Antecipação paulina da metalinguagem: um ensaio?

 

 

 

© João Tomaz Parreira

 

 

Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós; (Gálatas, 4:19)

A metalinguagem, no âmbito da ciência da linguística, constitui-se como uma linguagem particular, que esconde e revela ao mesmo tempo, crítica e exalta o objecto da comunicação, cujo conteúdo está para além (do grego: Meta) da normalidade. E o apóstolo Paulo utiliza – dir-se-ia hoje – uma metalinguagem, naquela expressão tão compreensível, pela mulher e pelo homem, quanto rara para falar teologicamente.

Paulo conhecia o valor da linguagem, da língua como fenómeno social. Na Epístola aos Romanos, declara-se “devedor de todos, desde o grego culto ao selvagem ignorante” (Romanos 1.14, na original versão do Novo Testamento J. B. Phillips).

Porém, só no início século XX, o linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913) e outros, iniciariam investigações na área da linguagem.

A experiência espiritual do Apóstolo

Paulo reclama-se não de um vigilante zelador sobre a fé dos crentes da região da Galácia, mas assume-se como Mãe/Pai.

Paulo utiliza uma hipérbole, que um leigo na linguagem simbólica paulina acharia um exagero, e uma metáfora, ao considerar-se grávido de amor paternal e do amor de Cristo pelos cristãos gálatas. Quase todos naquela comunidade evangélica foram convertidos dos ídolos ou mesmo do monoteísmo pagão a Jesus Cristo pelo ministério missionário e plantador de igrejas do Apóstolo signatário da Carta. Eram as suas dores espirituais, doutrinárias e sociais que estavam em causa na expressão invulgar “por quem de novo sofro as dores de parto”. A hipérbole, dores da maternidade, a metáfora a referência ao nascimento.

Paulo estabelece e cria mesmo uma nova relação íntima com os cristãos da Galácia, que, desprendendo-se dele próprio, eleva a superioridade de Cristo ao concluir “até ser Cristo formado em vós”.

A expressão adverbial “de novo” ou “novamente”, no início do vocativo tem a máxima importância, antes não tivesse, e relança o problema dos judaizantes no seio da comunidade.

Culpa dos crentes da Galácia por darem ouvidos a outro evangelho? Sejamos benevolentes hoje, quando estamos no âmago de tempestades neo-pentecostais, neo-relativistas e de outros tantos mercenários do evangelho, a igreja cristã dos gálatas foi apanhada no meio de uma controvérsia judaico-cristã, quando nem a Graça de Deus, nem a história recente do Cristianismo o fariam prever.

Um conflito de gerações?

O conflito de gerações, verifica-se de um modo geral entre as pessoas de tradições distintas, grupos etários diversos, educadas em culturas, países e línguas diferentes. Obviamente que o ocorrido na Igreja cristã da Galácia não foi neste sentido. Nem porque o conflito de gerações seja de observância moderna, ainda quando sabemos que já no século XIX, o romancista russo Ivan Turgueniev escrevia sobre o tema no seu romance “Pais e Filhos”, considerado uma obra-prima da literatura realista russa.

Uma simples passagem pelas falas dos personagens desse romance e perceberemos, in loco, um conflito de gerações em 1862: “Olho para vocês, meus jovens amigos- disse Vassili Ivanovitch- que força em vocês, que juventude tão florida, quantas aptidões e talentos” (…) “ Eu sou um velho… sou um velho, já tenho sessenta e dois anos, e, além disso, não sei nada”.

Mas entre os crentes cristãos da Galácia, o conflito geracional era outro, de outra proveniência, não deixando de ser um conflito espiritual entre um Pai na Fé e (alguns ?) dos seus filhos.

Esses filhos foram ganhos para o Evangelho de Jesus Cristo, nascidos de novo e tornados cristãos, na cultura grega e deixaram-se, posteriormente, seduzir por outra. Os piores inimigos da religião de Moisés, os judaizantes infiltraram-se e deram origem a um conflito “geracional” da Fé, teologicamente falando.

Num período de sincretismos fáceis, que multiplicava deuses, a cultura grega era fundamentalmente monoteísta, no que tocava ao Deus supremo (“Há um Deus único, senhor dos deuses, não se assemelha aos mortais em aparência corporal” – Xenófanes de Eleia). A cultura judaica por maioria de razão, o chamado judaísmo helenístico era, obviamente, monoteísta. O choque de gerações ou civilizacional, se quisermos exagerar, veio então de onde? Veio da práxis religiosa que os judaizantes quiseram impor aos novéis cristãos, livres e libertados da lei mosaica pela Graça de Deus manifestada em Cristo. A mensagem judaizante resumia-se à proclamação de que era preciso carregar sobre os ombros preceitos legalistas, práticas que substituiriam a Graça de Deus na Salvação e a Boa Nova de Jesus. Os crentes da Galácia receberam a boa nova na fé – como escreve em geral autor de “Itinerário Espiritual de S. Paulo”(Cerfaux, L. Sampedro Editora, Lisboa, 1969) – e agora  queriam impor-lhes o peso da Lei. Foi perante esta realidade e contra ela que o Apóstolo Paulo usou a melhor arma: o amor fraternal, isto é, um sentimento estruturado em poética, senão mesmo a poesia explícita: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós”.

 

 

 

 

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