Um ano após “Charlie: a facilidade do “bode expiatório”

 

Haveria tanto para caricaturar… mas é mais fácil desenhar Deus a matar

Faz um ano que teve lugar o terrível ataque à redacção do “Charlie”. Na altura, todos falámos e escrevemos sobre a tragédia, especialmente sobre o que na Europa e no Ocidente se iria alterar com este ataque. O universo da Liberdade, especialmente a de Expressão, seria obviamente afectado. Mas os ataques, na mesma Paris, nos finais do ano findo vieram mostrar que, afinal, as reflexões muito sábias que todos fizemos em nada se aproximavam do que veio, nesse fim de ano, cercear a nossa liberdade.

De facto, um ano depois, a questão da Liberdade é a menos importante das reflexões a enquadrar. Já vimos que o clima de terror se instala muito facilmente; já todos percebemos que a maioria dos cidadãos abdica de parte da sua liberdade se isso for o preço a pagar por segurança. Também já vimos que a escalada do terrorismo facilmente nos transporta para realidades, violência e número de mortes cada vez mais impressionantes. Portanto, sendo uma realidade altamente dinâmica a que temos à frente, nada nos espanta no que ela nos venha a afectar no campo das diversas liberdades que dávamos por adquiridas.

E, como sinónimo do quadro em que vivemos – essencialmente um quadro mental de representações – somos hoje diariamente bombardeados com afirmações quase apocalípticas que usam a comparação com a II Guerra Mundial para descrever o tempo presente: “maior vaga migratória desde a II GM”, por exemplo. Levando ao limite do horror dessa guerra em que tanto se matou, tudo parece talhado a resoluções que tudo atropelam e que perdem o senso da análise.

E os tempos que vivemos são tudo menos propensos ao senso da análise. Os medos suscitam reacções, retraem a possibilidade de convívio, criam bodes-expiatórios. As redes sociais estão pejadas de afirmações de horror que induzem ao medo, à revolta, à retracção do projecto europeu. A todo e qualquer momento vemos estalar o leve verniz civilizacional que nos dizia que éramos afáveis, compreensivos, hospitaleiros e humanitários.

Incapazes de encontrar as verdadeiras razões e os ainda mais importantes agentes do terror, caímos em generalizações que nos descansam por darem um nome que podemos ofender. De resto, a maior marca, a melhor prova, de que a religião nos moldou irreversivelmente os comportamentos e a forma de pensar é a dificuldade, quase incapacidade, secular de olhar para o fenómeno religioso e apontar o dedo exactamente a quem tem culpas ou lucra com as conivências.

Henrique Monteiro, divergindo da visão mais comum, numa excelente crónica de no Expresso Diário, “Um ‘Charlie’ medroso, a fingir que não é” mostra-nos a forma como o próprio Charlie, na data do aniversário do ataque que dizimou boa parte da sua equipa, não consegue sair do primarismo, do simplista, da ofensa imediatista de colocar a figura de Deus a matar. Nesse gesto de afirmação de poder comunicacional, ofende-se, por arrastamento, todos os que não se revêm nos atentados mas se revêm na ideia de Deus, deixando de fora os nomes, as caras, aqueles que foram, esses, sim, são os responsáveis por tudo.

É tão mais fácil usar de um humor simplista e colocar Deus a matar, em vez de questionar, por exemplo, a inacção europeia até certos momentos, ou mesmo a validade dos discursos que foram usados para justificar uma série de intervenções militares verdadeiramente assassinas. É tão mais fácil apontar o dedo a uma realidade que materialmente não existe, uma religião e o seu suposto deus, se isso nos possibilitar continuar a ter um modelo de cultura que não se preocupa com uma análise que nos leve ao fundo dos problemas, quer nas suas causas, quer nas suas futuras consequências.

A cultura europeia parece ainda não ter ultrapassado um certo Complexo de Édipo em relação ao universo religioso, não assumindo nunca o lugar e o peso dessa paternidade, esgotando-se em diatribes perfeitamente inconsequentes. No limite, enquanto sociedade, por exemplo, para que nos interessa se há argumentos que comprovem a existência de Deus? Para que interessa acusar um suposto deus e uma religião se quem alguma vez poderemos julgar em lugar próprio são os crentes?

Mas é tão mais fácil usar, como milenarmente se tem feito, um bode-expiatório, lançar para ele as culpas, e seguir como se nada fosse. Incapazes de chamar à realidade os nomes que transportam as verdadeiras culpas, perdemos o ânimo a dar realidade a culpas que nunca poderemos levar a tribunal.

Dos agentes e líderes assassinos do DAESH aos políticos ocidentais que nos lançaram nesta situação irresolúvel, passando pelos líderes de todo o mundo, especialmente das grandes potências regionais, tanto haveria para caricaturar… mas é mais fácil desenhar Deus a matar.

 

Fonte: Visão.

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