O Estado Islâmico e a destruição cultural

Além da destruição, arqueólogos suspeitam que os jihadistas estejam a vendê-los no mercado internacional ilegal de antiguidades
Diogo Vaz Pinto
Historiador diz que jihadistas são os tiranos pós-modernos, filhos da besta tecnológica que pariu filmes snuff, jogos de guerra, YouTube e Google

Como um dos mais abalados berço da humanidade, por todo o Médio Oriente há exemplos de tesouros arqueológicos da antiguidade que foram despojados da sua glória original, quer vandalizados quer destruídos. O que os fanáticos do Estado Islâmico fazem por estes dias com um ódio ou absoluto desprezo choca exactamente porque esse é claramente o efeito pretendido. Mas não é de hoje este apetite de destruição, há muito que os extremistas muçulmanos fizeram um hábito de tentar destruir as provas físicas de que outras fés mereceram devoção antes das suas. Em Março de 2001, os talibãs afegãos anunciaram que iam destruir os ancestrais Budas gigantes de Bamiyan. Ameaçaram e fizeram-no, servindo-se de explosivos e de artilharia. Ao longo da última década, nem se tratou muitas vezes de ódio, bastou a especulação imobiliária, com os sauditas, guardiães de tantos lugares de culto muçulmanos, a arrasarem centenas de locais históricos nas cidades de Meca e Medina para dar espaço a novas construções, incluindo centros comerciais e hotéis.

As leituras sobre o que é o progresso variam necessariamente segundo os diferentes pontos de vista. Contudo, as reacções de indignação e até desespero que causaram as imagens divulgadas pelos jihadistas da sua campanha iconoclasta no Iraque, com a destruição de Nimrud considerada o berço do primeiro Estado da Humanidade, Hatra, a capital do primeiro império árabe, e Dur Sharrukin, capital do Império Assírio, e da colecção do Museu de Mossul. Os vídeos que o departamento de marketing do EI edita com o habitual esmero cinematográfico, mostra os extremistas com martelos pneumáticos e perfuradoras, num esforço metódico para destruir esculturas e estátuas com quase três mil anos em Nimrud, ou os templos de Hatra, erguidos pelo Império Selêucida dois ou três mil anos antes de Cristo.

O historiador da Columbia University, Rashid Khalidi, disse ao “Boston Globe” que se os massacres, o caos e o terror têm um impacto que reverbera ao longo de décadas, os esforços que reduzem a escombros o legado físico de um grupo ou povo roubam-no da sua identidade e memória. Segundo ele, o EI está empenhado em forjar uma visão a-histórica da sociedade, procurando apagar todos os traços da multiplicidade de credos e religiões que deixaram as suas marcas no Islão.

Tradicionalmente, a história viu os povos conquistadores absorverem as populações que submetiam, incorporando a sua arquitectura, cultura e até algumas das suas divindades ou cultos. Mas para os jihadistas é fundamental apagar o registo histórico. Declarada a morte e a guerra a tudo o que se contraponha aos seus ideais, Khalidi classifica a evolução que o terrorismo conheceu com a passagem do radicalismo da Al-Qaeda para o ultra-radicalismo do EI como um fenómeno inerente à pós-modernidade. “São os tiranos pós-modernos. Isto são pessoas que cresceram no ventre da besta: os filmes snuff, os jogos de guerra, o YouTube, o Google, a besta tecnológica. Não se trata de uma besta do Médio Oriente.”

Mas passar com bulldozers sobre as insubstituíveis concretizações de antigas civilizações não é apenas a última tendência da sua campanha para atrair a atenção dos media por todo o mundo após terem recorrido primeiro às decapitações, aos vídeos com as suas vítimas imoladas, às centenas de pessoas indefesas alinhadas e executadas, os homossexuais atirados do cimo de muralhas. Não é apenas uma nova estratégia de relações públicas. A destruição de alguns dos maiores tesouros arqueológicos e culturais do mundo é um ambição que advém de uma interpretação purista e fanática do islamismo sunita como este foi inicialmente concebido no século VII e reabilitada mais de um milénio depois.

Nas suas raízes, o Islão definiu-se contra a era de jahiliyyah (ignorância) que precedera o profeta Maomé. Este pregou a destruição dos ídolos em nome do monoteísmo como já antes dele o fizera o patriarca judeu Abraão – daí a proibição no Velho Testamento de esculturas e estátuas. As duas religiões promoviam a iconoclastia em serviço de um único Deus. Já os cristãos, que tinham Jesus como a encarnação de Deus, assumiram uma atitude bem mais relaxada na interpretação deste ditame.

O Islão seguiu o seu caminho e a certa altura surgiu no seu seio o movimento Wahhabi, fundado por Muhammad ibn Abdel Wahab, no século XVIII, e que tinha como objectivo purificar a fé levando os muçulmanos de volta ao que acreditava serem os princípios originais como foram expostos pelos al-salaf al-salih (os pios predecessores). Abdel Wahab também reavivou o interesse nas obras do erudito do século XIII Ibn Taymiyyah, que passou a ser encarado como o mentor da visão salafista-jihadista, e da doutrina da takfir, que admite o assassinato dos apóstatas.

A influência do Wahhabismo determinou que 90% de todos os monumentos islâmicos, lugares de culto, túmulos e mausoléus da Península Arábica fossem destruídos por serem considerados “politeístas”. Em 1924, Abd al-Aziz ibn Saud ocupou Meca e o túmulo de Khadijah foi destruído, o túmulo da mulher do profeta destruído, e o do seu tio, Abu Talib. Em Medina, foi o mausoléu com as sepulturas dos descendentes do profeta, incluindo o da sua filha, Fátima.

Há fortes motivos para toda a população muçulmana moderada recear que a sua identidade e história está sob ataque. É curioso o facto de o departamento do EI responsável pela destruição dos artefactos arqueológicos se chamar Comité para a Promoção da Virtude e Prevenção do Mal – o mesmo nome que tem a instituição saudita encarregue de fazer respeitar a moralidade. Numa altura em que as milícias sectárias dominam o Iraque e a Síria, há rios de dinheiro a desaguar sobre os movimentos que promovem as diferentes linhagens intolerantes que descendem do Wahhabismo – a orientação ideológica do EI. Este dinheiro vem da Arábia Saudita. E a ameaça vai para lá dos territórios ocupados pelos jihadistas na Síria e no Iraque.

No Egipto, por exemplo, os xeques salafitas defendem a demolição das pirâmides e das esfinges, ou que sejam cobertos com cera os rostos das estátuas faraónicas, actos de iconoclastia que uma fatwa de 2012 apoiava. Tudo isto são sinais de que as identidades seculares e nacionalistas no Médio Oriente estão a desvanecer-se, com as religiões intolerantes a imporem-se no seu lugar.

 

Fonte: Jornal I.

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