Porquê Deus, se tenho a ciência?

 

 

Alfredo Dinis*

 

1. Porquê a ciência, se tenho Deus? A questão da relação entre ciência e religião interessa-me desde há muito tempo, mas devo confessar que não é fácil encontrar pessoas que do lado da religião tenham suficiente informação sobre a ciência, e vice-versa. Mesmo da parte das elites cristãs, como são os teólogos, não é fácil encontrar pessoas que não só estejam informadas sobre os dados científicos, mas que também compreendam, sem desnecessárias ansiedades, as implicações que esses dados poderão ter para a própria teologia.

O heliocentrismo defendido por Copérnico e Galileu teve enormes, para não dizer devastadoras, implicações na teologia cristã: destruiu completamente o universo medieval. E isso foi uma “bênção” para a teologia. Sem a revolução copernicana, e toda a revolução cosmológica subsequente, ainda estaríamos hoje a acreditar que o empíreo, a habitação de Deus, dos anjos e dos santos, estava situado por detrás da esfera das estrelas fixas! O evolucionismo proposto por Charles Darwin tem consequências ainda maiores.

Contemporaneamente, as ciências cognitivas lançam novos desafios à compreensão do ser humano e da sua experiência religiosa. A teologia só tem a ganhar se levar a sério estes novos dados que lhe vêm da ciência. Os teólogos não se poderão limitar a achar interessantes as teorias científicas, como se não tivessem de as estudar e levar a sério enquanto teólogos. A teologia deve retirar das teorias científicas suficientemente fundamentadas as implicações que introduzam modificações no próprio discurso teológico e na autocompreensão que o cristianismo tem de si mesmo. De outra forma, os teólogos poderão estar a fazer um discurso cada vez mais irrelevante.

2. Cristianismo e evolucionismo. O evolucionismo constitui uma aquisição científica da humanidade. As suas implicações filosóficas, éticas e religiosas são imensas. Isto cria um estado de alta ansiedade em muitos crentes, não apenas cristãos. Pude constatar isto mesmo no decorrer de um congresso sobre ciência e religião em que participei, na Universidade Médica de Teerão (2006). Os fundamentalismos correspondem objectivamente a altos estados de ansiedade em quem acredita que todas as proposições religiosas são intocáveis, e em quem se vê de súbito confrontado com a necessidade de introduzir modificações nessas proposições. Tentativas de deixar tudo na mesma como o criacionismo e o intelligent design, são formas inadequadas de lidar com altos estados de ansiedade provocados pelo evolucionismo. João Paulo II aceitou formalmente o evolucionismo não apenas como uma hipótese mas como uma teoria com suficiente evidência.

Mas as implicações teológicas do novo paradigma têm sido muito pouco explicitadas, precisamente porque levam a introduzir alterações no discurso teológico para as quais poucos teólogos estão preparados. Teilhard de Chardin (1881-1955) explicitou corajosa e lucidamente essas implicações. Para ele, o evolucionismo não só é aceitável como deve levar a teologia cristã a um repensamento profundo do seu discurso sobre a origem da vida e até mesmo sobre a concepção de Deus. Deus deixa de ser o imutável e absolutamente transcendente para se tornar num Deus cuja história intersecta a do universo e da humanidade e, por que não, a história de todas as “humanidades” que existirão nos inúmeros planetas habitados por esse universo fora! E, por que não dizer, por esses universos fora?

Também o teólogo Karl Rahner (1904-1984) procurou compreender o que muda no cristianismo tendo em conta o evolucionismo. Contudo, ainda hoje para muitos cristãos, a origem do mundo e da humanidade é a que vem descrita no Génesis, literalmente interpretado. Esta, porém, não é a posição de um cristianismo amadurecido no contacto com a ciência contemporânea e com um método actualizado de interpretação da Bíblia.

3. Ler a Bíblia hoje. A interpretação da Bíblia tem conhecido mudanças significativas desde o século XIX, mas a leitura abstracta e literal de passagens que devem ser lidas contextual e, por vezes, metaforicamente, é ainda praticada por muito poucos. Tanto o criacionismo, como a afirmação repetidamente feita pelos críticos do cristianismo acerca do carácter sanguinário do Deus do Antigo Testamento, por exemplo, baseiam-se numa leitura do texto bíblico que já pertence à história. Não há um conceito de Deus no Antigo Testamento, mas vários. Os livros que compõem o Antigo Testamento não constituem um curso sistemático de teologia, mas a interpretação que o povo judeu fez da sua história a partir da crença num Deus único. Quando venciam e destroçavam outros povos, os judeus só podiam concluir que esse Deus estava com eles e lhes ordenava que destruíssem os seus adversários. Mas isso não significa de modo algum que devamos tomar essa interpretação como correspondente ao facto de Deus ser tão sedento de sangue, de destroços e de despojos quanto o povo judeu.

4. Imagens incorrectas do cristianismo. Uma ideia muito divulgada entre os críticos da religião em geral e do cristianismo em particular é a de que os crentes se consideram possuidores de uma visão total, coerente e integrada de Deus, do universo e da vida, não tendo portanto quaisquer dúvidas sobre o quer que seja, e que se alguma dúvida surge, ela é prontamente resolvida pelos padres e pelos teólogos; os crentes acreditam em dogmas rigidamente formulados e que não podem ser discutidos criticamente na sua formulação; a crença religiosa é uma questão de se aceitar cegamente até mesmo o que é absurdo, porque foi revelado por Deus; a religião alimenta-se de milagres, de crenças bizarras; etc., etc.

Devo dizer que não me reconheço minimamente em tais caricaturas do cristianismo apresentadas em livros, artigos e textos vários cuja publicação se tem recentemente multiplicado. Considero além disso que, objectivamente, estas caricaturas não correspondem à realidade do desenvolvimento histórico do cristianismo nem à sua actualidade. Os cristãos não sabem tudo, as dúvidas são elementos integrantes da crença religiosa, e o espírito crítico é fundamental para que a religião não caiam no dogmatismo fundamentalista ou na superstição. Além disso, os tradicionais dualismos como natural/sobrenatural, imanente/transcendente, este mundo e o outro, etc., tradicionalmente relacionados com a crença religiosa, exprimem mal, a meu ver, a autocompreensão do cristianismo.

 

Fonte: Rerum Natura.

 

* Padre jesuíta licenciado em Filosofia e em Teologia, e doutorado em História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge (Inglaterra). É director da Faculdade de Filosofia de Braga, onde lecciona Lógica e Cristianismo e Cultura. É também presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Cognitivas, e director da revista de psicologia “Pessoas e Sintomas”.

 

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