referia não era a esperança cristã, pois esta sabe que espera com confiança. Nunca se trata duma espera inglória ou inútil. Um neófito terá fé mas dificilmente revela esperança. Não teve tempo para desenvolver no seu carácter cristão a tal experiência de que a esperança é feita. A sua fé ainda terá que passar pelo teste, terá que ser provada, para poder ser comprovada.

Tendo esperança já não há lugar à confusão, porque o teste da fé nos fez experimentar e tomar consciência espiritual do amor que Deus nos tem. Talvez por isso o apóstolo classifique a Esperança como uma das três grandes virtudes teologais, em conjunto com a fé e o amor:

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” (i Coríntios 13:13).

De acordo com a experiência pessoal de Job, é a esperança por sua vez que alimenta a fé, como num sistema de vasos comunicantes:

“E terás confiança, porque haverá esperança; olharás em volta e repousarás seguro” (Job 11:18).

A esperança como arma poderosa

Em 1969 Nelson Mandela enviou uma carta de encorajamento à mulher, desde a prisão, na qual afirmava que a esperança é “uma arma poderosa e nenhum poder no mundo pode privar-te dela.” Era importante resistir à iniquidade do regime do aparthaid, mas isso só seria possível se a esperança – essa “arma poderosa” – fosse mantida viva, até porque não dependia do governo ou de qualquer outro poder.

Uma das fotos icónicas do líder sul-africano é aquela em que ele olha pela janela, com um olhar sereno e esperançoso, na cadeia de Robben Island. Faz lembrar C. H. Spurgeon quando dizia que “a fé sobe pelas escadas que o amor construiu, e olha pelas janelas que a esperança abriu.” A fé faz agir, mas a esperança faz sonhar acordado. Era assim que grandes pensadores da Antiguidade, como Aristóteles, viam a esperança, como “o sonho do homem acordado.”

A esperança cristã tem igualmente um carácter hamartológico, está ligada à nossa Salvação:

“Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará?” (Romanos 8:24).

Talvez por isso o general De Gaulle achasse que “o fim da esperança é o começo da morte.” Mas a esperança cristã não fenece porque se inspira no binómio morte-ressurreição de Cristo. Por isso ela está intimamente associada à vida.

O carácter profético da esperança

Segundo uma carta da famosa Comunidade Taizé (2003/3), a esperança cristã, sendo qualquer coisa muito mais complexa do que uma simples expectativa positiva, não significa alienação, desejo, mas assume um carácter profético que interfere no estilo de vida do presente:

“A esperança bíblica e cristã não significa uma vida nas nuvens, o sonho de um mundo melhor. Não é uma simples projecção do que gostaríamos de ser ou de fazer. Leva-nos a ver as sementes deste mundo novo já presentes no dia de hoje, por causa da identidade do nosso Deus, por causa da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Esta esperança é ainda uma fonte de energia para viver de outra forma, para não seguir os valores de uma sociedade assente sobre o desejo de posse e de competição.”

A esperança dá-nos um novo olhar sobre o mundo, que procede da comunhão com o Cristo ressuscitado. Mas também nos impulsiona a um estilo de vida alinhado com os valores do Evangelho. Sobretudo, a esperança cristã opõe-se à filosofia deste mundo.

“A esperança cristã emerge como uma negação à tendência materializante de uma concepção cosmológica pessimista que tende limitar a transcendentalidade da vida aos ditames de um tempo pensado cronologicamente (início, meio e fim). O mundo da vida se nomotiza (ganha sentido) por meio dela (esperança cristã).” (Claudio Ivan de Oliveira).

Para o Papa Francisco (2013), a esperança cristã é uma “espera fervorosa”, mas que não se deixa limitar por uma atitude passiva ou inerte. Pelo contrário, é uma espera apaixonada pela “realização última e definitiva de um mistério, do mistério do amor de Deus”.

No fundo, como escreveu Adel Bestavros, esperança é “paciência consigo mesmo”. (5) A nossa grande dificuldade em viver a esperança cristã não provém das circunstâncias, da nossa estrutura emocional ou do mundo envolvente e muito menos de Deus, mas sim do nosso próprio interior, do nosso ser espiritual. Somos impacientes e inquietos demais para aprender a esperar em Deus, com toda a confiança.

E por vezes também temos dificuldade em compreender que a adversidade é o primeiro degrau para subir a escada que dá acesso à bendita esperança que Deus nos propõe como forma de vida.

 

(1) Russ, J. Dicionário de filosofia. São Paulo: Scipione, 1994, p. 89.

(2) Cabral, R. (Dir.). Logos. Enciclopédia Luso-brasileira de filosofia. V 2. Lisboa/São Paulo: Verbo, 1990, p. 227.

(3) Cf. tb. ESPERAR. In: Lalande, A. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 326-327.

(4) Boff, L. Vida para além da morte. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 17.

(5) Cit. por Thomás Halík, Paciência com Deus. Prior Velho: ed. Paulinas, 2016, p. 5.

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