Sobre a necessidade dos símbolos e os perigos da sua subversão

 

 

 

José Brissos-Lino

Os símbolos sempre contribuíram para as sociedades humanas estruturarem a vida colectiva, de modo a organizar o seu funcionamento prático de forma ordenada e simples.

Por exemplo, os sinais de trânsito são apenas símbolos, tal como os sinais que identificam as casas de banho destinadas a homens ou a senhoras, as farmácias ou os restaurantes, os rótulos dos produtos que consumimos, ou a marca dos carros em que nos movemos. Desde o “Perigo de morte” ao “Cuidado com o cão”, passando pelo “Proibido fumar” ou pelos sinais que identificam a moeda, a vida humana em sociedade é quase inconcebível ou impraticável sem a existência e mediação comunicacional dos símbolos.

No campo da Transcendência acontece da mesma forma. Assim, a cruz simboliza o Cristianismo, ou identifica um templo da fé cristã, e relaciona-se, sem qualquer dificuldade, o Islão com o crescente, ou o Judaísmo com a estrela de David. Tal como as asas se ligam mentalmente aos anjos, a pomba ao Espírito Santo, ou os chifres e pés de cabra ao demónio.

Anos depois da morte de Salomão, no tempo em que o antigo Israel estava dividido, um jovem que começou a reinar no Sul, de seu nome Ezequias, decidiu clarificar a prática religiosa da nação. E começou justamente por destruir os símbolos da prática religiosa apóstata, que representavam a adesão aos velhos cultos pagãos cananitas, e que o seu pai e antecessor no trono havia permitido, numa clara cedência política, mas em flagrante desrespeito para com Iavé, o Deus de Israel, com quem havia sido estabelecida uma aliança desde os tempos de Moisés. O facto é relatado no Segundo Livro de Reis (18:1-4):

“No terceiro ano de Oseias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar e reinou vinte e nove anos em Jerusalém; sua mãe se chamava Abi e era filha de Zacarias. Fez ele o que era recto perante o Senhor, segundo tudo o que fizera David, seu pai. Removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o poste-ídolo; e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã.”

Ezequias, o novo governante do reino do Sul, “removeu os altos”, isto é, destruiu os lugares elevados onde eram construídos altares para os sacrifícios a deuses pagãos (1 Samuel 9:12; 1 Reis 14:23). No caso do culto dedicado ao deus Moloque, até crianças eram ali sacrificadas (Jeremias 7:31).

Ezequias “quebrou as colunas”, ou seja, pedras que serviam para marcar lugares sagrados, e que eram utilizadas para a prática da idolatria (Levítico 26:1).
Ezequias “deitou abaixo o poste-ídolo”, o que significa que haveria um totem representando provavelmente Aserá (ou Astarote, ou Astarte), deusa da fertilidade, que era adorada por fenícios e sírios em culto lascivo, juntamente com Baal, seu companheiro (Juízes 3:7). Ezequias também “fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã”, ou seja, estamos aqui perante a perversão do sentido de um símbolo.

A história bíblica relata de que forma surgiu a dita serpente de bronze, nos dias em que o povo peregrinava no deserto do Sinai (Nm 21:4-9):

“Então, partiram do monte Hor, pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, porém o povo se tornou impaciente no caminho. E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil. Então, o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras, que mordiam o povo; e morreram muitos do povo de Israel. Veio o povo a Moisés e disse: Havemos pecado, porque temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor que tire de nós as serpentes. Então, Moisés orou pelo povo. Disse o Senhor a Moisés: Faze uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste, e será que todo mordido que a mirar viverá. Fez Moisés uma serpente de bronze e a pôs sobre uma haste; sendo alguém mordido por alguma serpente, se olhava para a de bronze, sarava.”

Desta forma, a serpente que é hoje, entre nós, e desde há muitos anos, símbolo universal da farmacopeia, dado o poder curativo que assume no episódio bíblico atrás relatado, foi desvirtuado pelos israelitas, justamente enquanto símbolo, de modo que passou a representar uma divindade aparentada com os cultos cananitas.

O que aconteceu para que este acto de perversão simbólica tivesse ocorrido?

Provavelmente tratou-se de uma mudança de paradigma religioso. Chegados à “terra da promessa”, os israelitas acabaram por se comprometer com os cultos pagãos cananitas, existentes antes da sua chegada. Agora que já não viviam o nomadismo do deserto, sem pão nem água, inteiramente à mercê dos cuidados divinos, mas quando já cultivavam a terra, construíam as suas habitações, viviam da pastorícia e desenvolviam profissões típicas do estilo de vida sedentário, e quando a sombra tutelar do seu Deus já não era considerada fundamental à sobrevivência, acabaram por ceder à cultura religiosa autóctone, atraídos pelo simbolismo das manifestações religiosas do paganismo.

Talvez isso tenha acontecido porque a simbólica judaica se confinava quase apenas ao Templo de Jerusalém, o qual, afinal, pouco impacto tinha na vida quotidiana do judeu comum que vivesse fora da cidade, em tempos de mornidão religiosa.

Aquele povo cuja vida comunitária no passado de desenrolava à volta do Tabernáculo, o templo portátil do deserto, que era invariavelmente instalado no centro do arraial, o coração do acampamento, com as tendas familiares dispostas à volta, organizadas segundo as suas tribos, e cujos rituais sacrificiais davam sentido à sua prolongada peregrinação, desenvolvendo uma teologia da esperança, centrada no destino final de Canaã, tinha agora perdido o referencial ritualístico e estruturante da sua vida pessoal, familiar e comunitária, que era, de todo, inseparável da fé dos filhos de Abraão.

Havia que encontrar uma simbólica de substituição, que permitisse a construção de uma identidade nacional, até porque os seus irmãos desavindos do reino do Norte, os samaritanos, não haviam revelado grande dificuldade em substituir o culto judaico no Templo de Jerusalém, agora interdito visto ser a capital de Judá, pelas manifestações religiosas do Monte Gerizim, em Samaria, capital de Israel, de recorte pagão, que também incluíam os “altos”.

Aliás, o encontro de Jesus Cristo com a mulher samaritana, relatado no Evangelho de S. João (4:1-30), aflorou a situação de divisão e confusão religiosa que ainda persistia:

“Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar”.

As dúvidas da mulher incluíam decerto não apenas o lugar correcto para prestar adoração ao Deus de Abraão, mas também a forma de o fazer, isto é, a simbólica e o ritual adequados. Daí que o Mestre lhe tenha dito: “vós adorais o que não sabeis”.

Fazia parte da aliança mosaica a definição do lugar do culto verdadeiro, sem deixar margem a quaisquer dúvidas (conf. Deuteronómio 12:1-5):

“São estes os estatutos e os juízos que cuidareis de cumprir na terra que vos deu o Senhor, Deus de vossos pais, para a possuirdes todos os dias que viverdes sobre a terra. Destruireis por completo todos os lugares onde as nações que ides desapossar serviram aos seus deuses, sobre as altas montanhas, sobre os outeiros e debaixo de toda árvore frondosa; deitareis abaixo os seus altares, e despedaçareis as suas colunas, e os seus postes-ídolo queimareis, e despedaçareis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar. Não fareis assim para com o Senhor, vosso Deus, mas buscareis o lugar que o Senhor, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis.”

Mas também toda a construção ritual e a simbólica judaica estava devida e pormenorizadamente registada e definida na Torah, pelo que não havia razão para se não fazer assim.

No fundo, o pecado de Israel, que provocou a violenta destruição da serpente de bronze, transformada em relíquia-símbolo de uma divindade estrangeira e alheia à nação judaica, significou não apenas o apagar do passado, por ela representado, e que remetia para a memória do livramento divino nos dias difíceis do deserto, mas também a adulteração da memória colectiva. E um povo sem memória não é povo, porque perde o cimento agregador que o caracteriza. Mas representou, igualmente, o rasgar do pacto sinaítico, que estava na génese da formação nacional. Israel só era povo específico e peculiar, isto é, portador de uma identidade nacional, devido à aliança estabelecida no passado com Iavé, que libertara aquele grupo de hebreus, incaracterístico, da escravidão no Egipto, pela mão de Moisés.

Os símbolos remetem para significâncias e realidades espirituais, sociais, religiosas, políticas e outras. Aplicar um símbolo, com uma carga historicamente adquirida e estabelecida, a uma significância nova e contraditória, provoca dissonâncias de representação que implicam custos elevados, em matéria de confusão, e pode exigir que venham a ser simplesmente destruídos, por inadequação ou inutilidade no novo contexto.

Por isso, será importante perceber os símbolos e respeitá-los, pois só assim é possível garantir a sua preservação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s