Adoração é dádiva

 

Jorge Pinheiro

 

Há duas características que devem estar presentes em todo o verdadeiro crente:

  1. Procurar ter cada vez mais presentes em si as características de Deus, numa tentativa de se Lhe assemelhar e,
  2. em segundo lugar, agradar o mais possível a Deus, colocando-se ao Seu serviço, à Sua disposição.

E nestas duas características que o crente procura ver realizadas em si, temos estes dois conceitos de adoração e dádiva ou oferta.

Sem entrar na distinção entre “Adoração é oferta” e “Oferta é adoração”, que são duas ideias distintas e diferentes, podemos por agora considerá-las idênticas, porque o que nos interessa é mostrar a íntima relação existente entre estes dois actos que devem guiar a vida do crente: a adoração e a oferta.

Em Efésios 5:1, Paulo dizia: “Sede imitadores de Deus, como filhos amados”. Pedro, em 1 Pedro 2:21, dizia “Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo para que sigais as Suas pisadas”. Somos então chamados a imitar Deus e a tomar Jesus como exemplo. Todos sabemos que as exigências de Deus são humanamente impossíveis de cumprir. Com efeito, quando Ele diz: “Sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 20:7), todos sabemos como é impossível, por nós próprios, sermos santos. Mas Jesus resolveu-nos o problema, cumprindo as exigências de Deus e estabelecendo um exemplo para seguirmos. Isso quer dizer que, apesar das dificuldades no cumprimento desta ordem e deste desejo de sermos imitadores de Deus, temos a ajuda do Salvador Jesus.

Para além das muitas características de Deus, uma delas é que a Sua natureza é dar. E verificamos que dar é divino. Enquanto humanos, somos capazes de dar, uns mais que outros, uns mais facilmente que outros, mas todos nós sabemos quanto por vezes nos custa dar, sabemos que não damos de qualquer maneira, sabemos que há um limite ao nosso dar. Mas Deus quando deu, deu sem reservas, deu ilimitadamente, deu sem esperar retribuição, deu sem condições, deu sem recriminações, deu sem distinção. Qual de nós seria capaz de dar segundo a medida de Deus? Mas Deus deu. Senão vejamos: deu o jardim do Éden, representando toda a Sua criação, colocando-o à disposição do homem. Deu-nos a salvação, ofertando-nos o que de mais precioso tinha na corte celeste: Seu Filho Jesus. Finalmente, deu-nos o Salvador, sendo nós fracos, pecadores, inimigos, conforme lemos em Romanos 5:6, 8, 9.

Porquê e para quê Deus deu? Pelo menos por duas razões:

  1. Primeiro, porque é Sua natureza dar. Assim, Ele deu de acordo com a sua própria natureza: a natureza divina é em grande, à divina.
  2. Segundo, porque dar implica necessariamente um partilhar, um acto de comunhão. Quando se dá, dá-se para se ter comunhão. E Deus é um Deus de comunhão, um Deus que procura comunhão. Vemos isso logo no início da criação, quando Deus disse:“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”(Génesis 1:26). E Jeremias faz-se eco desta característica quando afirma: “E buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jeremias 29:13). Ora, o semelhante atrai o semelhante e é com este semelhante (o Homem) que Deus quer ter comunhão. Por isso, Ele deu.

Também connosco, quando damos, estamos a pôr em prática estas duas razões: damos segundo a nossa natureza e damos num acto de partilha, de comunhão. Ora, se queremos ter comunhão com Deus e se sabemos que devemos ser semelhantes a Ele, então a nossa oferta, a nossa dádiva para Lhe agradar deve provir de uma natureza que também agrade a Deus, porque os nossos actos, a nossa oferta revelam e trazem em si a nossa natureza. Daí que quando damos, devemos dar com um espírito, digamos assim, divino.

Por outro lado, ao darmos, estamos a manifestar desejo de comunhão. Se dizemos que damos a Deus, então estamos a confessar que queremos ter comunhão com Ele. O acto da oferta, da dádiva é um acto de comunhão, é um acto de profunda intimidade, porque só pode haver comunhão se houver intimidade.

Então, como dar e o que dar?

De certo modo, já respondemos à questão. Damos segundo um coração que agrada a Deus, damos segundo as características de Deus: de forma desinteressada, plena, num acto de gratidão e de comunhão. Damos aquilo que sabemos agradar a Deus, seja o nosso tempo, os nossos talentos, a nossa pessoa ou os nossos bens.

A dádiva, ou oferta, uma vez entregue, deixa de nos pertencer. Passa a pertencer àquele a quem foi ofertada, levando sempre consigo esta mensagem: quero ter comunhão contigo. Uma vez dada, a oferta deixa de estar sujeita às nossas condições, às nossas imposições. Essa responsabilidade passa a pertencer a quem recebe. E se damos a Deus, não temos de Lhe impor condições, sabendo que a nossa oferta está em boas mãos, porque Deus sabe bem o que fazer com ela.

No reino de Deus, toda a oferta, como tudo quanto fazemos, entra na categoria de sacrifício, entendendo por sacrifício tudo quanto passa a ficar debaixo da esfera do sagrado. E é nesta perspectiva que devemos encarar toda a oferta que entregamos na casa do Senhor: a minha oferta, a minha dádiva é um sacrifício. Não há diferença entre nós quando oferecemos uma dádiva, quando “sacrificamos” uma dádiva, e os sacerdotes levitas do Velho Testamento quando no altar sacrificavam ao Senhor.

E entra aqui a segunda característica do crente, de que falávamos no princípio: o desejo de agradar a Deus, colocando-nos ao Seu serviço. Este desejo transformado em acto é designado por adoração. Quando nos colocamos (a nós e a tudo quanto nos pertence) ao serviço do Senhor, estamos a adorá-Lo, porque adorar tem na sua origem e raiz esta ideia de “serviço”. Tanto o hebraico “bhoda”, como o grego “latreia”, usados para designar“adoração” significavam originalmente “o trabalho efectuado pelos escravos ou empregados”. Ora, nós somos servos, ministros de Deus e, como tal, prestamos-Lhe serviço. Todo o serviço prestado pelos escravos era acompanhado pela prostração. Daí a tendência de, quando adoramos o Senhor, nos prostrarmos na Sua presença.

Se adorar é servir e se dizemos que adoramos o Senhor, então estamos implicitamente a reconhecer que quem é o Senhor é Ele e não nós, que quem manda é Ele e não nós, que quem põe e dispõe é Ele e não nós, que quem deve ser o alvo de todas as atenções é Ele e não a nossa oferta, por muito valiosa que possa parecer.

Não há, então, adoração sem oferta. Porque se adorar é servir, só podemos servir quando oferecemos alguma coisa: a nossa força, os nossos talentos, a nossa pessoa, os nossos bens. Inversamente, a verdadeira dádiva, a verdadeira oferta do crente é sempre um acto de adoração, porque estamos a colocá-la ao serviço do Senhor.

E se dizemos que O adoramos, que O servimos, então, como já se afirmou atrás, estamos a reconhecê-Lo como Senhor, como aquele que manda. Então, se Ele nos manda dar uma dada oferta, só nos resta obedecer-Lhe.

Para terminar, nesta ligação entre oferta e sacrifício, é interessante notar que sempre que lemos em Levítico alguma referência a um sacrifício de qualquer tipo, lemos sempre que o crente que ia sacrificar, levava a sua oferta (Levítico 1:3; 2:1; 3:1; 4:14, 23, etc.).

Se vivemos na dispensação da Graça, a nossa atitude de coração não deve ser menor do que a do povo de Israel. E podemos ter a certeza de que quando sacrificava ao Senhor, Israel ofertava com reverência e temor. O nosso sacrifício não pode caracterizar-se por ser menor, porque não somos filhos de um Deus menor.

 

 

Fonte:Reflex. 

 

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