O cavaleiro da resignação – Paulo, a doença e a cultura

 

 

João Tomaz Parreira ©

 

“O meu viver é Cristo”, que o apóstolo asseverou com a segurança do seu verbo aos filipenses, nunca faria de Paulo um anacoreta. Esta afirmação é fruto de uma personalidade despojada, sim, mas vitoriosa em Cristo, reduzindo a morte a um ganho.

O judaísmo pré-ultra ortodoxo em que viveu, esse sim, faria de Saulo um monge público, com intervenção dramatizada na sociedade judaica dos seus dias. Conhecemos a sua intervenção no apedrejamento do diácono Estevão.

Para que tal não sucedesse e a história do Cristianismo mudasse do vector exclusivista judeu para a universalidade, Saulo de Tarso foi alcançado por Cristo na estrada de Damasco.

Mas a sua mensagem escatológica às Nações, depois da preparação evangélica curiosamente aos pés de um desconhecido Ananias (mais tarde Ananias de Damasco, segundo a tradição), não tornou Paulo num fanático do Cristianismo, muito menos de Cristo – porque o primeiro erro do fanatismo são os olhos fechados sobre o presente e o futuro, mas Paulo conheceu o equilíbrio entre o presente e a escatologia.

A sua vida terrena passou-se entre a esperança e as certezas em Cristo, a tribulação e a doença, as algemas e a cultura, a cultura literária também, fosse ela o que fosse a partir dos autores gregos.

Naturalmente que a sua pregação escrita, o seu kerygma escrito, anunciava a ressurreição de Cristo e a sua vinda gloriosa e propunha as doutrinas naturalmente ligadas à escatologia, a ressurreição dos cristãos, a ressurreição geral e o juízo final – matérias perfeitamente escatológicas.

Paulo na sua pregação evangélica não podia esquecer o mundo em que vivia, o mundo cultural e religioso helénico. Escritores cristãos já observaram que na grande capital que foi Corinto, a florescente e depravada Corinto, foi aqui que se deu o choque entre a mensagem escatológica cristã e a cultura e o pensamento religioso dos Gregos, a tal ponto que “em nenhuma outra parte o seu génio (de Paulo) deu medida da sua grandeza, capaz de transformar em árvore universal a planta do cristianismo palestinense” (citação de que perdi a origem).

“De Paulo surgiu o cristianismo gentílico”, escreve com igual assertividade o eminente historiador literário Harold Bloom, incluindo-o entre os poetas Virgílio e Dante. E nem o gume da História da Religião (a Contra-Reforma, e.g.) dos séculos posteriores ao apóstolo, o puderam cortar do seu lugar de destaque do Cristianismo bíblico, não só como Religião, mas também Cultura – cultura ocidental e cultura da teologia cristã. No que concerne à história sagrada, o lugar de Paulo seria injusto e ingrato colocá-lo isoladamente como tendo surgido do nada. F.F.Bruce, por exemplo, no seu comentário ao Livro dos Actos diz que deve haver “a gratidão de todos os que, de uma forma ou de outra, experimentaram a graça que flui da vida e obra do grande apóstolo.” Relacionando essa graça com Ananias, o qual deve ter também um lugar de honra nessa história.

“O Cavaleiro da Resignação”

É uma figura do século XIX, usada por Kierkegaard em “Temor e Tremor” acerca de Abraão. Significa aquele que é capaz de conviver com a dor por uma grande causa. E tal grande causa é o que se pode alcançar pela Fé.

É uma resignação ao e no combate da Fé. O mesmo filósofo do existencialismo cristão junta àquela figura outra, “o cavaleiro da Fé”. Abraão, mas o apóstolo Paulo foi igual. Numa das suas quatro cartas da prisão, aos Filipenses escreve (1, 12-14):

12 E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho. 

13 De maneira que as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana e por todos os demais lugares; 

14 e muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor” (Bíblia ARC)

Deixem-me usar aqui uma figura literária universal como Hamlet. Este usou a liberdade e a sua realeza para estar preso a maior parte do tempo da sua vida no castelo de Elsenor, com o pensamento contínuo da vingança, dominado pelas incertezas da sua actuação perante o Mal, com obsessão pelo luto e a Morte, dúbio na luta entre o espírito e a carne, que o levou a declarar contra si próprio, embora rejeitando, biblicamente, o suicídio:

“Oh! Pudesse eu livrar-me desta deusa carne em que nasci! / Pudesse ela fundir-se, solver-se em um orvalho / Não fora o mandamento do Eterno” (Hamlet, Colecção Clássicos, Presença, 1973, pág. 36)

Mas nesta autocrítica, com palavras poéticas e encenação dramática teatral, por parte do Hamlet, na pena de Shakespeare, pode-se reconhecer a influência que por ventura terá tido doutra frase, bíblica, profunda, de autocrítica do espírito sobre a carne, como era a marca do Apóstolo Paulo:

 “19 Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. 24 Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (Rom.7)

O que Paulo sabia e suportava era proveniente do facto de poder contemplar, espiritualmente, com a face a descoberto, a glória que brilha sobre a face de Cristo.

 

 

 

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