Como a Igreja não está a ser capaz de responder a uma geração secularizada

 

 

 

José Brissos-Lino

 

 

A pesquisa realizada pelo Grupo Barna, uma empresa de pesquisas que explora as tendências religiosas, apontou as três razões principais que levam as pessoas a declararem-se ateus ou agnósticos.

Segundo o estudo, a rejeição à Bíblia, a dificuldade em confiar nas igrejas e uma visão de mundo secular que é reforçada através da cultura, são os problemas mais frequentes.

Estas conclusões constam dum relatório recente sobre cepticismo religioso, e revelam que 25% de todos os adultos que não frequentam as igrejas são considerados ateus ou agnósticos.

Entretanto, alguns sectores da Igreja no mundo, respondem da pior maneira possível a estes três factores.

 

Rejeição à Bíblia.

Em vez de ensinar e divulgar a Palavra de Deus, tiraram-na dos púlpitos. É raro observar uma leitura bíblica substancial num acto de culto. As leituras bíblicas, só por si, não têm lugar na liturgia, preferindo-se ouvir um sermão de uma hora com base num simples versículo, ou a actuação duma equipa de louvor durante outro tanto tempo. As Escrituras deixaram assim de ocupar o lugar que merecem, um lugar de honra nas reuniões.

Prefere-se criar escolas de ministério, a fim de promover doutrinas particulares e a ideologia ou filosofia específica duma igreja ou denominação, do que ensinar as Escrituras.

Ora, se a fé vem por ouvir a Palavra de Deus:

“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17),

e se o que não é da fé é pecado (ou seja, “falha o alvo”):

“Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado” (Romanos 14:23),

e se sem fé não podemos agradar a Deus:

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” (Hebreus 11:6),

torna-se então fundamental “ouvir com ouvidos de ouvir” a Palavra de Deus:

“Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça” (Marcos 4:23).

A Igreja precisa de recentrar a sua cultura à volta do Cristo que é revelado nas Escrituras.

 

Dificuldade em confiar nas igrejas.

Nalguns círculos, os dirigentes, em vez de se esforçarem por promover a transparência e a ética fazem exactamente o contrário. A falta de controlo das contas é gritante e a forma de recolha de ofertas e dízimos é errada, quando não manipulativa ou abusiva.

A ética pastoral parece ter-se tornado coisa de museu.

Verifica-se uma transumância inaudita de fiéis entre ministérios, o que revela uma terrível falta de compromisso com Deus e com a comunidade local de fé. A entrada das igrejas locais é cada vez mais uma porta giratória, que tanto serve para para entrar como para sair.

Há uma tendência para atrair as pessoas com programas, truques e expedientes que em nada honram o nome do Senhor.

Face a esta crise reputacional a Igreja só se pode queixar de si mesma. E não é maquilhando a sua imagem externa que recuperará a credibilidade perdida. Terá que ser mais autêntica, mais comunidade de fé, mais bíblica, mais à imagem de Cristo.

 

Uma visão de mundo secular que é reforçada através da cultura.

E o que faz a Igreja perante isto? Tenta imitar a visão secular do mundo… Ou seja, na arquitectura dos espaços de culto, na liturgia, e nas práticas tenta assemelhar-se cada vez mais a uma colectividade de bairro, suprimindo todo o sentido do sagrado.

A sensação que se tem quando se entra nas instalações de muitas destas comunidades é que não se entrou numa igreja, mas sim numa sala de concertos ou de espectáculos.

Mesmo em termos de imagem exterior, aposta-se cada vez mais em passar a imagem dum centro de artes, cultura, desporto ou convívio, em vez de centro de adoração.

Isto é, em vez de a Igreja desenvolver a sua própria cultura – arquitectura, liturgia, actividades, dinâmicas, métodos e apresentação aos homens – anda a reboque do mundo, revelando um mimetismo que acabará por lhe ser fatal.

Note-se que muitos já nem se identificam com o nome de “igreja”, e alguns nem sequer de “centro cristão”, optando por uma designação inócua, bem reveladora da confusão que lhes vai na cabeça, possivelmente devido ao conceito de “igreja contemporânea”.

Creio que a boa compreensão deste conceito não passará por uma qualquer descaracterização da igreja, mas antes pela leitura da sociedade em que vivemos e por uma praxis culturalmente consentânea. Não significa, em caso algum, que a Igreja perca as suas referências, a sua simbólica e muito menos a sua mensagem e postura proféticas.

Durante dois mil anos a Igreja de Cristo precisou contextualizar-se, e fê-lo sem abdicar da sua identidade, sem se vender por um prato de lentilhas. Não precisa de cair nesse logro agora.

Fala-se muito em igreja criativa, mas aquilo que se vê não é uma Igreja criativa, mas sim uma Igreja cada vez mais imitadora do mundo, isto é, da filosofia secular. E, para baralhar e dar de novo, passou a incluir ainda uma profusão de elementos da simbólica judaica, que escandalizaria o apóstolo dos gentios.

A Igreja necessita de recuperar o seu ADN, sendo criativa sim, mas enquanto Igreja de Cristo.

 

Conclusão.

Sabemos, porém, que o que está na base de tudo isto é a filosofia do pós-modernismo, ou seja, a troca do absoluto pelo relativo, e do perene pelo imediato. Quando relativizamos o que é absoluto, hipotecamos os fundamentos de toda uma herança cristã. Sempre que o foco se reduz ao imediato, perdemos a dimensão de eternidade e atentamos contra as leis naturais e espirituais. Ninguém planta um carvalho a pensar na sombra que terá no dia seguinte.

A ideia que fica é que já não estamos apenas no domínio do relativismo moral mas também dum certo relativismo da fé. Desde que se façam coisas que atraiam o povo, tudo bem. Não importa muito o quê.

Não interessa aquilo em que se crê, apenas numa religião fast-food, fácil, fofinha, de aparência sem essência, de palavras e não de convicções, de facilidades e sem espinhas.

À maneira.

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