O aviário

 

José Brissos-Lino

 

A chamada Visão Celular, mais conhecida por G12, não passa de um aviário espiritual e vai completamente ao arrepio dos princípios bíblico-teológicos de discipulado.

Alguém saído do sistema – e bastante arrependido de lá ter estado durante cinco anos, apesar da sua comunidade de fé ter sido das que mais cresceram em termos numéricos – caracterizou a prática do falso profeta René Terra Nova, como sendo uma “esperta e poderosa estratégia de marketing” utilizada para transmitir as suas ideias e atrair a si especialmente pessoas de quatro tipos, a saber:

  • As pessoas carentes de uma figura forte (os simples que choram ao chamar-lhe “pai”).
  • Os líderes que desejam aprender o modelo para utilizar na restauração do seu ministério falido.
  • Os indivíduos que parasitam o sistema vivendo à sua custa.
  • Os “sadomasoquistas espirituais” que, apesar de tanta punição, sacrifício e submissão, adaptam-se ao modelo por gostarem de sofrer.

Roseleine Perez assegura que estes quatro tipos de pessoas representam a grande maioria dos convertidos a Terra Nova e ao G12.

O segredo

O arrependimento lúcido desta pessoa e a sua experiência no sistema permitiram-lhe finalmente compreender que há três principais molas propulsoras que fazem funcionar a engrenagem.

Desde logo uma lavagem cerebral, ou seja, um conjunto de técnicas que levam ao controle da mente e à doutrinação em massa. Em todas as etapas da chamada “Visão Celular” se podem observar mecanismos de indução, fortes estratégias de manipulação das emoções com vista a prejudicar discernimento espiritual, o julgamento e aumentar a promover a sugestibilidade: “Os métodos coercivos de convencimento, os treinamentos intensos e cansativos que minam a autonomia do indivíduo, os discursos inflamados, as músicas repetitivas e a oratória cuidadosamente persuasiva são recursos que hoje reconheço como técnicas de lavagem cerebral, onde há mudanças comportamentais gradativas e por vezes irreversíveis.” Um dos exemplos mais eloquentes desta prática é os chamados “Encontros”, onde se aposta na despersonalização da pessoa, proibindo-lhe os contactos com o mundo exterior, assim como qualquer partilha posterior com pessoas “de fora”, evitando assim o questionamento daquelas práticas.

Depois, há que ter em conta também a personalidade de Terra Nova, que umas vezes é duro e autoritário, mas outras engraçado, carismático e charmoso.

Mas também a encenação. Nas sessões para “receber legitimidade” como apóstolos de Terra Nova, as exigências são absurdas e a ostentação escandalosa: compra de “distintivos sacerdotais” caríssimos, hospedagem obrigatória num hotel de luxo predeterminado, luxuosos trajes de gala, e participação obrigatória num jantar caríssimo com Terra Nova e afins, após a cerimónia.

Finalmente, deve considerar-se a ganância do ser humano face às promessas de sucesso rápido e infalível. O conceito da “Visão Celular” é sedutor, encantador e mexe demasiado com o ego.

Como subcultura religiosa que é, o G12 desenraíza espiritualmente os fiéis, desde logo através da terminologia utilizada, por ser completamente nova, surgindo como uma espécie de novo dialecto para um tempo novo num contexto inovador, que não permite verificações por comparação:

Ganhar, consolidar, discipular, enviar, almas, células, famílias, Peniel, Iaweh Shamá, honra, conquista, ser modelo, unção apostólica, atos proféticos, mãe de multidões, pai de multidões, conquista da nação, mover celular, riquezas, nobreza, encontro, reencontro, encontros de níveis, resgatão, Israel, festas bíblicas, atos proféticos, congressos, redes, evento de colheita, prosperidade, recompensa, multidão, confronto, primeira geração dos 12, segunda geração dos 12, toque do shofar, cobertura espiritual, resultado, resultado, resultado, etc…

Resultados nefastos

Segundo o testemunho de Roseleine Perez, o sistema G12 provoca danos profundos naqueles que nele se envolvem, como os seguintes:

Perda do foco: “Quase perdi Jesus de vista!”.

Menosprezo da família: “Minha família ficou relegada ao que sobrava de mim.”

Abuso espiritual sobre a comunidade: “Fui responsável por manter minha comunidade de fé em regime escravo (apesar da embalagem maravilhosa), por ajudar a alimentar a ganância de muitos.”

Farisaísmo: “Colaborei com a neurotização da fé de muitos, devido à perseguição desenfreada em nome duma perfeição e santidade inalcançáveis.”

Burnout (esgotamento): “Fiquei neurótica e procurei ajuda psicológica devido a crises interiores inenarráveis, por ter desenvolvido síndrome de burnout, hoje sob controlo.”

Heresia: “Vendi a ideia da aliança incondicional do discípulo com o discipulador, afastando subtilmente as pessoas da dependência de Deus.”

Abuso espiritual sobre os fiéis em particular: “Invadi a vida de muitos a título de discipulado, cuidando até de quantas relações sexuais as discípulas tinham por semana, sem que isso causasse ofensa ou espanto.”

“Opinei sobre o que o discípulo deveria comprar ou não, tendo “direito” de vetar o que não achasse conveniente. A menor sombra de discordância por parte do discípulo era imediatamente reprimida, sem qualquer respeito. Quando isso acontecia os demais tomavam como exemplo e evitavam contrariar o líder.”

“Ouvi o testemunho duma discipuladora que, para confrontar e educar uma discípula, havia chegado à loucura de bater nela, para que a mesma parasse de falar em morrer. Esse é o argumento dos incapazes, dos que não conseguem levar cada triste, cada suicida ou deprimido às garras da graça de Cristo, mas que querem se fazer os solucionadores das misérias do povo.”

Deturpação da Palavra: “Aceitei que fosse tirada a Bíblia ao povo. Em vez de estudar assuntos que traziam crescimento tornámo-nos robôs numa linha de montagem, manipuláveis, dogmatizados.”

Espírito de competição: “Fomentei a disputa de poder entre os irmãos ignorando os sentimentos dos que iam ficando para trás.”

“Perdi amigos e sofri demasiado com tais perdas.”

Não há atalhos para o crescimento espiritual. O tempo é fundamental, assim como a experiência pessoal e a relação com Deus. O sistema massificador do G12 apela à falta de maturidade de fiéis e líderes, tirando partido das fraquezas e falta de maturidade, prometendo “galinha gorda por pouco dinheiro”.

Conclusão

O sistema celular, ou G12, não passa duma espécie de aviário espiritual onde se tentam criar discípulos à força e em grande velocidade, o que, como bem sabe quem tem experiência cristã e conhecimento da Palavra, não é possível, por ser contrário à natureza do próprio discipulado.

Um cristão não cresce espiritualmente através de truques como se faz com os frangos (rações e hormonas), mas sim com tempo e devoção a Deus, nem cresce através de aliança e submissão cega a qualquer líder (dono de aviário), mas sim com uma experiência de vida e relação pessoal com Cristo, em compromisso com Aquele que é o único Senhor. Até porque, como está escrito, um planta e outro rega (mas estes não são nada, note-se!), mas quem dá o crescimento é Deus:

“Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Coríntios 3:7).

O sistema apoia-se numa praxis que se pode classificar como de abuso religioso, uma vez que exige submissão cega e acrítica ao líder, em todas as suas afirmações e desafios, sob pena de se ser considerado rebelde, mas apenas promove a burrice ou embrutecimento espiritual.

 

Veja aqui o testemunho da sobrevivente Roselaine Perez: 
http://www.genizahvirtual.com/2014/11/uma-sobrevivente-da-visao-celular-de.html

 

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