Da nova apologia da ignorância

 

 

José Brissos-Lino

No passado grandes homens de Deus abençoaram e fizeram crescer a obra de evangelização e pastoral. Muitos deles mal sabiam ler e escrever. Mas Deus usou-os, equipando-os e preparando-os para o ministério nas respectivas igrejas locais.

Nessa altura – há uns quarenta anos – não era fácil estudar e obter uma preparação teológica adequada, por falta de oferta em Portugal.

Apesar disso é bom não esquecer que alguns dos grandes nomes de avivalistas e líderes cristãos do passado eram pessoas com preparação académica. George Whitefield estudou em Oxford, Charles Finney era jurista e professor e David Martyn Lloyd-Jones era médico. Mas hoje é completamente ridículo fazer da incultura e da falta de preparação adequada uma regra. Não só porque as pessoas têm acesso à informação e à educação como nunca antes, mas porque a complexidade do mundo e das sociedades actuais exige incomparavelmente mais de quem sobe hoje a um púlpito.

Segundo Pommerening: “A maioria dos movimentos pentecostais sempre foi contrária aos estudos formais, especialmente da teologia, alguns assumindo posições radicalmente anti-intelectuais. Esta cultura também fazia parte dos movimentos sensacionalistas que apelavam mais à emotividade, surgidos nos séculos XVIII e XIX, ideia esta geralmente difundida por seus líderes, pois se acreditava que o estudo extinguiria o agir do Espírito.”

Esta cultura anti-educativa e pretensamente espiritual baseava-se num conjunto de textos bíblicos mal interpretados, como os seguintes:

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6);

“Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?” (1 Coríntios 1:19,20);

“E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” (1 Coríntios 2:4);

“A ciência incha, mas o amor edifica” (1 Coríntios 8:1b);

“Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” (Mateus 11:25); ou

“E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis” (1 João 2:27).

A verdade é que em nenhum dos trechos acima citados encontramos qualquer aversão, censura ou desencorajamento a uma boa educação humana ou a uma preparação adequada para a obra do ministério, mas apenas duas ideias enfáticas:

1 – a ciência (ou a “letra”) associada a uma atitude de orgulho pode ser perigosa (muito embora o orgulho religioso ainda seja mais pernicioso);

2 – as coisas espirituais chegam-nos por divina revelação e pela obra do Espírito Santo, e não pela ciência humana (“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. 1 Coríntios 2:14).

Partindo de ambos os pressupostos e mantendo um espírito ensinável, torna-se ridículo querer exaltar a ignorância, o obscurantismo e a falta de preparação como uma espécie de virtude teologal.

É verdade que parte dos discípulos de Jesus eram pescadores, mas tiveram a melhor escola possível, a convivência diária e permanente com o seu Mestre. Mas o apóstolo Paulo – o grande evangelizador do Império Romano – era altamente preparado, com estudos teológicos e outros.

No mundo em que vivemos é lamentável que se pense descartar a preparação. É a mesma coisa que dizer que uma pessoa não precisa de estudar para ser médico, ou engenheiro ou professor. Antes de Hipócrates ou Galeno não se estudava medicina. Mas isso justifica que nos dias de hoje alguém queira ser médico sem primeiro cursar ciências médicas, independentemente de possuir uma grande vocação para ser médico?

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s