Reflexões sobre a epistemologia do divino

 

David Raimundo

 

Creio no valor da teologia enquanto exercício de reconhecimento da revelação divina na experiência humana. Desenvolvo o pensamento teológico como um caminho que busca a aproximação à verdade construída a partir do chão da vida, tecida a partir da vivência quotidiana e do drama humano. Corroboro a afirmação do Ed René Kivitz quando ele diz que Deus não é oposto das coisas, mas sim o pleno sentido de todas elas. Assim, a teologia também não há de ser independente das coisas, antes há de ser a incessante procura de encontrar Deus nas coisas.

É precisamente desses encontros com Deus nas coisas que escrevem os autores bíblicos. Um Deus que se revela das formas mais surpreendentes e inusitadas do lado de cá da realidade palpável: uma sarça ardente, uma voz calma num lugar ermo, um bebé numa manjedoura…

Creio que é esta abordagem existencialista que a Bíblia me convida a fazer porque é esta também a abordagem daqueles que escreveram os livros que a compõem. Uma revelação que é progressiva e que é sempre feita do lado de dentro da cultura e cosmovisão dos personagens bíblicos. Do lado de dentro da trama. Do lado de dentro do drama humano. Uma revelação que ganha rosto e corpo quando Jesus Cristo anda entre nós. Por Ele e por causa dele ficamos perplexos, surpresos, desconcertados e somos levados a reconstruir a forma como explicamos o mundo…

As nossas histórias podem não integrar o canône bíblico, mas são também histórias da Grande História. Histórias de homens e mulheres que vão ouvindo rumores sobre a Verdade, vão tendo encontros com a Verdade, vão caminhando lado a lado com a Verdade e por vezes, como no caminho de Emaús, nem sequer a reconhecem. Sim, nós hoje também somos pescadores da Galileia, soldados romanos e cobradores de impostos. E, tal como eles, vamos interpretando a realidade – as coisas – em resposta à Verdade que vamos descobrindo.

Ora, esta mesma abordagem existencialista leva-me a rejeitar a teologia construída a partir de premissas metafísicas desligadas da realidade e dissonantes da experiência. Faço a teologia de baixo para cima e não de cima para baixo. Faço a teologia não esvaziando o mistério que ela permanentemente nos traz e que resulta de apenas vermos em parte, e não em todo. Vemos um reflexo de Deus, um enigma fascinante, que o torna muito mais uma pergunta a abraçar do que uma resposta pronta. Rejeito, portanto, a teologia enquanto exercício de sistematização absoluta e exaustiva da verdade sobre Deus e rejeito ainda mais as tentativas de forçar sistematizações puramente metafísicas para dentro da realidade.

Neste sentido, rejeito, em particular, a sistemática de Calvino e dos seus discípulos. Rejeito-a por uma série de boas razões (porque, por exemplo, a dupla predestinação é uma ideia horrível) mas não me interessa esmiuçar aqui todas elas. Há por aí livros e blogues que o fazem muito melhor do que eu. No contexto do que já escrevi acima, abordo apenas uma dessas razões: rejeito o calvinismo pois este é construído a partir de premissas altamente dissonantes com a minha experiência.

Rejeito a doutrina da depravação total porque ela é contrária à experiência de encontrar Deus no meu próximo. Creio firmemente que toda a beleza e toda a bondade vêm de Deus, pelo que um homem que ama não pode estar totalmente depravado.

Rejeito o monergismo – a doutrina de que o homem não tem qualquer participação na sua salvação – por ser também contrária à experiência: no meu dia-a-dia eu escolho e eu sou responsável pelas minhas escolhas. É isso que eu faço. É essa a realidade que me é dada a conhecer na minha experiência. No palco da vida, eu tomo decisões, faço escolhas – grandes e pequenas – e sou responsável por elas. Quando o calvinismo nega esta realidade está a sobrepor-lhe uma doutrina fictícia e desconectada das coisas. O calvinismo eleva a soberania de Deus a um absolutismo tal que, ironicamente, na sistemática calvinista, Deus fica refém da sua própria soberania. O calvinismo aprisiona Deus. Neste aspeto, parece-me que Calvino caiu na armadilha de ser mais papista do que o Papa.

Arrisco até alinhar com Kierkegaard na sua ode à decisão enquanto faculdade que aproxima o homem do divino:

Uma decisão junta-nos ao que é eterno. Traz o eterno para dentro do tempo. Uma decisão eleva-nos com um choque do sono da monotonia. Uma decisão rompe o feitiço mágico do hábito. Uma decisão rompe a longa sucessão de pensamentos cansados. Uma decisão pronuncia a sua benção até mesmo sobre o mais fraco dos recomeços, desde que seja um recomeço real. Uma decisão é o despertar para o que é eterno.

Rejeito pois o calvinismo e muitas outras doutrinas que não sejam produzidas a partir do chão da vida. E, da mesma forma que acredito que conhecemos a Verdade no chão da vida, acredito que a fé também se expressa no chão da vida, em profunda conexão com a realidade como ela é, em profunda conexão com as coisas. Quero com isto dizer que, ao encontrarmos Deus na experiência, também é na experiência que esboçamos a nossa resposta a Deus. A fé não se concretiza, pois, na afirmação de proposições absolutas mas no acolhimento da Verdade, a um nível relacional muito mais profundo do que o meramente intelectual, e na ação que responde a essa Verdade. Conhecemos Deus dentro da realidade e é dentro da realidade que lhe damos resposta. A essa resposta chamamos fé e essa resposta está intimamente relacionada com aquilo que fazemos. Como diz o Andrew Fellows, todos temos dois sistemas de crenças: aquilo em que dizemos acreditar e aquilo que fazemos; mas o nosso verdadeiro sistema de crenças é o segundo.

Assim, nesta perspetiva existencialista, a epistemologia, a fé e a praxis andam de mãos dadas no chão da vida.

 

Fonte: Pontos e contos de um cristão pós-moderno.

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