O apóstolo Paulo e “O Paraíso Perdido” de John Milton

 

      

© João Tomaz Parreira

“Um só homem, Adão, trouxe a morte a muitos (…) Mas também um só homem, Jesus Cristo, trouxe o perdão a muita gente”  Rom 5,15 (ABPH)

 

O apóstolo Paulo demonstrou uma coragem que só a inspiração divina confere, ao escrever na Carta aos Romanos a chamada doutrina dos “dois homens”.

Que acto de coragem, pois, o apóstolo deixou nos finais do século primeiro, para um cristianismo  que se rendia ao gnosticismo, ao afirmar: “Porque, pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só muitos se tornaram justos.” (Rom 5,19, BS, anotada de Scofield)

O apóstolo centrou a questão do pecado original, da possibilidade de remissão universal dos pecadores  na história humana,  entre dois Homens, Adão e o Segundo Adão ou o antítipo de Adão – como a teologia do NT costuma designar – Jesus Cristo.

Dois homens de carne (“façamos o homem” e “o Verbo se fez carne”), contra os gnósticos e docéticos dos séculos I e II.  Jesus Cristo não parecia um homem, era perfeito homem, sem pecado; assim como Adão foi um homem. Foram homens de carne e osso, com sangue nas veias. O próprio Senhor Jesus Cristo, enquanto habitando entre nós, até à Sua ressurreição possuía um Sôma Psukhikon –corpo carnal- para usar a expressão grega da Carta aos Coríntios.

Deste modo, na profundíssima e importantíssima secção do cap. 5 da Carta aos Romanos pode-se contrastar  Adão e Cristo como duas personalidades colectivas ou expoentes,  na sua relação com a família humana.

Perante este contraste, poderíamos até utilizar um lugar-comum actual como “choque de civilizações”. Embora salvaguardando que esta proposta elaborada por Samuel Huntington  em 1993 explica os conflitos sociais e culturais presenciados hoje no mundo,  não deixa de poder aproveitar-se para a história do período bíblico do pós-Queda no Génesis.   A propósito dos Setistas (oriundos de Set, terceiro filho de Adão, distinguidos pela sua piedade) e o Cainitas. Os que “andavam com Deus”, os verdadeiros adoradores de Deus,  que tinham uma ética e uma moral religiosas  e os ímpios que se afastaram de Deus e do Sagrado, com vidas dissolutas que terminaram no Dilúvio.

Um teólogo protestante do século XX como Bernard Ramm chama mesmo à Igreja bíblica, aos cristãos que regem a sua vida por Jesus Cristo e a Sua Palavra, a “Humanidade Renovada”.

A Poesia bíblica e “teológica” do “Paraíso Perdido”

O grande poema épico “Paraíso Perdido” de John Milton também nos dá, numa dimensão estética e poética, o contraste entre esses dois Homens de que Paulo escreve aos Romanos.

Escrito no século XVII, em 1667, em doze cantos, em verso branco, em memória à Eneida de Virgílio, o “Paraíso Perdido” é um longuíssimo poema que descreve a história da Queda, através da tentação de Adão e Eva por Lúcifer e a sua expulsão do Jardim do Éden. Inspirando-se no livro do Génesis, trata de demonstrar as preocupações puritanas do autor, face ao Pecado e à Redenção,  antes mesmo da sua poética e da inserção da Obra na Literatura Universal.

A temática epopeica resume-se, de acordo com as mais vulgarizadas sinopses,  a que Lúcifer (hoje mais conhecido como Satanás) – “O Dragão infernal, com torpe engano / iludiu a mãe da humana prole” – sabendo que uma nova raça irá ocupar o lugar dos anjos rebelados, resolve agir.

Deus prevê a perdição do homem e sua possível redenção, caso alguém se sacrifique por ele. O Filho oferece-se em holocausto, e o homem, mesmo antes da queda,  já se acha redimido.

E começa aqui a distinção entre o homem Adão e o Filho de Deus, enquanto homem, no sentido joanino de que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

O Poeta londrino (1608-1674) inicia a epopeia, invocando como de costume a “empírea Musa”, e conferindo relevo ao estado espiritual de Adão, a sua atitude interior:

 “ Do homem primeiro, canta (…) / A rebeldia – e o fruto, que, vedado, / Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo / A morte e todo o mal na perda do Éden”

Nestes versos percebe-se quem é o Eu poético e a fronteira que o delimitava na sua liberdade, demarcada por Deus, o “fruto vedado”.  E, depois, o efeito universal: a Morte, numa expressão sintagmática metafórica, o “mortal sabor”.

É nos versos seguintes que John Milton nos apresenta o outro Homem, com H maiúsculo.

“Até que Homem maior pôde remir-nos / E a dita celestial dar-nos de novo”.

Nesta descrição poética do Redentor, que não intervém apenas na história da Salvação, mas na própria História Universal, intui o leitor comum e o crítico literário uma referência poética ao libertador Moisés, como tal e como escritor bíblico do livro do Génesis, auxiliado pelo Homem maior, Cristo:

“Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo / Estarás tu, que ali auxílios deste / Ao pastor que primeiro aos escolhidos / Ensinou como do confuso Caos /Se ergueram no princípio o Céu e a Terra?”

Finalmente, nem sempre os grandes autores universais que procuraram no Sagrado estruturar as suas obras-primas,  estiveram isentos de erros. Milton abraçou muitas visões heterodoxas teológicas cristãs. Ele rejeitou a Trindade, na crença de que o Filho era subordinado ao Pai, uma posição conhecida como Arianismo.  Mas foi quase sempre interpretado como amplamente protestante.

 

 

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