A religião cristã entre os ateísmos de “O Estrangeiro”

 

 

                               © João Tomaz Parreira

 

O Estrangeiro, de Albert Camus, romance publicado em plena II Guerra Mundial (Julho de 1942), é um livro sobre a condição humana, do ponto de vista individual.

O manuscrito do romance pretendia aparecer com um subtítulo: O Estrangeiro, ou Um Homem Feliz. A justiça, a indiferença, cada homem ser uma ilha na sociedade, as circunstâncias que fazem as tragédias, a desgraça do drama humano, a alegação de que a vida não vale a pena, a rejeição da transcendência, o assumir que Deus está ausente, seria contudo a sua trama. Há mesmo uma narração na primeira pessoa, lá para o final do livro, que  impressiona “Eu estava agora completamente encostado à parede”, diz o protagonista.

O escritor Camus, resumira em 1955 o seu romance L,Étranger sob  a constatação da angústia da personagem, que está perdida perante a vida, os concidadãos que não entende, o querer ser marginal a todos os rígidos sistemas, usando uma metáfora:  “Na nossa sociedade, todo o homem que não chorar no enterro da mãe corre o risco de ser condenado à morte.

Deste ponto de vista, é um livro que abre linhas de análise sobre a hipocrisia vigente desde sempre na sociedade humana. Das máscaras que um tem que usar para ser aceite na sociedade, contrariamente à singeleza da Verdade e das relações que Cristo ensinou baseadas no Sim, sim! Não, não!

É um livro que inquieta.  Sobretudo porque somos levados a pensar nas formas que pode assumir a inumanidade do homem.

Ora, do ponto de vista cristão, designadamente do cristão evangélico, quanto mais livre o homem quer ser de Deus menos humano é. Observando a  inumanidade no homem, veremos que tem causas que residem no ateísmo, na rejeição de Deus e do domínio do Pecado. E incoerência das incoerências, considerar que existe o Pecado (a existência do mal, o sofrimento das crianças, etc.), sem a existência de Deus, é sem dúvida o absurdo.

É um livro, finalmente, que propõe a sólida realidade da indiferença diante do próprio destino humano, mesmo que se apresente O Estrangeiro como o romance que mostra a imagem da revolta individual de um homem.

MEURSAULT, O INDIFERENTE

Uma indiferença perante a existência, a dos outros e a própria: “Hoje a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”;  “Disse que sim, mas que no fundo me era indiferente”, uma vida que reage apenas ao momento hedónico, um vazio na alma, são, entre outras características, o que faz a personagem principal, Meursault, do romance camusiano. Neste a religião é tratada do mesmo modo, indiferentemente, tomando a justiça dos homens o seu lugar. Existem, no entanto, alguns referentes da religião entre o universo de O Estrangeiro no qual não há lugar para Deus, na armação psicológica do protagonista. Mesmo na narrativa minimalista com que o autor estruturou toda a narrativa, isso se percebe. De facto se Meursault fosse religioso, invocasse a existência de Deus, estivesse submetido ao Seu veredicto e disposto a aceitar Sua misericórdia, o livro não seria honesto, embora o romance seja também sobre a alma da personagem. Essa alma sobre a qual nos debruçamos e nada encontramos – como perorava no tribunal o procurador, dirigindo-se aos jurados, acerca do acusado Meursault, que “por causa do sol” tinha assassinado um árabe na praia.

Dizia que, em boa verdade, eu não tinha alma e que nada de humano, nem um único dos princípios morais que existem no coração dos homens, me era acessível.

Compreende-se assim que, durante todo o elemento tempo do romance, depois da prisão e de esperar pela execução da pena de morte que lhe foi aplicada, pelo tribunal de Argel, a personagem rejeite várias vezes a presença do capelão. “Não tenho nada a dizer-lhe”.

A negação de um confronto com o religioso, com a consciência de não ter a necessidade de  respostas, mas a marcar a precisão de ficar em silêncio, de não ter palavras perante aquilo em que não acredita.

Antes do crime e prisão, os dias de Meursault corriam ao acaso e sob o sol até à ligação da noite, em que as luzes não deixavam de prolongar o “sabor” do verão, do sal e do vidro luminoso do céu sobre o mar. O hedonismo da personagem é em tudo isso mais do que evidente. Diante de tal, Deus é rejeitado porquanto protagonista e autor o querem ausente. O pensamento profundo de Camus e “a sua incurável dilaceração (de alma), embora reconheça a ideia de Deus respeitável, afirma, noutro lugar: “Ele sente que Deus é necessário e que é preciso que exista. Mas ele sabe que Deus não existe nem pode existir.

Para o protagonista do romance, a existência do divino era-lhe indiferente, para o romancista argelino, de expressão francesa, a existência ou não de Deus não era indiferente, fazia parte dos absurdos do mundo.

MEURSAULT PERANTE A RELIGIÃO

No próprio início de todo esse processo judicial até à invisível mas implícita guilhotina, a religião é invocada à personagem do romance, mas como derradeiro recurso ou confronto perante um culpado. As formas da religião, com que Meursault é confrontado pelo juiz de instrução, exibem um juiz e uma punição, mais do que um Salvador.

Bruscamente levantou-se, dirigiu-se com grandes passadas para a extremidade da secretária e abriu uma gaveta. Tirou um crucifixo de prata e, agitando-o no ar, (…) com uma voz completamente diferente, quase trémula, gritou: ‘Conhece-O, conhece-O?’. Respondi: ‘Sim, é claro que o conheço.”

Em todo o caso, estava aberto o caminho para se poder falar de Deus e da capacidade divina de perdoar e de Jesus Cristo.

Esse método de “evangelizar” pertencia, contudo, à ordem das coisas, dentro do universo do juízo criminal e do presídio. Apresentava os julgadores como pessoas ética e moralmente capazes de exercer o papel divino na administração da justiça terrena.

Disse-me então muito depressa e de um modo apaixonado que acreditava em Deus, que nenhum homem era suficientemente culpado para que Deus não lhe perdoasse, mas que para isso, era necessário que o homem, pelo seu arrependimento, se transformasse como que numa criança.

Mas enquanto o juiz brandia o crucifixo diante dos olhos de Meursault, este ia  dizer-lhe, se tivesse podido, “que não valia a pena obstinar-se”. Foi, porém, interrompido com a pergunta “se acreditava em Deus”. Respondeu que não.

Aqui desmorona-se a ponte que ligaria a referência sobre a necessidade de Deus à vida do homem, e deste homem na condição especial de criminoso, de pecador.

Embora o argumentário narrativo a partir deste ponto vá no sentido da rejeição do ateísmo. O juiz asseverou-lhe que “era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que não o queriam ver. A convicção dele era essa e, se um dia duvidasse, a vida deixaria de ter sentido”. O sentido da vida acaba por estar explícito na confissão do Cristianismo. É o instrutor do processo que o garante, ao voltar a exibir “a imagem de Cristo”, no crucifixo, exclamando:

Eu, sou cristão. Peço perdão pelos meus pecados a Este. Como podes não acreditar que Ele sofreu por ti?”

A atitude vital de Camus, as nuances entre o incrédulo e os cristãos que temperam as sombras do seu ateísmo começam neste ponto do seu romance. O que de resto não é novo, nem por acaso no autor. É célebre a Conferência do escritor no Convento dos Dominicanos, em 1948, com o revelador título O Não-Crente e os Cristãos .

No plano de quem não partilha das convicções dos cristãos, mas destes espera algo, é a tónica inicial dessa Exposição de Camus aos frades Dominicanos. Para o autor de O Estrangeiro, o Cristianismo não era “coisa fácil”. Afirmou, entre outras posições de honestidade, que “o cristão tem muitas obrigações, mas que não cabe precisamente a quem as enjeita lembrar a existência delas a quem já as reconheceu. Se alguém pode exigir alguma coisa do cristão é o próprio cristão.

Contudo, o seu pensamento acerca dos cristãos e dos seus deveres é universalista.

Não poderão deixar de se tratar de deveres que é necessário exigir de todos os homens hoje, sejam cristãos ou não sejam.”  Não tendo podido, como disse nessa conferência, aceder à verdade cristã, não pode honestamente afirmar que a mesma é ilusória.

Por isso em O Estrangeiro sente-se a compreensão dos valores cristãos e simpatia para com os dogmas. O Sagrado na sua obra não admite sincretismos, mesmo para um autor-filósofo como Camus, o secularismo não o afasta do EternoDisse-o, de uma forma não romanesca, mas ensaística no seu O Mito de Sísifo: “Eu sei que uma pessoa pode viver neste século e crêr no eterno.

Passados mais de sessenta anos da publicação de O Estrangeiro e dos restantes trabalhos literário-filosóficos, ainda hoje se promovem colóquios sobre o Sagrado na sua obra. Como exemplo, em 2007, no 7º Colóquio Internacional  sobre o escritor, realizado em Poitiers, o tema geral foi Camus et le Sacré (Camus e o Sagrado).

De facto, na obra de Camus há uma base inteiramente racional e materialista, que no fundo aporta a esta assertiva: “Eu creio que dois e dois são quatro (…), e que quatro e quatro são oito.

Todavia existe o outro lado. Existe indubitavelmente um ponto em que Camus concordou, exprimindo-o em O Homem Revoltado de um modo claro: “Ninguém pode desencorajar o apetite da divindade no coração do homem.

Deus é necessário e faz falta que exista, é sem dúvida a síntese do “ateísmo” contraditório de Albert Camus. Mas o escritor afirma “saber” que Deus não existe nem pode existir, sendo esta a síntese do seu pessimismo racionalista, face ao absurdo do mundo.

Contudo, os aspectos fora da norma da religião, continuam a existir diante da personagem de O Estrangeiro. Quando este – o Meursault – parece dar sinais de ter baixado a sua guarda de ateu ou agnóstico, perante o juíz (“Vês, vês! Não é verdade que crês e que te vais confiar a Ele?”), é claro que, uma vez mais, disse que não. As tentativas de uma conversão mais exterior que na alma,  pela persuasão prosélita, para que o peso da justiça humana tenha razão, não faz parte da teologia da Salvação. “C’est fini pour aujourd’hui, monsieur l’Antéchrist.” – acaba por concluir, cordial mas desanimado, o instrutor do processo (“Por hoje acabou, sr. Anti-Cristo”).

A personagem de Camus, em O Estrangeiro, é o anti-cristo, numa recorrência que faz jus às preferências do escritor pelo filósofo  Nietzsche e às suas reflexões sobre este. Ainda assim não procurou ser o mentor ou o porta-voz de uma geração que vivia já no vazio deixado pela alegada “morte de Deus”. No que concerne ao Cristianismo, Albert Camus jamais lhe fechou as portas. Embora na sua estruturação do mesmo, o escritor tenha usado os materiais mais da história que da teologia. As próprias janelas que abriu, dirigem-se sobretudo para o sacrifício expiatório e cruento de Jesus Cristo.

Acerca do Salvador considera o “grande gesto heróico do seu sacrifício”, e escreve em O Homem Revoltado que “Cristo veio resolver dois problemas principais, o mal e a morte, os quais são precisamente os problemas dos revoltados. A solução consistiu em os tomar a seu cargo”. E nesta afirmação mais do domínio da opinião (doxa), que do conhecimento (epistéme), Camus é redutor. Jesus Cristo resolveu, de facto, os problemas da morte e do mal, vencendo ambos na Cruz, mas sobretudo veio resolver a relação da criatura humana com o Pai Celestial. Veio para tornar os crentes filhos de Deus.

Camus teve sempre, na sua obra lírica ou raciocinante, um diferendo aberto com o mal na perspectiva de questionar se este era necessário à criação divina – se era assim, escreveu ele, “então a criação é inaceitável”. O que a Bíblia Sagrada e a teologia cristã nos mostram é que Deus não criou o mal, obviamente.

Visto de outro ângulo, Camus vê o sacrifício de Jesus pela humanidade baseado num princípio de injustiça.  “O cristianismo na sua essência e sua paradoxal grandeza é uma doutrina da injustiça, está fundado sobre o sacrifício do inocente e a aceitação desse sacrifício!” – escreve nos seus Cadernos. O sacrifício do Filho de Deus, como o próprio Deus, não pode ser submetido ao julgamento moral do homem.

Ao contrário da sua personagem principal (Meursault, no romance O Estrangeiro) Camus questiona Deus, coloca-O em julgamento, mas igualmente como ela  escolhe viver sem a ajuda sobrenatural de Deus. Por isso,  foi um escritor malogrado, sem futuro. Morreu aos 47 anos e a sua obra substituiu-o.

MEURSAULT E O ELEMENTO MATRIARCAL

Por fim, se a segunda parte do romance é a história de um processo em que tudo parecia ser verdade, do lado da acusação, e nada era verdade quanto ao retrato que se fazia da personagem acusada ( Voilà l’image de ce proces. Tout est vrai et rien n’est vrai. – exclamou o advogado de defesa: “Eis aqui a imagem deste processo. Tudo é verdade e nada é verdade”), já a primeira parte sendo o desenrolar do quotidiano de um indiferente, é também o retrato de um homem no qual o elemento matriarcal acaba por se revelar do inconsciente religioso. Designadamente no que concerne ao respeito carinhoso pela sua progenitora.

Em outro romance, O Primeiro Homem, já publicado postumamente, o escritor traz ao nosso convívio cultural um aspecto tradicional das regiões do Norte de África, a tradição de que era intolerável um insulto à mãe. “O insulto à mãe e aos mortos constituíra desde sempre o mais grave nas costas do Mediterrâneo”.

Com efeito, eis um pormenor que pode parecer irrelevante, no início de O Estrangeiro,  mas que confere ao leitor indícios de que, apesar de tudo, vai estar diante de alguma afectividade e alguma piedade demonstrativas de humanidade. Camus sublinha a sensibilidade filial, ao escolher cuidadosamente as expressões do seu protagonista, que se refere à sua mãe como maman: “Aujourd’hui, maman est morte”. É assim que começa o romance, originalmente.  Meursault não é de todo a personagem fria e neutral, nem uma pedra nem um poço de insensibilidade. E só a centelha do divino que existe na criatura humana pode operar este milagre de perfuração da mais densa e poderosa pedra, de clarear a mais profunda e espessa sombra, mesmo que não se deseja ouvir falar de Deus, como era o seu caso, para poder ficar “tranquilo”.

É sabido que o elemento matriarcal em todas as sociedades é um referente religioso. Apesar de todas as aparências e críticas sociais, Meursault é o homem do séc. XX, e sobretudo dos nossos dias neste novo século, o homem que ama a mãe, o pai, os progenitores, mas que afirma não ter tempo nem meios sociais no reduto do lar, leia-se família, para sustentar esse amor. Daí os lares de terceira-idade, não poucas vezes meros depósitos como aquele em Marengo, onde estava a mãe de Meursault.

 

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