A lógica da proximidade, segundo Cristo

 

José Brissos-Lino

 

Jesus Cristo ensinou os discípulos desta forma:

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10:27).

Mas quem é o meu próximo, afinal? Será o meu vizinho? Família? Colegas de escola ou de trabalho? O transeunte com quem nos cruzamos na rua? É muito mais do que isso.

O Mestre terá recorrido à denominada parábola do bom samaritano para responder à interpelação do doutor da lei, que lhe apresentou justamente esta questão: “quem é o meu próximo?” E indicou-lhe o samaritano como aquele que, estando mais longe se fez próximo do homem em necessidade:

“Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira” (vs 36,37).

Inverte-se assim a lógica tradicional e religiosa de proximidade.

Não é o Outro que é o meu próximo, eu é que me faço próximo do Outro. A proximidade não procede duma situação física, geográfica ou relacional. É do domínio da vontade e não da mera circunstância. A proximidade não é passiva mas proactiva. O meu próximo é aquele de quem eu me aproximo com intenção de misericórdia.

O samaritano seria dos três elementos constantes do episódio invocado o que se encontrava mais longe do homem em necessidade, já que estava distante dele em matéria política, cultural e religiosa, pelo menos. Teve que saltar por cima de diversas barreiras para chegar ao homem e exercer misericórdia, trazendo-lhe o socorro que os outros negaram a um que era dos seus.

A lógica da proximidade que Jesus invocou aqui não era a tradicional, como se pode atestar pelo próprio exemplo do Pai, de quem a humanidade estava longe. Os gentios estavam longe de Deus (logo, não eram próximos):

“E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe (gentios), e aos que estavam perto (judeus)” (Efésios 2:17).

“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (2:13).

“O Senhor está longe dos ímpios, mas a oração dos justos escutará” (Provérbios 15:29).

Até os judeus estavam longe de Deus, apesar da aliança de Abraão, da lei e dos profetas. O discurso dos israelitas sobre Deus fazia parecer que estavam perto dele, mas de facto estavam longe:

“Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mateus 15:8).

 

Vejamos outro caso, o do cego de Jericó. Segundo a lógica tradicional de proximidade Bartimeu nunca seria próximo de Jesus de Nazaré, mas este, apesar de todas as resistências do seu próprio staff, insistiu em fazer-se próximo daquele homem. O mesmo se pode dizer de todos os gentios que vieram até ele, homens e mulheres, ou da samaritana junto ao poço de Sicar. Em todos os casos Jesus teve que saltar barreiras culturais e religiosas para chegar junto de cada um deles.

O que diferencia a Igreja duma seita é o mesmo que distingue o bom samaritano do sacerdote e do levita. Estes olharam o pobre homem através duma grelha de leitura religiosa, mas aquele saiu do seu quadro de referências, da sua zona de conforto e ousou chegar ao Outro.

A Igreja é chamada a agir como o samaritano. A chegar-se ao Outro, em necessidade, com misericórdia. Não apenas disposta a sair da sua zona de conforto, mas também a conseguir chegar ao Outro com a mensagem do Cristo ressuscitado. É justamente para isso que ela ainda está aqui.

 

 

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