A tabuada estrambólica de Deus

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David Raimundo

A matemática do sermão do monte, das parábolas e do próprio percurso de Jesus não está de todo afinada com o pragmatismo a que obrigam a economia global e o darwinismo social. Num mundo de competição à escala global parece inconcebível dar a outra face, impossível amar os inimigos, parvoíce ajuntar tesouros no céu, loucura não nos preocuparmos com o que iremos comer ou vestir, ilógico aceitar ser o último para ser o primeiro…

Tem piada tentarmos imaginar Jesus a apresentar o seu modelo económico numa reunião do Eurogrupo ou do FMI. É certo que seria de imediato tido como um lírico ou lunático e as suas palavras seriam desprezadas. A complexa máquina financeira dos nossos dias não se compadece com um caminho que valoriza mais corações ricos do que saldos bancários compridos. (Tenho cá para mim que esta máquina é o monstro do nosso século: o monstro que criámos, cheios de ilusão, mas que passou a dominar o criador sugando tudo quanto pode. O homem é, hoje, escravo do monstro…)

Também eu hesito ao ouvir a mensagem do mestre nazareno. Também eu estou possuído pelo espírito de competição feroz, aquele que o Donald Miller tão bem descreve no seu livro Searching For God Knows What – diz ele que é como se o mundo fosse um bote salva-vidas em que todos estão com medo de ser lançados borda fora, pelo que todos vivemos obcecados em mostrar que merecemos o lugar e que o outro é mais dispensável.

Também eu tenho a retina ferida pelo pragmatismo gélido. Ele está enraizado no globo ocular e é-me extremamente difícil ver as verdadeiras matizes do mundo e do outro. Talvez fosse este o problema dos cristãos de Laodiceia (Apocalipse 3:14-22) e, por isso, tenham sido exortados a comprar remédio para os olhos de modo a poderem ver a realidade como ela é. Também eu preciso desse remédio.

Encontro-o em Jesus. De Jesus não herdamos apenas palavras. Dele bebemos as palavras, mas também (quem nele deposita a fé e a esperança) aprendemos e somos profundamente transformados pelo facto de ele ter sido a encarnação das suas próprias palavras. Parece-me que esta compreensão é absolutamente central para a fé cristã: Jesus e a sua mensagem são um. Os Evangelhos contam-nos que tudo quanto pregou ele demonstrou. Deu vida às suas palavras até às últimas consequências. Deu vida à sua mensagem até ao ponto de morrer em sintonia com essa mesma mensagem.

Assim, Jesus mostrou-nos o caminho, o tal caminho a que o Henri Nouwen chama o ‘caminho descendente’ de Cristo. E Jesus convida-nos para palmilhar esse caminho prometendo que é o caminho mais excelente.

A Europa depara-se com uma situação de crise humanitária. A situação é extremamente complexa e delicada e não pretendo sugerir que há soluções fáceis. Mas o que é certo é que urge dar resposta às multidões de refugiados que procuram segurança e uma nova vida no velho continente. Urge criar políticas para que estas pessoas sejam recebidas nos nossos países e condições para que neles vejam resgatada a sua dignididade humana.

O pragmatismo do ego conduz-nos a uma matemática demasiado redutora: diz-nos que não podemos aceitar que os nossos filhos tenham menos para que o outro – ainda por cima, estrangeiro, estranho, desconhecido – tenha mais. Mas a estrambólica tabuada de Deus diz-nos que podemos. É que, no fundo, a doutrina cristã afirma precisamente que Deus aceitou que o seu Filho tivesse menos. Aceitou que o seu Filho fosse desprezado e abandonado pelos homens, alguém para o qual se evita olhar, tratado sem nenhuma consideração. Aceitou tudo isto para que o outro (que, por acaso, sou eu e tu) tenha mais. Talvez possamos imitar Deus e fazer uso da sua tabuada que fica bem vísivel no princípio basilar do cristianismo: o corpo de Jesus, mutilado, torturado e desfigurado, foi partido por nós. Como memorial perene desse acontecimento central da história,partimos o pão nas nossas comunidades, nas nossas reuniões, cultos ou missas. Comungamos. Compartilhamos. E neste pão, que é partido e repartido por nós, temos mais.

Repartimos e temos mais vida.
Repartimos e temos mais humanidade.
Repartimos e enriquecemos.

E saímos das nossas reuniões dominicais para continuar a aplicar o mesmo princípio semanalmente: partimos o pão e damo-lo diariamente ao outro. O pão, a roupa, o tempo, o ouvido, o abraço… O Rui Vieira foi o primeiro de quem ouvi que alimentar o faminto, vestir o nú, cuidar dos necessitados, doar tempo ou dinheiro, é também tomar a ceia (expressão tão querida para os evangélicos). Concordo tanto!…  E Também nestas coisas funciona a tabuada de Deus.

Doamos e temos mais vida.
Doamos e temos mais humanidade.
Doamos e enriquecemos.

Na Europa reina hoje uma cosmovisão carregada de ironia. Ela orgulha-se dos seus valores humanistas e da vanguarda na luta pelos Direitos Humanos, mas rejeita a matriz judaico-cristã de onde brotaram esses valores (a relação direta entre a mensagem cristã e a moderna noção de direitos humanos parece-me uma tese muito defensável). Mas talvez o continente dos cristãos não praticantes e dos cristãos feitos ateus possa agora inscrever na história, neste momento de crise, um bonito capítulo. Um capítulo à imagem e semelhança de Cristo.

Assim oro. E que a Igreja esteja na linha da frente a demonstrar como se faz a tabuada! Não a do ratinho, mas a outra, aquela estrambólica que Deus usa.

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. 

Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 

E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. 

Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. 

Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? 

Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”

Mateus 25:34-46

 

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