Refugiados no ponto de cruz

 

Rui Miguel Duarte

 

 

Duas notícias deste mês. Primeira: Ali, sírio, acompanhado da mulher e das três filhas, refugiados, é acolhido por família portuguesa em S. Martinho do Porto, Portugal. Ao extremo ocidental do mundo mediterrânico chegados, procuram voltar a vida normal como a que tinham no extremo oriental. Segunda: esta noite mesmo de 13 de Novembro, na aglomeração de Paris, atentados à bomba e a tiro, em nome do Estado Islâmico, provocam no conjunto, segundo estimativas, mais de 100 mortos.

Comum às duas notícias: pessoas de fora da Europa, de religião muçulmana, na Europa. Mas são tão diametralmente opostas quanto as reacções nas redes sociais à vaga de refugiados. Ou esta mais não é do que uma campanha bem urdida de povoamento muçulmano da Europa. Ou então, há que receber toda a gente. Aventam-se mesmo percentagens: 90% de refugiados e apenas 10% de “refugiados”; ou o contrário.

A Polónia declarou que receberia apenas cristãos. Há cristãos entre os refugiados. Uma gota de água na maré muçulmana, são os mais pontapeados de todos. É cristão receber apenas os cristãos? A minha reflexão é assumidamente fundada nos princípios éticos e antropológicos cristãos. Procura voltar à cruz, a um plano de princípios, sem descurar o prático e casuístico. Princípios que são um dos substratos, não raro denegado, do humanismo de que o tema e a Europa carecem. Porque a complexidade da questão requer mais do que critérios dualistas.

Em primeiro lugar, tratando-se do nome cristão, deve dizer-se que a Polónia erra e muito em tal restrição. A assistência aos desamparados das circunstâncias, o amor ao próximo (para me exprimir em termos bíblicos) não prefere nem pretere, estende-se a todos, mesmo aos inimigos. Assim o demonstra o próprio Jesus na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:30-37). Erra igualmente muito quem reage contra o acolhimento puro e simples, por se estar perante muçulmanos — até porque nem todos o são. E entre os muçulmanos haverá os extremamente praticantes, mas também os mediana ou parcamente praticantes. Não são todos agentes secretos de uma invasão islâmica bem orquestrada. Há muçulmanos em fuga da demência destes outros ditos muçulmanos.

No velho Pentateuco, há instruções divinas claras a integrar socialmente o estrangeiro no seio do povo de Israel. Em Levítico (19:34), o amor pelo estrangeiro como a si mesmo. No livro anterior (Êxodo 22:20) ordena-se aos Israelitas que não maltratem os estrangeiros residentes no seu seio. Israel deve lembrar-se de que fora povo cativo no Egipto: memória basilar para o respeito pelo próximo. A instrução é repetida dois livros a seguir (Deuteronómio 5:14-15): o sábado é para o bem de todos. Mais adiante, lê-se mais explicitamente (10:18): tratar do estrangeiro, dar-lhe pão e roupa! Não há metecos em Israel, como na democrática Atenas.

Raab, prostituta em Jericó, acolheu espiões israelitas, com medo dos invasores (Josué 2). Mais tarde (Josué 6), conquistada a cidade e aniquilada a sua população, foi permitido a Raab e família viver entre os Israelitas. No tempo da redacção do texto, os seus descendentes viviam ainda entre eles (Josué 6:26), em paz. O de Raab liga-se ao de outra mulher, Rute (ver o livro epónimo). Moabita esta, de um povo inimigo figadal de Israel. Raab unira-se a um israelita, Salmon. Dessa união nasceu Booz. A estrangeira Rute enviuvara de um israelita emigrante. Afeiçoara-se à sogra, Naomi, como a uma mãe. Sós e desvalidas, as duas mulheres regressam a Israel. Como Raab, a estrangeira Rute integra-se na normalidade da vida. Ora, Booz, o miscigenado, apaixona-se e casa-se com a moabita. Rute será a bisavó de David, o rei. Por extensão, duas mulheres, refugiadas, de povos inimigos, acham-se na genealogia do próprio Jesus (Mateus 1:5-6)! O segregacionista povo eleito abriu-se e integrou o Outro.

Os Judeus experimentariam de novo na Babilónia a situação de ser emigrantes por deportação. No livro de Jeremias 29:5-7 lê-se a ordem divina: viver normalmente, exercer uma profissão, constituir família, integrar-se, contribuir para a prosperidade da terra do exílio.

Isto tem muito a ver com a actualidade, com a Europa e com Portugal. Portugal, país de emigrantes, ainda hoje,  país de milhentas miscigenações há milhentos anos, país de imigrantes, já foi exemplar: acolheu refugiados na Segunda Guerra Mundial. Não, os refugiados de hoje — os mais miseráveis dos quais são os de África que atravessam em balsas, quais sardinhas em lata, o Mediterrâneo sem saber se não servirão de comida para peixes — não são todos emigrantes económicos nem todos infiltrados do Estado Islâmico, nem todos muçulmanos. Como nem todos os que já cá estão. É virtualmente impossível, além de ocioso, especular sobre percentagens. Muitos encontram-se em paz, como os Judeus na Babilónia. São meus vizinhos.

Tenho de escrever contra o que escrevem alguns dos meus próprios amigos e irmãos de fé e convicções nas redes sociais. A ponto de verem escândalo em que refugiados deixem para trás roupa mas viajem com os smartphones! Não faríamos nós o mesmo?

Não me furto, após ver a coroa, a encarar a cara. Concedo sem hesitação: todos temos o direito de receber ou não, e em que condições, o outro em nossa casa. O direito de não permitir que diga do comando o que diz o anúncio ao Meo, que coma da nossa mesa espalhando migalhas sem limpar,  queira impor a sua moralidade e mesmo tirar-nos a vida na nossa própria casa.  

Paulo de Tarso escreve (2 Tessalonicenses 3:10): “quem não quiser trabalhar não tem direito a comer”. A caridade é ensinada e é o princípio. A responsabilidade é imperiosa. Mas nesta matéria, como noutras, de posições extremadas, requer-se lembrar o preceito latino: sit modus in rebus.

 

N.B.: Este texto estava em revisão quando soube da ocorrência de atentados em nome EI em Paris. No início, mencionava-se outro evento negativo, ocorrido em França, envolvendo muçulmanos. Impunha-se a substituição e a actualização. Porém, o princípio que preside à reflexão mantém-se: a compaixão deve ter como tempero a determinação. Mas nem todos os muçulmanos são EI. Há outros muçulmanos vítimas do EI. Porém, nos dias que correm, a confusão reina e há o risco de deixar de se saber quem é quem. Sobretudo porque a guerra irrompe dos televisores para dentro das nossas casas. O momento é de encruzilhada.

 

 

 

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