Pessoa e José Gomes Ferreira: a lírica dos bombardeamentos

© João Tomaz Parreira

 

 

Se para Nietzche não havia factos, mas, sim, interpretações, para os poetas a guerra sendo uma interpretação do Mal, ou uma subserviência ao mesmo por parte do ser humano, é sempre escrita nos poemas como um facto, a morte não é uma metáfora; morrer sim, pode constituir-se metáfora: “Morrer devia ser assim…/ Boiar estendido numa nuvem” (JGF)

Poeta que levou à poesia o confronto dialético entre as metáforas luminosas, imagens que saem da antimatéria da mente para a realidade e as críticas ao Estado Novo, à ditadura salazarista – como um neo-realista-, e às incertezas do homem nas terríveis e atribuladas décadas de 30 e 40, não apenas em Portugal, mas na Europa, José Gomes Ferreira escreveu com a sua consciência mais do que com a pena, um prestidigitador das imagens poéticas. Mas, a verbalidade rica da sua poesia não era dúbia, era sim, sim, não, não. Mário Dionísio, outro poeta dissidente, digamos assim, do Novo Cancioneiro, preconizou que JGF seria “cantado nas ruas”, como poeta “essencial”.

Do conjunto ou livro de poesias denominado “Invasão”, de 1940-1941, no contexto da II Guerra Mundial, escreveu entre outros, o poema para uma cidade “fortemente bombardeada”, em que a ironia é sangrenta e, diria até apesar de já muito tardia, expressionista:

O general entrou na cidade

Ao som de cornetas e tambores…

Mas porque não há “vivas”

Nem flores?

Onde está a multidão

Para o aplaudir,

Em filas na rua?

E este silêncio?

Caiu de alguma cidade da lua?

Só mortos por toda a parte,

Mortos nas árvores e nas telhas,

Nas pedras e nas grades,

Nos muros e nos canos…

Mortos a enfeitarem as varandas

De colchas sangrentas

Com franjas de mãos…

 (Ferreira, Poesia II, Portugália, 1973, 134)

 

Falando de outra guerra, mas sempre com a nitidez de uma fotografia, Fernando Pessoa demonstra a ternura como a desse poema O Menino da sua Mãe, ao mostrar-nos a “criança loura” que “jaz no meio da rua”, nos versos “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”. O menino da sua mãe, soldado, e a criança loura, são vítimas à sua maneira,  afinal vítimas de quem manda nas nações e podem ser senhores da guerra.

Com dois versos que suplantam na tristeza das palavras alguns versos da poesia expressionista alemã nos anos 20 do século passado, Pessoa inquieta-nos sempre com os resultados que conhecemos, todos, das guerras modernas e dos bombardeamentos.

Poderíamos invocar o conflito civil actual na Síria, ou a “guerra” traiçoeira dos actos terroristas, nesta visão da criança loura:

“A criança loura

Jaz no meio da rua.

Tem as tripas de fora

E por uma corda sua

Um comboio que ignora.

 

A cara está um feixe

De sangue e de nada.

Luz um pequeno peixe

-Dos que boiam nas banheiras-

À beira da estrada.”

 (Pessoa, Poesias, Ática, 1973, 249)

 

O recurso de identificar os momentos de alegria decepados da criança morta através dos brinquedos, dá-nos a dimensão da dor e da tristeza. A imagem transfigura-se,  a criança morta torna-se uma realidade, os versos são como uma fotografia de um repórter de guerra. São realistas e por isso penetram na interioridade do real.

Perante  a dupla imagem,  semântica e visual,  tendemos a fechar os olhos, a dureza de “as tripas de fora” e a referência a “uma corda”,  como uma ligação à vida no brinquedo agora para sempre ignorado.

A criança abandonada é um apelo  para o fim dos conflitos sangrentos, coisa que seria das mais relevantes no mundo moderno a par da submissão ao Evangelho de Cristo.

Este poema de Pessoa, sem data, é uma verdade também.  É uma fotografia escrita do Mal.  É um engulho para todos aqueles que têm por “profissão de fé” atribuir pontas soltas na Criação Divina, ou a Deus, recorrem sempre a uma: o Mal. Salvo melhor comparação, é como se, no domínio da física, a matéria se misturasse com a antimatéria: aniquilar-se-iam ambas.

25-04-2016

 

 

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