O princípio do totalitarismo num conto de Julio Cortázar?

 

 

© João Tomaz Parreira

 

Podemos ler o conto “Casa Ocupada” (1), inserido na obra-prima “Bestiário”, de Julio Cortázar (1914-1984), e depois saltar da parábola fantástica para a política e para a religião, em ambas as perspectivas sob o prisma do perigo silencioso do totalitarismo consentido, quer se manifeste em ideologia de Estado ou na ocupação da alma e espírito do ser humano por ídolos diversos que o possam controlar.

Isto é, o conto oferece várias possibilidades de análise estrutural e tem uma pluralidade de dimensões que nos permite ver nele perigos eminentes que o povo de uma nação e/ou a alma humana vão consentindo que se transformem em realidades e se instalem até ao ponto do não retorno.

A propósito, relembremos um poema tristemente tornado célebre (existem outros de Brecht e do Pastor Martin Niemöller), cuja intertextualidade nos possibilita um confronto no âmbito da maneira narrativa do fantástico; refiro-me a um poema de Maiakovski :

Na primeira noite vêm como uma sombra

E tiram uma flor do nosso jardim

E nós com nosso silêncio não achamos estranho.

Na segunda noite,

Não se escondem e demoram mais tempo, eles

Arrastam os pés sobre as flores, matam o cão,

E nós nada dizemos.

Até  ao dia

Em que o mais imbecil deles

Entra em nossa casa e nos desvia

A lua cheia e conhecendo

O nosso medo, rouba-nos a voz da garganta.

E porque nunca reclamamos,

Só nos resta concordar.

(© Versão nossa da tradução inglesa)

Mas sintetizemos, numa breve sinopse, o conto em causa. Tem apenas 7 páginas e integra-se no conjunto das chamadas estórias curtas, do género narrativo fantástico, do romancista e poeta argentino, falecido em 1984, em Paris:

“A narrativa conta a história de dois irmãos que vivem em uma imensa casa e que, em um determinado momento, ouvem ruídos silenciosos, fazendo-os, assim, fecharem uma parte da residência. Após esse fato, passam a viver apenas no espaço livre. Ocorre que, depois de um tempo acostumados a viverem apenas naquela parte da casa, ouvem novamente os ruídos e, então, a casa é tomada completamente; restando-nos a pergunta que não é respondida por Cortázar: quem tomou a casa?”  (Quem tomou a casa? Uma leitura possível de Casa tomada, de Julio Cortázar. Eduardo Pereira Machado (Universidade de Coimbra) Epaminondas de Matos Magalhães (PUCRS)

Tem este conto sido alvo de várias interpretações que, no entanto, confluem na análise do foro psicanalítico das personagens. Trata-se de um casal de irmãos, solteiros, que vivem numa casa ampla. Suspeita-se de uma relação possivelmente incestuosa nunca resolvida. Vivem num reduto de intimidade e de segurança, num espaço de protecção, não apenas um lugar físico pouco propício a invasões do mundo exterior, o que de resto inesperadamente começa a acontecer.

Menos sofisticada, há também essa outra análise de âmbito literário na linha do conto fantástico, que escondendo a corporização ou a nomeação dos ruídos que vão ocupando a vasta casa dos dois irmãos, instala uma dúvida: o que ou quem ocupou a casa? E não foi a falta de reacção inicial que ajudou a que o ocupador, o que quer isso seja, tivesse o trabalho facilitado?

A reacção à leitura do conto, até da releitura do mesmo, porque o conto é breve,  apesar da estética de suspense no discorrer do mistério, só  pode ser em forma de pergunta,  que o leitor coloca subjectivamente “afinal, o que se passa?”, e sobretudo, “por que não reagem os donos da casa?”

A análise estrutural da obra não resolve o mistério, prolonga-o,  é nesse prolongamento que podemos ensaiar uma relação com o que chamaríamos de consentimento do totalitarismo.  O totalitarismo sobre o qual escreveu Hanna Arendt, o político e o social-político, e o totalitarismo que reside em deixar-se ocupar o coração e a vida com ídolos, o estar manietado face ao que no exterior nos sucede, na forma de ruídos invisíveis ou corporizados de forma vária. Deixo aos meus amigos psicólogos e psiquiatras as respostas. E aos estudiosos dos totalitarismos do século XX também.

 

– “Bestiário”, Julio Cortázar, Publicações D.Quixote, 1986, pp.13-20

 

 

 

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