Cristo e o seu cristianismo no Sermão do Monte

 

© João Tomaz Parreira

Encontramos nos Evangelhos Cristo nas ruas como O encontramos no seu Sermão da Montanha.

“No princípio era o Verbo” – escreve João no prólogo do seu Evangelho – e isso nos ajuda a entender que Jesus Cristo como o Logos é a totalidade divina encarnada: Palavra e Vida, Pensamento e Acção.

Em Cristo, o Nous (razão, inteligência, espirito) não era alheio ao Seu corpo, porque “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

O que o Filho do Homem vivia não era diverso do que pensava e de como agia na Sua divina perfeição a favor do Homem.

E isso também sublima a dimensão do Ser Humano, como criação divina.

É que se a Matéria (seguindo o mecanicismo de Spencer) fosse o mais importante na composição do Homem, como um produto mecânico, em detrimento do Espírito e da Consciência, tanto fazia um homem ou um gorila terem assinado a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ou, muito antes, Jesus Cristo ter pronunciado o Sermão da Montanha.

O Sermão da Montanha

Antes de conter dogmas para a convivência ética dos homens uns com os outros, Jesus Cristo eternizou nesse Sermão no alto da Montanha a Moral dinâmica, que conduz a uma experiência mística, de relação quotidiana do homem com Deus.

Um filósofo europeu francês do Século XX, Henri Bergson, entendeu perfeitamente isso e fez um inestimável favor ao Cristianismo condenando o materialismo e o mecanicismo da vida, porque o ser humano não é um produto mecânico da matéria.

Jesus Cristo desceu das altitudes do seu pensamento como Deus para junto dos homens com o Sermão do Monte, que é uma Carta de Princípios. Não um conjunto de dogmas/preceitos estáticos; Bergson referia que o carácter do genuíno Cristianismo era dinâmico. A perfeição evangélica está, segundo o filósofo que foi considerado místico, no “sermão sobre a montanha, com suas normas aparentemente desconcertantes que devem tornar-se realidade crescente na conduta prática do cristão”.

O início do sermão da montanha, que terá logo nesse dia e ao longo dos séculos desconcertado muita gente, “Bem-aventurados os pobres de espírito” (5,3) termina com o apelo à perfeição: “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (5,48)

O começo e o final, ou melhor, os começos e os finais do Sermão descrito nos Evangelhos de Mateus e de Lucas, reflectem as finalidades últimas e universais do discurso no monte.

A primeira dessas finalidades é que não se tratava de um sermão para a Igreja (Cristã, obviamente) porque a mesma não havia sido revelada ou fundada ainda.

A segunda, de acordo com os melhores exegetas, consistia “num esboço de princípios” para o reino messiânico, mas como esse reino foi rejeitado, então aplica-se todo o conteúdo ético e moral do discurso basicamente à religião Cristã, ao Cristianismo com Cristo.

Se assim não fosse, ambos os evangelistas escritores não o teriam relatado para a eternidade, teria apenas ficado na oralidade contextualizada da Judeia contemporânea de Jesus Cristo.

Perante o Sermão da Montanha seria legítimo esperar do Verbo excelentes Escritos, quando lemos nos Evangelhos “a oração sacerdotal”, “Não se turbe o vosso coração”, “Eu sou a videira verdadeira” ou “Tenho-vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis”. Ou as célebres três parábolas no Evangelho de Lucas.

A verdade é que Jesus Cristo não escreveu nada, e se eu gostasse de lugares-comuns diria que no entanto inspirou toda a Bíblia, o que se sabe da sua escrita está somente no mistério das palavras que redigiu no chão perante a mulher adúltera e seus acusadores.

O Sermão da montanha, chamado assim tardiamente por um comentário de Santo Agostinho, pronunciado perto de Cafarnaum na Galileia, deve ser tomado em pé de igualdade com a lei mosaica do Monte de Sinai, no que concerne à ética, à moral, e aos relacionamentos dos homens entre si e com Deus.

A Ética do Sermão

O Sermão do Monte teve sempre uma ética social em risco, pela condição humana e porque os homens o quiseram sempre anular ab ovo, manifestando-se tragicamente esse desejo desde o princípio do século XX.

Não há tensões entre o Evangelho que preconiza e a Ética social que estabelece. Espiritualidade e militância não se anulam. A aplicação prática do Sermão na vivência do cristão desmente desde a sua publicação nos Evangelhos, no século I, o que Nietzsche viria a afirmar séculos depois, que “no fundo só existiu um cristão, e ele morreu na cruz” (in Anticristo).

O teólogo e mártir do nazismo, Dietrich Bonhoeffer considerava o Sermão da Montanha no plano da Ética como um “evento da reconciliação do mundo com Deus através de Jesus Cristo” para os chamados agirem dentro da história com responsabilidade cristã. E por isso também o considerava no plano do Discipulado. Bonhoeffer escreveu num dos seus mais famosos livros “Discipulado” que “a resposta do discípulo não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um acto de obediência”.

Os pobres de espírito aceitam a perda de todas as coisas, especialmente a perda de si, de forma que eles podem seguir o Cristo.

O Sermão requer antes dos joelhos no chão, o levantar da inércia da religião e seguir incondicionalmente, sem títulos nem prebendas, Quem chamou: Jesus Cristo, para agir na História.

Este caminho não é para entusiastas da religião cristã – como diria o autor de “Resistência e Submissão” -, mas para aqueles que sabem que o amor / ódio do mundo os fará padecer.

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