O calvinismo de Albert Camus

 

 

© João Tomaz Parreira

 

É a Graça de Deus uma esquina onde nos encontramos, numa surpresa, com Ele? Quer dizer, a Salvação surpreende-nos?

Sim, mas não deveria, porque Cristo morreu perante os olhares do mundo, no monte do Gólgota, pelos homens. “Quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (Jo. 12,32) – repetiria Jesus aqui a imagem universal do modo como haveria de morrer.

Todavia, o que a História da Igreja a partir da Reforma nos concede pode ter uma surpresa numa formulação teológica inusitada. Esta pode mesmo surpreender-nos por ter vindo de um autor como Albert Camus.

Não é estranho para ninguém que conheça a obra desse escritor, que o mesmo se tenha preocupado com a religião e, designadamente, com o cristianismo. O cristianismo nunca foi uma palavra morta nem excedentária ou meramente tolerada na prosa de romance ou pensamento filosófico do autor de “O Estrangeiro” ou dessa outra obra-prima da literatura europeia do século XX, “A Peste”.

Camus não se confina ao plano histórico, material, da vinda de Cristo para iniciar a Era Cristã, ultrapassa-o para o plano doutrinal e espiritual. Escreveu que “o Cristo veio resolver dois problemas principais, o mal e a morte, que são precisamente os problemas dos revoltados”.

Obviamente que encaminha o Cristo como uma solução para uma das partes principais da sua filosofia ao escrever o livro “O Homem Revoltado”. Este é, para o escritor, “o homem que diz não”, exactamente ao Mal e à Morte, e ao silêncio do mundo perante ambos. Contudo, ninguém se pode livrar do poder nem de um nem da outra sem Cristo, afirma a doutrina cristã.

No que concerne ao Cristianismo, Albert Camus jamais lhe fechou as portas. Embora na sua estruturação do mesmo, o escritor tenha usado os materiais mais da história que da teologia.

As próprias janelas que abriu, dirigem-se sobretudo para o sacrifício expiatório e cruento de Jesus Cristo. Acerca do Salvador considera o “grande gesto heróico do seu sacrifício” que veio tomar a seu cargo o mal e a morte.  E nesta afirmação mais do domínio da opinião (doxa), que do conhecimento (epistéme), Camus é redutor.

Jesus Cristo resolveu, de facto, os problemas da morte e do mal, vencendo ambos na Cruz, mas sobretudo veio resolver a relação da criatura humana com o Pai Celestial. Veio para tornar os crentes filhos de Deus. Veio para manifestar a Graça de Deus – como Paulo diria, por epístola, a Tito –, veio como a humanização da Graça divina, se assim nos podemos exprimir, não como um ornamento dogmático para a Teologia, mas como Salvação para todos os homens.
Camus teve sempre, nos seus romances, um diferendo aberto com o mal na perspectiva de questionar se este era necessário à criação divina – se era assim, escreveu ele, “então a criação é inaceitável.”

Todavia, o que a Bíblia Sagrada e a teologia Cristã nos mostram é que Deus não criou o mal, obviamente.

Visto de outro ângulo, Camus vê o sacrifício de Jesus pela humanidade baseado num princípio de injustiça.  “O cristianismo na sua essência e sua paradoxal grandeza é uma doutrina da injustiça, está fundado sobre o sacrifício do inocente e a aceitação desse sacrifício.” – escreve nos seus Cadernos.

Porém, o sacrifício do Filho de Deus, como o próprio Deus, não podem ser submetidos ao julgamento moral do homem. A injustiça residia no homem, “não há um justo nem um sequer”, era necessária a justiça divina. Foi a injustiça que fez com que Deus manifestasse a sua justiça em Cristo, pela Graça.

No romance “A Peste”, de 1942, em que se discutem problemas sociais, morais e religiosos, e a inevitabilidade do surgimento de uma epidemia mortífera, na boa tradição do romance francês do século XIX, o autor traz aos leitores a tarefa da Graça na homília do padre Paneloux perante um templo cheio de homens e mulheres com medo da peste, que visitavam Deus apenas ao domingo.

“Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de reflectir. Os justos não podem receá-la (…). Na imensa granja do universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que a palha se separe do grão. Haverá mais palha que grão, mais chamados que eleitos, e esta desgraça não foi desejada por Deus” (pág.110) (o sublinhado é nosso)

Com efeito, no decorrer da homília, chocamos com um muro intransponível, para um cristão, o cansaço de Deus de distribuir a sua Graça, cansado de esperar o arrependimento, desviou o seu olhar.

É, de facto, um “calvinismo” no conceito de Camus, o olhar benévolo de Deus sobre uns e o afastamento do Seu olhar de outros. Embora eu ache que Deus não usa a eleição por estar bem com os eleitos e irremediavelmente mal com os não-eleitos.

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