Brexit, escatologia e literatura policial

 

Uma maioria muito simples (por poucos) decidiu a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Já se esperava.

De facto, os ingleses nunca estiveram com os dois pés dentro da Europa. Não aceitaram a moeda única nem algumas medidas de solidariedade interpares, mas beneficiaram sempre das vantagens do mercado único. Como conta a velha piada inglesa, se há nevoeiro no Canal da Mancha o continente está isolado.

O Brexit provocou ondas de choque na Europa – e não só – quer pelo ineditismo do novo caminho a percorrer, uma vez que nunca ninguém abandonou a UE, quer pelas consequências políticas, num momento de reforço da extrema-direita e dos movimentos nazis e neo-fascistas no continente, quer, ainda, pela incógnita sobre o futuro dos cidadãos europeus emigrados em terras de sua majestade, ou de britânicos na Europa continental.

Acresce que o Remain ganhou na Escócia – que agora quer ser independente e continuar ligada ao projecto europeu – quer na Irlanda do Norte – onde já se fala em integração na república da Irlanda – quer em Gibraltar, que não se sabe o que vai dar.

A verdade é que o receio substituiu a surpresa e apoderou-se dos cidadãos europeus, incluindo os britânicos.

Como acontece sempre que há alterações políticas profundas, acções terroristas, conflitos armados ou catástrofes naturais, neste nosso pobre mundo, há uma franja de cristãos conservadores, adeptos do escapismo, que visualizam o fim do mundo e a Parousia ali ao virar da esquina. Voltou a acontecer agora. É a sua forma de atribuírem alguma espécie de sentido a acontecimentos que não podem controlar e que os afligem. Compreende-se.

Porém, há duas questões que nenhum cristão pode esquecer.

Primeiro, Jesus Cristo afirmou que ninguém sabe, nem pode saber, quando acontecerão “estas coisas” (“Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai”, Mateus 24:36).

Segundo, já estamos fartos de ouvir, nos últimos cinquenta anos, pelo menos, classificações e identificações recorrentes de personagens públicas com figuras escatológicas. Sempre e invariavelmente por engano, já que a História se encarrega de desmentir tais teses.

Confesso que não compreendo esta histeria pseudoprofética.

E se deixássemos de nos querer armar em detectives ou adivinhos e passássemos a confiar mais no Bom Pastor, já que, no dizer do salmista David, “nada nos faltará”, enquanto ovelhas do seu rebanho? O que for, será.

A menos que sejamos muito adeptos dos mistérios típicos da literatura policial.

 

Fonte: José Brissos-Lino, Instituto de Cristianismo Contemporâneo.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s