A carta que Isaque nunca escreveria ao seu pai

 

© João Tomaz Parreira

 

Se fosse nos séculos XVIII, XIX e XX, Isaque, que é uma das pessoas centrais da realidade bíblica, progenitor de Israel, personagem do Livro de Génesis, teria deixado alguma carta escrita para o seu pai Abraão, por causa da experiência do seu holocausto.

Se houvesse uma relação  traumática parental – filho versus pai – na história de Isaque, o conflito edipiano  que deu lugar à Psicanálise de Freud, teria começado aqui, porque Isaque teria razões de queixa contra o pai.

Freud teria obviamente pegado na matéria para redefinir ou acrescentar algo novo à psicanálise. Não o filho que deseja a morte do pai, mas o contrário, um pai que leva à morte o seu filho.

Isaque quando homem feito poderia ter recordado por carta ao seu procriador, quiçá para atormentar uma velhice de provecta idade, este drama de um jovem que o pai amava e que amava o pai, no entanto levado submisso e obediente a um altar de holocausto em Moriá, como um verdadeiro proto-cristão e mártir.

Felizmente no Velho Testamento não encontramos nenhum resquício que seja de uma memória conflitual dos protagonistas de Génesis 22.

No entanto, na história da literatura ocidental, judaico-cristã, deparamo-nos com um dos maiores autores mundiais, Franz Kafka, que teve uma relação difícil, senão mesmo demolidora, com o pai. E deixou escrito esse psicodrama para a posteridade.

Não precisamos da biografia do autor de “A Metamorfose” ou “O Processo”, basta-nos um conto. “O Veredicto” ou “A Sentença”, de 1912, que o escritor checo compôs de rajada aos 29 anos de idade.  Nele o jovem personagem suicida-se porque o pai assim o determina, e o seu suicídio  por afogamento é como um regresso ao útero materno.

“Já agarrava firma a amurada, como um faminto a comida. (…) Segurou-se ainda com as mãos que ficavam cada vez mais fracas, espiou por entre as grades da amurada um ónibus que iria abafar com facilidade o barulho de sua queda e exclamou em voz baixa: – Queridos pais, eu sempre os amei – e se deixou cair. Nesse momento o trânsito sobre a ponte era praticamente interminável.”

A frase chave, transposta da realidade para a ficção de Kafka é, no momento dramático do fim: “Queridos pais, eu sempre vos amei”.

Isaque, sem nenhuma comparação possível, muito pelo contrário, distancia-se do personagem do autor checo, porque é um filho modelo do amor do pai Abraão.

Refere biograficamente o Livro de Génesis (Cap.25) que Abraão além de “dar tudo o que possuía a Isaque”, a marcar bem a posição de ambos quanto à sua relação com o filho e ao lugar de Isaque na Promessa da descendência, “expirou Abraão, morreu em ditosa velhice, avançado em anos”.

Viveu, segundo as Escrituras Sagradas, cento e setenta e cinco anos. Nunca lemos uma única queixa que fosse, de Isaque contra Abraão, e o Génesis não poupa alguns dos problemas pelo voluntarismo humano, coisas menos boas que correram mal ao velho Patriarca: querer antecipar-se aos planos divinos ou uma mentira quando foi provado.

Na obra “Letter to his Father”, Kafka escreve uma que o seu pai jamais leu:” “Durante anos eu sofri agonias quando me recordava como este homem gigante, meu pai, a autoridade final, vinha, sem razão aparente, tirar-me da cama”.

Não será de todo fora de contexto que se diz que, quer nas obras quer na referência ao pai, se tratava de uma entidade maior, Deus. Franz Kafka tinha um conceito de justiça que o fazia lutar com Deus, depois, para além de judeu, procurava na língua hebraica respostas. Diz o seu biógrafo que discutiu com Deus como fizera Job. O que faz de Kafka o Job moderno da Literatura do fantástico. Provavelmente como a estranha personagem do romance do escritor alemão Hermann Hesse, “O Lobo das Estepes”, o Harry Heller, que afirmou “dever-se sentir orgulho na dor”.

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