A supremacia e o carácter subversivo do amor no Novo Testamento

Paulo Brabo

No Novo Tes­ta­mento a lógica do sexo como ritual de dominação é menos explícita, mas permanece sendo impor­tante substrato (uma daquelas rea­li­da­des sociais tão unânimes que per­ma­ne­cem ocultas, subindo poucas vezes à super­fí­cie da cons­ci­ên­cia ou do discurso) todas as vezes que o assunto é men­ci­o­nado ou aludido. A questão é na verdade de impor­tân­cia fun­da­men­tal para os autores do Novo Tes­ta­mento, porque a mensagem de Jesus e sua boa nova são inter­pre­ta­das por eles como repre­sen­tando um chamado universal ao abandono dos meca­nis­mos de controle e mani­pu­la­ção que compõem o sistema deste mundo.

Muito acu­ra­da­mente, portanto, os autores do Novo Tes­ta­mento enten­de­ram que a implan­ta­ção do reino de Deus, conforme apregoado pelo filho do car­pin­teiro, repre­sen­tava uma ameaça a todos os sistemas de controle, porque requeria essen­ci­al­mente um mundo de pares e irmãos, uma fra­ter­ni­dade de “próximos” – um mundo que renun­ci­asse a todas as formas de dominação. Isso eles viram cla­ra­mente na pessoa do Jesus dos evan­ge­lhos, e cada um à sua maneira e com sua própria ênfase buscou uma forma de articular e de perseguir esse projeto. Ninguém sabia (ninguém ainda sabe) como seria um mundo livre de sistemas de mani­pu­la­ção, mas nas décadas febris que se seguiram à despedida do cru­ci­fi­cado seus segui­do­res não sonharam e não bata­lha­ram por outra coisa. A única coisa que sabiam ao certo é esse novo mundo seria encon­trado, colo­ni­zado e definido pelo amor – o amor como haviam-no delineado a vida e as palavras do rabi de Nazaré, o amor com o qual ele os deixara abso­lu­ta­mente inflamados.

E nada permanece o mesmo depois de ser tocado pelo amor. A revolução do reino teria que virar o mundo do avesso, sem poupar qualquer área da cultura e do com­por­ta­mento; incluiria por certo a esfera da sexu­a­li­dade. E as indi­ca­ções dadas por Jesus com relação ao assunto eram tão exigentes, sua descrição e aplicação do amor tão sub­ver­si­vas, que só restava em todos uma espécie de perplexidade.

Havia, por exemplo, a postura de Jesus com relação à sua própria sexualidade.

Se Jesus não foi casado (e temos pouca razão para crer que tenha sido), sua subversão começava por aqui. Numa sociedade como a sua, per­ma­ne­cer solteiro era uma insu­bor­di­na­ção raríssima e sempre volun­tá­ria, e também por isso pro­fun­da­mente cons­tran­ge­dora. No judaísmo o celibato não era (e não é) exigido de sacer­do­tes, de santos ou de profetas; ao contrário, esperava-se de todos os judeus que se casassem, mas espe­ci­al­mente dos grandes e admi­rá­veis. Para um homem, casar era uma demons­tra­ção basilar de mas­cu­li­ni­dade e portanto de valor; alguém que se dis­pu­sesse seri­a­mente a candidatar-se ao cargo de rei e messias não se arris­ca­ria a deixar de cumprir esse mais fun­da­men­tal dos requisitos.

Mantendo-se solteiro, Jesus recusou-se a endossar todo esse modo de ver as coisas. Como parte de seu projeto de demolir as formas esta­be­le­ci­das de dominação, ele volun­ta­ri­a­mente negou-se a assumir (e portando aprovar) o modelo do grande macho dominante. O valor de um homem, conforme indicado pela sua postura, deixava de estar fixado na uni­ver­sal­mente aprovada posição de provedor e de repro­du­tor. O rabi de Nazaré, pelo que sabemos, não se repro­du­ziu das formas usuais, e seu sustento era provido por mulheres.

E esse último pode não ter sido o com­po­nente mais soci­al­mente escan­da­loso da maneira como Jesus se rela­ci­o­nava com as mulheres. Pro­va­vel­mente nenhum outro per­so­na­gem da anti­gui­dade, na história ou na ficção, sentiu-se tão à vontade entre elas. Naquela sociedade um homem não con­ver­sava com mulheres em público, um rabi não permitia que se juntassem ao seu grupo, um homem santo não deixava que elas o tocassem. Jesus fazia indis­cri­mi­na­da­mente esse tipo de coisas, tratando mulheres como se fossem gente milênios antes que a ideia ganhasse qualquer popu­la­ri­dade – e se alguém chegou a lhe dizer que isso colocava em dúvida a sua auto­ri­dade ou sua mas­cu­li­ni­dade, só pode ter levado um for­mi­dá­vel chega-pra-lá.

Outra área em que Jesus trabalhou de modo a minar a ideologia da supre­ma­cia do macho foi na questão do divórcio. Não sabemos como fun­ci­o­na­vam exa­ta­mente as coisas no tempo dele, mas há indi­ca­ções de que um homem podia pedir o divórcio – deixando a mulher desam­pa­rada pelo menos tem­po­ra­ri­a­mente e mar­gi­na­li­zada para sempre – pelo mais banal dos motivos, e que a mulher não tinha autonomia para pedir o divórcio mesmo para proteger-se de um rela­ci­o­na­mento tóxico ou abusivo. Como se sabe, Jesus insistiu que as coisas não eram tão simples assim, e tomou o “serão um só corpo” do Gênesis como repre­sen­tando um com­pro­misso de manu­ten­ção de bene­fí­cios para ambas as partes, não só uma delas. Naquele contexto cultural, divorciar era desam­pa­rar, e quem ama não desampara.

Ao proteger a mulher apanhada em adultério de seus algozes mas­cu­li­nos, Jesus chegou a rela­ti­vi­zar a própria letra da Lei, argu­men­tando basi­ca­mente que a uni­ver­sa­li­dade do pecado deveria produzir não uma demanda universal por uma justiça estrita que ninguém é capaz de honrar, mas uma postura universal de mise­ri­cór­dia – lição que apren­de­mos a esquecer tão logo foi pro­nun­ci­ada.

Numa palavra, Jesus promulgou a supre­ma­cia do amor: apenas o amor deve e pode ser usado como bússola em todos os rela­ci­o­na­men­tos inter­pes­so­ais. Todas as formas de dominação devem cair por terra diante desse regime de graça e aceitação, porque “o maior passa a ser quem serve”, e “não há maior amor do que dar a vida pelos amigos”. Num mundo onde todos são irmãos, toda gene­ro­si­dade é gratuita; a boa vontade não precisa ser extor­quida pelos métodos usuais de dominação e temor, desejo e recompensa.

O amor mudava tudo, e foi desse modo que os dis­cí­pu­los enten­de­ram a coisa. Paulo apresenta uma visão do casamento que, embora por vezes nos pareça ter­ri­vel­mente retró­grada e patri­ar­cal, virava de cabeça para baixo todas as expec­ta­ti­vas de seu público de barbudos pouco sofis­ti­ca­dos. Para ele, o marido deve amar a esposa como Cristo amou sua igreja, ao ponto de entregar-se por ela. Ouvida ao longo de dois mil anos, a coisa não tem como não soar como ino­fen­sivo lugar-comum, mas deve ter parecido sub­ver­siva ao ponto da ofensa para os ouvidos originais.

Para Paulo a visão tra­di­ci­o­nal do casamento deve mudar porque ele, mais do que ninguém, entende a boa nova como anúncio da derrocada de todas as formas de dominação que carac­te­ri­zam o reino deste mundo e levantam barreiras arti­fi­ci­ais entre as pessoas. Em Jesus não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, (e agora ele abandona o terreno do lugar-comum mesmo nos nossos dias) nem homem nem mulher.

Essa é uma postura delicada, espe­ci­al­mente porque Paulo não entende que essa nova paridade deve mudar de imediato os papéis con­ven­ci­o­nais dos agentes dentro das ins­ti­tui­ções deste mundo. Ele não hesita em chamar o homem de “cabeça” da mulher, e não tem nada a dizer contra a escra­va­tura em si. Mas ao mesmo tempo insiste que devemos agir como se essas barreiras formais não exis­tis­sem1: o marido deve demons­trar seu amor entregando-se pela esposa, e a relação entre escravo e senhor deve ser como a de irmãos. Essas soluções podem nos parecer insu­fi­ci­en­tes, e talvez de fato sejam, mas não era menos que revo­lu­ci­o­ná­rias quando foram proferidas.

Impor­tante é entender que, ao contrário do que alguns chegaram a concluir, a posição de Paulo sobre o casamento não desau­to­riza o sexo, mas abso­lu­ta­mente desau­to­riza – como pre­va­le­cia no sistema anterior – qualquer uso do sexo como ilus­tra­ção de dominação. É por isso que, embora endosse a hie­rar­quia clássica de supre­ma­cia masculina quando fala de outras áreas do casamento, quando fala de sexo ele usa imagens que evocam paridade e reci­pro­ci­dade, nunca supre­ma­cia. “Os maridos devem amar as mulheres como a seus próprios corpos”, “quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo” e “a mulher não tem auto­ri­dade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido; e o marido não tem auto­ri­dade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher”. O centro do universo conjugal transferia-se dos tes­tí­cu­los para um ponto inde­ter­mi­nado (ou para o encontro) entre o corpo do marido e o da esposa.

Não é incon­ce­bí­vel, portanto, que a chave para com­pre­en­são do caráter dis­tin­tivo da sexu­a­li­dade cristã em seus primeiros séculos esteja em que nenhum autor do Novo Tes­ta­mento – e por certo nenhum de seus leitores depois deles – conseguia conceber um mundo em que as relações sexuais não fossem relações esti­li­za­das de poder e portanto emblemas de formas ile­gí­ti­mas de dominação. Não tinham como conceber que o sexo não repre­sen­tasse um rito de dese­qui­lí­brio e portanto de desi­gual­dade, intei­ra­mente degra­dante para a parte “dominada” ou “possuída”. Paulo tentou reformar essa visão dentro do casamento – o único espaço social em que o sexo é ine­vi­tá­vel, – mas ele mesmo continuou considerando-a válida em todos os outros espaços.

Isso pode ajudar a explicar o mistério da obsessão cristã com o celibato e com a abs­ti­nên­cia, posturas que não tinham pre­ce­dente dentro do judaísmo e surgiram muito cedo na cultura da igreja (nos apócrifos Atos de Paulo, do segundo século, e nos Atos de Tomé, do terceiro, os apóstolos aparecem exigindo castidade total mesmo dentro do casamento). Alguns supõem que essa paixão pela abs­ti­nên­cia tenha se originado de uma visão do sexo como animal no sentido de des­con­tro­lado e sensual, e portanto ine­ren­te­mente impuro e anti­es­pi­ri­tual. Porém a cultura judaica pré-cristã, que não pode ser acusada de ignorar questões de pureza e não negava que o sexo tem um forte com­po­nente animal/sensual, por vezes incen­ti­vava até mesmo o sexo recre­a­tivo, isto é, não-reprodutivo, dentro do casamento (e por vezes fora dele).

O motivo parece residir em que os primeiros cristãos adotaram muito cedo (ou capturaram-na ime­di­a­ta­mente da atmosfera cultural) uma visão do sexo como animal no sentido de brutal, lesivo e opressor. Num mundo de iguais, em que “não há homem nem mulher”, não se encon­trava espaço para uma prática como o sexo, que cria-se por natureza celebrar e ilustrar a desi­gual­dade2. Esse resvalar num dese­qui­lí­brio que separa ao invés de unir talvez seja o que o apóstolo entendia como repre­sen­tando a grande tentação “da carne”.

Essa mesma chave pode ainda explicar o que Paulo encontra de par­ti­cu­lar­mente abo­mi­ná­vel nas relações homos­se­xu­ais, cujos par­ti­ci­pan­tes têm “seus corpos deson­ra­dos entre si”, “cometendo torpeza” e “recebendo em si mesmos a devida recom­pensa do seu erro”. Embora tenha desen­vol­vido uma visão igua­li­tá­ria do sexo dentro do casamento, aqui ele reflete a mesma visão “sexo como defrau­da­ção” que orientava as legis­la­ções do Pen­ta­teuco. Não se trata meramente de uma prática sexual fora do âmbito do casamento (como, digamos, o adultério) ou fora do con­ven­ci­o­nal (como, digamos, o sexo de um homem com sua sogra). Sua descrição da trans­gres­são e das suas impli­ca­ções serve apenas para pontuar que para ele a conduta homos­se­xual deve ser vista como espe­ci­al­mente con­de­ná­vel porque repre­senta uma relação “desigual” (carac­te­ri­zada neces­sa­ri­a­mente por um agente de dominação e outro de submissão) entre “iguais”. Como todas fora do casamento, uma relação sexual nesses termos não tinha como não ser degra­dante para uma das partes, e portanto intei­ra­mente con­de­ná­vel para ambas – mas ele acredita o bastante no ideal da honra do macho para con­si­de­rar o leito homos­se­xual par­ti­cu­lar­mente repulsivo.

Para resumir: a partir das indi­ca­ções e da postura de Jesus, os autores do Novo Tes­ta­mento tra­ba­lha­ram de modo a [1] esta­be­le­cer os fun­da­men­tos de um status igua­li­tá­rio para a mulher dentro do casamento e na sociedade como um todo e [2] desau­to­ri­zar qualquer uso do sexo como ritual de dominação (uso que, pelo menos dentro do casamento, o Antigo Tes­ta­mento taci­ta­mente incentivava).

Uma das con­sequên­cias não pla­ne­ja­das dessas ênfases foi uma pre­o­cu­pa­ção muito arraigada e muito popular, desde os primeiros séculos do cris­ti­a­nismo, com as ideias de celibato e de abs­ti­nên­cia. Essa pre­o­cu­pa­ção requereu a pública trans­fi­gu­ra­ção da abran­gên­cia da palavra “casto”. A castidade, ideia que se reservava como virtude para as virgens abs­ti­nen­tes e para os casados que se pre­ser­va­vam de excessos e de contatos extra­ma­ri­tais, encontrou brecha para deitar-se no leito matri­mo­nial e separar os mais apai­xo­na­dos dos cônjuges3.

NOTAS

  1. Os que têm mulher sejam como se não a tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que folgam, como se não folgassem; os que compram, como se não pos­suís­sem; e os que usam deste mundo, como se dele não usassem em absoluto, porque a aparência deste mundo passa (1 Coríntios 7:29-31). [↩]
  2. Natu­ral­mente a abs­ti­nên­cia é ela mesmo uma prática sexual e pode ser usada como emblema de poder. As virgens souberam-no nos primeiros séculos do cris­ti­a­nismo e os padres sabem-no ainda hoje, mas essa é outra história – uma história inte­res­san­tís­sima, mas outra história. [↩]
  3. Uma das imagens recor­ren­tes nos Atos apócrifos dos apóstolos é a de maridos que se levantam em insur­rei­ção contra os apóstolos, acusando-os (com justiça, dentro da narrativa) de seduzir suas esposas à castidade. [↩]

Fonte: A Bacia das Almas.

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