Teologia, Literatura e Semiótica na parábola do Pródigo

 

 

© João Tomaz Parreira

 

 

“Certo homem tinha dois filhos” – o início da parábola referida em Lucas (15, 11-32) – é o mundo real projectado num mundo imaginário, narrado  teológica e socialmente.   É do domínio geral que uma  parábola, no grego parabolê,  “a justaposição de duas coisas”, é essa projecção para que possamos entender uma realidade.

Toda a narrativa chamada a Parábola do Filho Pródigo contém literatura e dentro desta semiótica – símbolos, tipologias, signos. Por exemplo, a herança, a melhor roupa, sandálias, o anel, o bezerro cevado, o próprio irmão mais velho.  Mas, sobretudo pela referência que a voz de Lucas faz do autor que  narra a parábola ( “E [Jesus] disse:” ) tem, desde o início, teologia.

É um texto figurativo, que constrói um simulacro da realidade. É, também, literariamente, um texto plural porque figuram nele vários aspectos, a partir de leituras diferentes que não colocam em causa a inspiração evangélica.

A leitura religiosa, a leitura socio-económica e a leitura psicológica.

 

A leitura religiosa

A teologia da parábola não é mais judaica, por causa de alguns elementos, e menos cristã, ou se quisermos do ponto de vista religioso não é nem uma coisa nem outra, é antes pura teologia. Porque é estrictamente do foro da relação de Deus, na figura de Pai,  com o Homem perdido por causa da Queda adâmica.

É teologia evangélica, na acepção do termo que Karl Barth popularizou.

Interpretando o pai como sendo Deus, estabelece a universalidade do que é necessário ao homem, o retorno a Deus dessa “terra longínqua” que é a existência sem Deus, ou, como alguém escreveu, sem a presença de Deus na vida.

Figurativamente, particulariza também um dos temas cruciais da doutrina bíblica da Salvação, que se designa por Soteriologia. É a questão do arrependimento (a metanoia, no grego).  Vai mais longe, ao atribuir ao estado de arrependimento, a predeterminação psicológica para o mesmo, o “cair em si”,  com a memória do bem-estar que perdeu, da relação íntima e intrínseca com o pai.

O monólogo do Pródigo, e vou ater-me nele apenas, traduz esta realidade: “Na casa de meu pai, até os trabalhadores têm comida em abundância e afinal eu aqui estou a morrer de fome! Vou voltar para o meu pai ” (1)

A esta vontade de regresso não se pode chamar utilitária nem egoística, foi, sobretudo, uma rendição espiritual e com reconhecimento pelo seu estado: “e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante ti” (2)

Temos aqui, numa leitura literária e religiosa, um dos grandes ainda que breves monólogos do espírito humano em estado de necessidade diante de Deus.

 

A leitura socio-económica

Pode parecer estranha uma leitura deste teor, mas a verdade é que a beleza e a profundidade desta parábola, a contém. Manifesta-se, em primeiro lugar, na ambição do filho pródigo exigir  “já” materializada  a parte correspondente da herança;  nos aspectos financeiro e social,  a posse dessa herança, dar-lhe-ia a independência e o ser livre da casa paterna. Em segundo lugar, manifesta-se no desastre económico. A sua irresponsabilidade administrativa e financeira revelou-se no facto de ter desperdiçado toda a herança.  Foi perdulário, “desperdiçou o dinheiro em pândegas e na má vida”.

A tradução de A Bíblia para Hoje – o Livro, diz, de um modo directo e crú, que o dinheiro acabou e que começou a padecer necessidades. A juntar-se à prodigalidade desbragada, veio uma calamidade à terra distante onde se encontrava, a fome. Nem sempre a fome é resultante de meios naturais, por vezes é fruto de más políticas e de opções socio-económicas erradas. Neste contexto, o Pródigo chegou ao grau zero da subsistência, passou a linha vermelha da miséria, caiu na mendicância depois de ter uma considerável fortuna.

A narrativa evangélica vai ao ponto da tragédia afirmando que ele “desejava encher o estômago com as bolotas que os porcos comiam”, a figuração desta diegese deixa claro que se alimentava dessas bolotas, porque não lograva arranjar mais nada.

 

A leitura psicológica

Por fim, apresenta o retrato trágico do jovem: perdido, qualificado como  “morto”. Este sintagma produz dentro da frase um forte efeito dramático: “ este meu filho estava morto e reviveu”, quando do final feliz da parábola.

A diegese de Jesus Cristo não pretendeu dourar as cores para lhe dar um aspecto romântico, numa leitura psicológica vemos um jovem, não tão adolescente como algumas hermenêuticas e abordagens literárias querem fazer crer que era, era “o filho mais novo” que, agora independente do pai, numa terra longínqua, chega à devassidão, desperdiçando a herança com as meretrizes.

Finalmente, do ponto de vista estrictamente teológico, usando no entanto os instrumentos da crítica literária, encontramos uma semântica que opõe dois princípios fundamentais, em que se constrói o sentido último da mensagem evangélica da Parábola,  o homem querer a independência de Deus e a seguir ficar na dependência do mundo, dos falsos valores, da imoralidade, do pecado, que geram pobreza espiritual.  Duas oposições semânticas que ajudam a entender a experiência humana diante de Deus.

A Queda do Humanidade e a Redenção,  estão substantivamente na Parábola do Filho Pródigo. Em primeiro lugar a teologia, depois a semiótica e a semântica que nos abrem todas as demais perspectivas de análise.  Por muito que alguns ortodoxos digam o contrário, a Parábola do Pródigo é Literatura, sublime.

 

(1) OL, pág 1244.     (2) Bíblia Anotada, de Scofield.

 

 

 

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