Em tempos de morte da natureza, a cíclica ideia de (re)nascimento

 

Paulo Mendes Pinto

 

Nas festas de Ano Novo na antiga Babilónia, o que mais interessava aos crentes era, simplesmente, que o ano que viesse fosse como deveria ser; isto é, igual a todos os que o precederam.

No universo, venera aquele que está mais alto; nomeadamente, Aquele a que tudo o resto serve, e que dita a lei para todos. Da mesma maneira, venera o mais elevado em ti mesmo: ele constitui, com o Outro, uma só peça, uma vez que em ti próprio também reside aquilo a que tudo o resto serve e pelo qual se rege a tua vida. (Marco Aurélio, Meditações, livro 5, 21)

Por mais estranho que nos pareça, gentes agora habituadas à busca do efémero, do diferente, do excitante e do intenso do momento, nas festas de Ano Novo na antiga Babilónia, o que mais interessava aos crentes era, simplesmente, que o ano que viesse fosse como deveria ser; isto é, igual a todos os que o precederam.

Nesta desconcertante definição, com um forte sentido de estaticidade, aos deuses era pedido que, tal como sempre, o mundo continuasse a ser o que sempre fora, desde que os deuses o tinham trazido à existência da forma como se conhecia, mantendo a regular distribuição de alimento que a natureza possibilitava.

Nessa distante Babilónia de há uns 4.000 anos, o Homem sentia-se parte de um cosmos que era, acima e tudo, um funcionamento, um equilíbrio em que ele próprio ocupava um lugar. Esse lugar existia na exata medida em que tudo se interligava e tudo era imagem de um poder criador, divino, inatingível.

Ao Homem era dado um poder de complemento à Criação, um papel ativo na gestão do mundo, qual mandato cultural expresso na imagem do cultivo do Éden a que estava obrigado mas, também, um poder de manutenção que em nada poderia beliscar essa mesma Criação.

Divina, superior, perfeita, a Criação era imagem do equilíbrio em que os deuses tinham colocado o Homem. Equilíbrio que, contudo, era instável e tinha no Sol a imagem de uma luta mais ou menos personificada entre o Cosmos e o Caos, entre o que se queria manter e aquilo a que se queria fugir, a noite eterna.

De facto, desde a mais remota Pré-História que o marco geométrico da duração do dia deveria ser sinónimo de práticas religiosas muito importantes. Nas regiões mais a Norte da Europa, onde no Inverno o Sol se punha durante semanas a fio, eram enviados verdadeiros heróis para o cimo das mais altas montanhas para que testemunhassem o regresso do astro rei.

Também na Mesopotâmia, da qual somos em muito herdeiros, era em torno do dia mais curto que se celebravam algumas das festividades mais significativas. Naturalmente, o dia mais curto anunciava o nascer de uma época nova em que o Sol voltava a dominar crescentemente o horizonte, vindo cada vez mais os dias longos. A noite mais longa, era também a marca do fim do seu reino e o prenúncio da vitória do Sol e da luz.

No tempo de Jesus, a data do solstício de Inverno era marcada pela principal festa em honra de Mitra, o deus Príncipe do Bem, oriundo do panteão persa e elevado a uma das principais divindades cultuadas no Império Romano. Na herança persa, o culto a Mitra marcava moralmente a Luz e as Trevas como o Bem e o Mal.

O dia do Sol Invicto será, ainda em Roma, a festa que evoluirá, em grande medida, das Saturnálias, em honra de Saturno, para o culto ao Imperador, desaguando depois de Constantino na festa do nascimento de Jesus. À imagem de renascimento do Sol, do astro que agora voltava a vencer as trevas, associava-se a ideia de um Messias que narrativamente fazia exatamente isso: vencia as trevas, como várias vezes vemos afirmado no chamado Evangelho de João.

Sem dúvida que as actuais religiões devem, todas elas, este princípio organizador do mundo às religiões antigas, muito ao facto de serem elas sociedades agrárias, carentes do olhar benfazejo de tudo o que comandava as chuvas e as intempéries, mas também ao facto de estas sociedades terem muito presente a fragilidade de toda a Criação, especialmente a fragilidade do Homem.

Hoje, num mundo que se organiza em torno de cimeiras onde o olhar e o cuidado para com o clima ganha foros quase messiânicos, interessa recordar mais uma vez que o olhar para o clima e para a natureza é, acima de tudo, um olhar para o próprio Homem.

Pode parecer irónico, mas num momento em que a razão parece não ter conseguido levar a melhor sobre os interesses do desenvolvimento, a Religião parece-me ser, cada vez mais, um elo a não desprezar na equação ecológica. Um dos denominadores comuns a muitas das tradições religiosas encontra-se na afirmação de um momento criador de que o Homem é devedor e, acima de tudo, responsável pela sua manutenção – sim, pode ser bastante eficaz a ideia de manter o mundo como se o encontrou e não destruir a Criação superior.

Todas as Religiões têm alguma coisa de interessante a dizer sobre o seu olhar para os momentos primeiros, para as criaturas e as paisagens que creem terem sido criadas pelo que de mais superior e perfeito conseguem conceber. Afinal, esse olhar é para com a “Casa Comum”.

Num momento em que o (re)nascer se afirma no ciclo do Astro Rei, num momento em que a esse ciclo associamos, há milénios, toda uma dinâmica de renascimento, de reinício, de retoma, de “natal”, afinal, era de uma maturidade civilizacional tremenda perceber que, afinal, todos estamos na mesma Arca de Noé, debaixo das mesmas tempestades e voragens destruidoras.

A grande diferença é que há 4000 anos os indivíduos iguais a nós que na cidade de Babilónia esperavam pelo lado potenciador dos ritos de Ano Novo, tinham uma atitude passiva que remetia a acção apenas para os deuses, para o rei e para os sacerdotes. Hoje, de facto, somos todos membros de uma Casa Comum. Mas mais que comum em destinos e fados, assim como em anseios messiânicos, esta Casa é comum em nos ter demonstrado que a vida na polis a todos implica, de todos precisa.

E essa é a imagem que tão poeticamente encontramos omnipresente neste quadro solsticial, seja no já abandonado culto ao Sol Invicto, seja na imagem do Mitra Príncipe do Bem ou no Jesus recém-nascido, ou na Festa de Hanukkah hebraica, a Festa das Luzes: a busca da Luz, imagem tão singela nos Magos que rumam de Oriente para uma pequena lapa em Belém.

Afinal, milénios depois, continuamos a desejar renascer, encontrar a Luz – sendo que hoje o individual não pode esquecer a tal Casa Comum; Neste século XXI, qualquer renascimento ou salvação, ou é coletiva ou não o será.

Fonte: Visão.

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