Savonarola: “mordo duramente e sem piedade os poetas”

 

 

 José Brissos-Lino

 

Jerónimo Savonarola (1452-1498), frade dominicano, que era apelidado pelos seus seguidores cultos como o “Sócrates de Ferrara”, e por outros como “profeta de Deus”, tornou-se conhecido dos historiadores como um dos últimos exemplos do homem medieval.

Segundo José Augusto Mourão ele representa o “apocalipse da metafísica”, num tempo em que um certo humanismo “preferia os poetas aos profetas”.

Temeroso dos novos tempos, numa Florença renascentista, Savonarola terá optado pelo pessimismo trágico, confundindo um esforço de crítica e de reforma moral com a eventual chegada de novas religiões ou cultos, proclamando firmemente o conceito de um Deus veterotestamentário, dando assim lugar à cólera “santa” (thumus), a paixão pela justiça.

No ensaio “A função da Poesia” (Ed.Vega, 1993), Savonarola levanta-se contra os poetas, partindo do princípio de que a poesia lisonjeia a parte infantil dos indivíduos, de forma perversa. Mas o seu problema maior é que os novos tempos representam a ruína do edifício dogmático.

Discorrendo sobre a natureza da arte e das ciências, Savonarola chega a afirmar que a astronomia “é mais digna do que a perspectiva e a música” por se dedicar a um objecto mais nobre e ser mais exacta… Reduz ainda a utilidade das ciências “profanas” para a religião cristã à “contemplação de Deus”, que é “a perfeição última do homem”.

Classifica a arte poética no campo da filosofia racional, e nem mesmo quando confrontado com os profetas que descreveram em verso as realidades divinas se deixa acalmar, justificando que o terão feito apenas “para ganhar os espíritos corrompidos dos homens”. O mesmo em relação a alguns católicos que reescreveram em verso os Evangelhos e partes do Antigo Testamento, pois tê-lo-ão feito apenas para “esmagar a arrogância” dos poetas mais pomposos…

Ainda relativamente ao apóstolo Paulo, que citou poetas gregos nos seus escritos, o autor minimiza o facto, por ter sido raro.

Savonarola pergunta mesmo porque razão os príncipes não promulgam de vez uma lei que ordene que os poetas sejam expulsos das cidades, visto que as suas obras são “carnais e diabólicas” fazendo com que os homens se desapeguem do espírito.

Chega ao ponto de afirmar que só o Espírito Santo terá impedido S. Jerónimo – muito hábil na eloquência profana – de ornamentar os relatos e revelações divinas com citações de Cícero e de Virgílio, quando traduziu as Escrituras, dando à luz a Vulgata Latina.

Apesar de tudo, e embora a arte seja antes de tudo uma pura sedução dos sentidos, no entender de Platão, o facto é que S. Agostinho celebra o filósofo grego como o pai da teologia.

O grande problema de Savonarola é o da abertura cultural da sociedade para lá do universo paroquial, da evolução das artes, das ciências e da liberdade do pensamento impulsionados pela Renascença.

Não conseguia compreender como a arte poética se exprimia com o recurso a referenciais originários da mitologia pagã. Por cá também Camões se arriscou a ver a sua obra-prima vetada pelo censores do Santo Ofício devido à “fabula dos deoses”, ou seja, a invocação da mitologia pagã, em linha com os clássicos.

Savonarola era um homem doutro tempo que não foi capaz de se enquadrar na sua contemporaneidade.

 

 

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Savonarola, Jerónimo, A função da Poesia, ed. Vega (1993).

Lino, Brissos, BARA – revista cultural, nº. 7, Set./Dez. 1981, ed. BARA.

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