A morte com interrupções, em José Saramago

 

“No dia seguinte ninguém morreu.” E as consequências éticas, filosóficas, religiosas do desajuste da demografia mundial estavam lançadas, por ninguém morrer. Trata-se aqui do início da intriga ficcional do romance As Intermitências da Morte» (2005), de José Saramago, que repetiu, formalmente, o seu estilo na pontuação e no uso de minúsculas.

O Prémio Nobel da Literatura português previu ficcionalmente um facto contrário às normas da vida, a ausência da morte. Contrariamente a outras declarações suas pessimistas, estava a contradizer uma observação comum à década de 40 do escritor argelino Albert Camus, segundo o qual «os homens morrem e não são felizes». Saramago, falecido em 2010, gostava a seu modo de elaborar uma escrita sobre absurdos.

Desde que a sua literatura começou a ser prolífica e marca de griffe editorial, que José Saramago teve sempre uma tendência para surrealizar o que ele mais contesta, a religião cristã, o que não poderia suportar, a “solução Deus”, e por isso dizia que Deus “é o problema”. Em entrevista ao Diário de Notícias (5/11/2008), afirmou que a Igreja “está em toda a parte e meteu-se nas nossas vidas e não quer sair”. Segundo o escritor ela “tem uma obsessão moldadora”.

Portanto, não tomando a religião cristã pela alegoria da caverna de Platão (que glosou noutro romance), isto é, pelas sombras, reinventa-a em algumas realidades teológicas que são conteúdo incontornável do Cristianismo. É inegável que a sua boa escrita no plano científico da crítica literária, não sejamos preconceituosos, surpreende, também por incomparável.

Evidenciando conhecer a Bíblia, não o poderemos negar, o autor do Evangelho Segundo Jesus Cristo gostaria de “desmitologizá-la” como em certo sentido o fez Rudolf Bultmann, o téologo, no que concernia aos Evangelhos. Como se estes fossem um tratado de mitologias que era necessário ajustar ao mundo moderno, usando para tanto um programa de desmitologização do evangelho, por exemplo, por em dúvida factos da vida de Cristo. Por vezes, subvertê-los, porque não queria nada de sobrenatural e não podia basear-se em outra explicação que não fosse o seu ateísmo militante.

Desta forma, no seu “Evangelho Segundo…” coloca um facto central do Cristianismo, Cristo na Cruz.

Todavia, mistura-lhe um acontecimento diverso e doutra ocasião, a voz do Pai Celestial fazendo-se ouvir entre nuvens “Este é o Meu filho amado em quem me comprazo”, e, por fim, altera todo o evento expiatório da Salvação, invertendo e mutilando uma das mais fundamentais palavras pronunciadas na cruz por Cristo: “Homens, perdoem a meu Pai, porque Ele não sabe o que está a fazer.”

Aqui está uma inversão blasfema, um reducionismo da crucificação a um mero caso de equívoco, uma humanização absurda do Divino. A qual pretende colocar aqui o problema da humanização da Divindade ainda que seja através de metáforas sob a capa da literatura. Há na realidade, escreveu alguém, no escritor português José Saramago, uma fonte vasta de inquietantes questões e esse livro destinava-se à problematização de algumas delas, como: A literatura humaniza o Divino ou diviniza o homem? Os textos bíblicos são ditames santos ou literatura santificada?

Mas é precisamente nesta área que Saramago gostava de elaborar ficcionalmente. Gostava de embaraçar os sentimentos de alguns leitores e de estabelecer contrastes. E o que pensa ser mito prefere destruí-lo e reconstruir com outro mito, a que chamava, em alguns casos, metáfora.

Era desta capacidade de Saramago para o câmbio de valores, para lograr estabelecer inversões, para a efabulação e subversão de realidades enraizadas no património cultural e religioso dos cristãos, estejam estes no Leste ou no Oeste, que se falava com muito ruído no ano de 1992. O barulho aconteceu quando o romance de José Saramago “Evangelho segundo Jesus Cristo” foi cortado da lista dos concorrentes ao Prémio Literário Europeu, pelo Subsecretário de Estado da Cultura de então, Sousa Lara. Este nem teve sequer necessidade de recorrer a um dos Salmos (53,1), onde se afirma que “o insensato diz no seu coração: Não há Deus”.

Pode ter sido um acto a roçar uma censura, admitimo-lo nessa altura, mas não tão execrável quanto isso, tomando em linha de conta as explicações do governo da época: “A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os.” A verdade é que alguma coisa do que escreve e diz o autor de Ensaio sobre a Cegueira, longe de unir, divide.

De resto, como escritor, era a sua marca de água. O tradicional anúncio do Prémio Nobel feito pela Academia, que caracteriza autor e obra galardoados, disse em 1998 acerca de Saramago, que se tratava de um romancista que “com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia continuamente, nos permite apreender uma realidade indefinível”.

Comecemos pelo fim, pela morte, no seu conceito judaico-cristão. O filósofo inglês Bernard Williams, o mais importante da filosofia da moral do século XX, argumentou um dia que a vida eterna seria tão entediante que ninguém podia aguentar. De acordo com ele, a constância que define uma eterna auto-existência implicaria um infinito deserto de experiências repetitivas. Baseou-se numa peça teatral de referência de um autor checo da década de 20, Karel Cepek, que criou uma personagem Elina Makropulos, de 342 anos, que tendo bebido o elixir da vida eterna desde os 42 anos, opta por deixar de tomá-lo e morre. Ambos, dramaturgo e o filosofo moralista, defenderam o chamado tédio da imortalidade.

As Sagradas Escrituras, de uma forma lapidar, estabelecem que ao “homem está destinado morrer uma vez, vindo depois disso o juízo”, o apóstolo Paulo apontou a causa, ao dizer que o “salário do pecado é a morte”. José Saramago preferiu efabular sobre o fim inesperado da Morte. Dir-se-ia a morte da Morte.

Acercando-se deste aspecto da desconstrução de um facto, a revista The New Yorker publicou uma crítica literária à tradução do livro “Intermitências da Morte” nos Estados Unidos. Segundo o articulista, a obra resume aquela tese de Williams segunda a qual a vida precisa da morte para fazer sentido – a morte é apresentada como o período negro que ordena a sintaxe da vida. A ironia do titulo da peça jornalística “Death takes a holiday” (“A morte tira umas férias”) em conjunto com a simplificação do titulo da obra traduzida de Saramago, “Death with Interruptions”, traduzem o sentido irónico e que altera a ordem ou o estado de coisas que o escritor utilizava para perverter um conjunto de dogmas que, partindo da ideia da morte, valorizam valores doutrinários da religião cristã.

Em síntese, entre outras finalidades de carácter literário, ficcional, o ataque a esse conjunto de dogmas não é a menor. As funções da igreja, a doutrina da ressurreição, a utilidade da pregação, etc.

Sem margem para dúvidas, a páginas 21, escutamos a conversa telefónica entre o “primeiro-ministro” e a “Eminência”: “Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja:.. como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim”.

Saramago tentou reescrever a história do Sagrado sob o prisma do fantástico e da ficção especulativa como se fossem os mais prováveis acontecimentos. “Dá-lhes uma sólida interpretação literal” – assevera o crítico da revista nova-iorquina.

Nós acrescentamos: pelo próprio ateísmo em que viveu e escreveu Saramago, ainda que não pudesse fugir a escrever muitas vezes o vocábulo “Deus”, fosse em maiúsculas ou letra pequenina.

 

© João Tomaz Parreira

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