Deixados para trás

 

David Raimundo

Também eu fui vítima da saga Deixados Para Trás (Left Behind). Nunca li os livros, mas creio que vi dois dos filmes dessa saga inqualificável. É que os filmes são maus por disseminarem teologia altamente duvidosa e também porque ao nível cinematográfico são deprimentes. (A pontuação no IMDB mostra bem a consideração que o público em geral tem pelos filmes.)

Esta saga baseia-se na doutrina do arrebatamento e, para quem não souber do que estou a falar, aqui fica uma tentativa de explicação: extrapolando algumas passagens bíblicas, algumas correntes cristãs desenvolveram a crença de que Jesus Cristo virá num ápice arrebatar a Igreja – a comunidade universal daqueles que são salvos pela fé em Jesus Cristo. Crê-se que este acontecimento será assombroso, apocalíptico no sentido mais negro da palavra: o arrebatamento significa que os salvos desaparecem da Terra num ápice, os seus corpos são transformados e eles estarão no céu, na presença de Deus. O arrebatamento será terrível: imagine-se uma mãe a amamentar o bebé e de repente o bebé desaparece; imagine-se um avião pilotado por um salvo que de repente fica sem piloto; um comboio que é dirigido por um maquinista salvo e que de repente fica entregue a ninguém… Será o caos! Acidentes, colisões, aviões despenhados, famílias desesperadas. Os que não são salvos, serão deixados para trás, abandonados à sua sorte num mundo caótico, do qual a Igreja e o Espírito Santo já se retiraram e a presença de Deus já não se manifesta. É isto o arrebatamento!

Note-se que a crença no regresso de Jesus Cristo (a segunda vinda de Cristo) é praticamente transversal a todos os cristãos, mas a forma que esse regresso assume é objeto de diferentes perspetivas teológicas. A doutrina do arrebatamento é uma das perspetivas mais bizarras que eu conheço (até porque os crentes nesta doutrina acreditam, na prática, numa segunda vinda e também numa terceira vinda de Cristo). Também é bizarro que seja extremamente popular em alguns meios evangélicos (provavelmente havendo aqui alguma relação com os elementos platónicos que o cristianismo incorporou).

Podia entrar aqui na questão da análise dos textos bíblicos que são usados para justificar a crença no arrebatamento (sendo que, na verdade, toda a crença assenta numa interpretação particular de um único versículo), mas não é esse o propósito deste texto.

O propósito deste texto é contestar essa ideia de que Deus deixa pessoas para trás. Deixar para trás é um atributo humano. Sou eu que deixo pessoas para trás. Sou eu que não espero pelo outro, que não caminho com o outro, que não me dou ao outro. Consigo identificar momentos da minha vida em que aquilo que fiz é, de facto, bem sintetizado por essa expressão: deixei para trás. Guardo em mim a tristeza e o remorso porque nesses momentos não fui aquilo que gostava de ser: não me comportei à imagem e semelhança do Meu mestre. Não levei a carga do outro. Não tive a paciência, a determinação e, sobretudo, o amor para acompanhar o meu próximo, para abrandar o meu ritmo e caminhar com aqueles que vão mais devagar. Não amparei o desamparado. Sim, na minha vida já deixei pessoas para trás. É isto que eu faço. É esta a minha velha natureza que Deus está a regenerar.

É isto que nós, homens, fazemos: deixamos para trás. Mas em Deus encontramos outranatureza: o Deus que a Bíblia nos dá a conhecer é um Deus que se dirige à humanidade com a sua mensagem de redenção e de esperança; e quando a humanidade não ouve, Deus não a deixa para trás. Pelo contrário, ele faz-se humanidade, faz-se um de nós, para que o pudéssemos conhecer, perceber, ter uma imagem nítida do seu carácter. Ele é o Deus que se diz Bom Pastor, que guia pacientemente as suas ovelhas e que sai em busca daquelas que se perdem. Ele é o Pai Amoroso que todos os dias anseia o regresso do Filho que, esse sim, o deixou para trás.

É este o Deus revelado em Jesus Cristo: vem ao nosso encontro, interpela-nos, caminha connosco, ampara-nos, é paciente quando tropeçamos e, se necessário, até nos carrega ao colo… deixar para trás? Não. Não reconheço em Jesus Cristo esse deus que deixa pessoas para trás. Esse é um deus em quem é projetado aquilo que nós homens fazemos. É um deus feito à nossa imagem e semelhança.

O Deus revelado em Jesus Cristo é toda uma outra cena!

 

Fonte: Dear Sir, I Am.

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