Daqui a uns anos encontrar Deus

 

 

 

© João Tomaz Parreira

 

 

O principal filósofo português vivo, José Gil, em entrevista recente ao jornal  diário “i”  à pergunta “ficaria surpreendido se daqui a uns anos encontrasse Deus”, respondeu que “interessei-me muito pela questão de Deus (…) como exploração de uma série de limites do pensamento filosófico”.

Deus fechado (gosto mais do termo poético italiano chioso), nos limites do pensamento filosófico como uma questão. Uma questão de existência ou inexistência. E do ponto de vista da probabilidade humana, uma questão temporal de, daqui a alguns anos, encontrar ou não encontrar Deus.

Afinal, um “Deus absconditus” numa esquina do caminho da vida do homem. É verdade que este conceito antes de ser da teologia luterana e depois de Karl Barth, é do precursor profeta Isaías, que mais do que outro qualquer entendeu Deus no que haveria de ser o Cristianismo; escreveu ele “Verdadeiramente tu és Deus misterioso” (45,15). No entanto, na mesma afirmação de doxa (glorificação), abre a porta ao ser humano, declarando “ó Deus de Israel, ó Salvador”.

Este conceito é fundamental não para uma desesperança, todavia para percebermos a insondável e a incomensurável diferença entre Deus e o Homem, Sua criatura.

A divindade manifesta-se de uma forma que não viola a liberdade do homem, trazendo em si a mensagem de que a fé continua a ser uma escolha. A chave para todo o conteúdo da teologia cristã, o recurso fundamental para o nosso entendimento sobre Deus, o Deus Absconditus de Lutero, por exemplo, é que Deus revelou-se e para o crente/cristão, é Deus-em-Cristo.

Não obstante, Deus continuar a ser procurado por diversos meios. E perante isso temos que concluir que o homem é uma criança que no jardim-escola tenta soletrar o nome de Deus com letras erradas.

Numa prelecção sobre “Introdução à Teologia Evangélica”, Karl Barth, em 1962, ensinava que um dos “empreendimentos humanos” é tentar “perceber, compreender e interpretar “Deus”. Mas ao termo “Deus” poderão ser atribuídos os mais variados sentidos” Assim, deveria haver – segundo Barth- “uma multiplicidade de teologias”.

 

A teologia deficiente na Literatura

Tome-se como exemplo, uma das mais célebres peças do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), “Bruscamente no Verão passado”. A fala retrospectiva, retomada de uma personagem que morreu e não entra na peça senão pela sua vida contada pela mãe, diz que “ (o filho) andava à procura de Deus”, nas Galápagos, “uma imagem clara e nítida de Deus”.

Diz a Senhora Venable que o filho viu-O na imagem do céu carregado de pássaros negros que se abatiam sobre as recém-nascidas tartarugas que, na praia, procuravam alcançar o mar após terem saído dos ovos.

Não era Deus, como se vê, era um espectáculo da natureza, de como a natureza é dura. A evidência da dureza natural da Criação após a Queda do Homem.

Outro exemplo, retirado do romance “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio (1901-1978), sendo o romance da açorianidade, enquadra as festas do Senhor Santo Cristo e do Espírito Santo, a religiosidade que se transmuta nestas festas às vezes roça o paganismo, o romancista escreve: “O próprio abuso dos «foliões» trajando a opa dos bobos e dançando a toque de caixa, em plena capela-mor, foi reprimido a custo. A alma do ilhéu é cândida e tenaz: quer um Deus vivo e alegre.”

Por último e numa pretensão de dialogia, isto é, dar vida a um diálogo, a uma polifonia da observação de autores diversos. Um poeta norte-americano, bastante controverso no que escreveu e pela escola que representava, e pela boémia homossexual que viveu, Allen Ginsberg, escreve um dolorido poema, um kaddish, dedicado à sua falecida mãe Noemi, onde trata o pensamento sobre Deus, numa perspectiva de narrativa evangélica, sendo ele de origem judaica:  “durante 3 décadas o evangelista pregou loucamente(…) / escreveu a giz, no passeio cívico, Prepara-te para Te Encontrares com o Teu Deus”.

O grande problema vital do homem, não é cogitar se Deus existe, é no mais profundo do seu Ser, saber que tem, um dia, de se encontrar com Deus. Deus é certo.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s