Não há uma tabela valorativa de pecados

 

 

José Brissos-Lino

 

 

Tenho cada vez mais dificuldade em compreender a prática religiosa corrente de elaborar “catálogos de pecados”. Num primeiro momento ainda pensei que os mesmos fossem marca distintiva dos grupos religiosos mais conservadores, que pregavam “usos e costumes” há quarenta anos, mas percebi que não. Trata-se duma moda contemporânea.

Por que motivo será, para esses religiosos, a homossexualidade pior do que a mentira ou a inveja? Ou o casamento gay mais pecado do que o adultério? E porque serão ambos piores do que o falso testemunho ou a ira?

Tanto quanto posso entender não está estabelecida na Bíblia uma tabela valorativa de pecados. Nem sequer no tempo da velha aliança, pelo que podemos deduzir daquilo que escreveu Tiago na sua epístola: “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (2:10).

Mais. Se nos lembramos do pecado de omissão, segundo as Escrituras, pecado não é só o mal que se faz, mas também todo o bem que se deveria fazer e não se faz, por opção: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17).

Todos somos pecadores, mas apontar o dedo aos outros é sempre uma estratégia de defesa que dá muito jeito para acalmar a má consciência própria. Por isso é que o homem sábio é aquele que, em vez de apontar o dedo para os outros prefere perseverar na “lei perfeita da liberdade”: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecediço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tiago 1:25). Ou como, como disse Jesus: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão” (Mateus 7:5).

Mas há sempre quem prefira ser um olhador fugaz do espelho: “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era” (Tiago 1:22-24).

Creio firmemente que não existe qualquer suporte bíblico-teológico para considerar alguns pecados mais graves do que outros, em si mesmos, atendendo não às consequências mas à sua natureza intrínseca.

E se atendermos ao verdadeiro sentido do termo, pecado significa “errar o alvo”, isto é, falhar a vontade e o propósito de Deus para a nossa vida. Se dois arqueiros lançarem uma seta contra o alvo e um deles falhar a mouche e o outro nem sequer acertar no alvo, ambos falharam. Nenhum deles ganha o prémio. Sendo assim, notemos então o que diz João Evangelista: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34).

Por isso, lembremos as palavras do Mestre perante os acusadores da mulher adúltera: “Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela” (João 8:7).

 

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