Imago Dei

 

“Mesmo quando soterrada pela maldade, cada pessoa carrega a Imago Dei, a Imagem de Deus, e essa dádiva não pode se perder. Cristo veio buscar e salvar os esmagados pelo mal para fazer ressurgir a sua glória, impressa nos corações.”

(Ricardo Gondim)

 

Há temas que são de desconfortável abordagem para um evangélico. Coisas que sempre se ouviram ensinar da mesma forma e que parece quase heresia questionar. Mas o facto é que a minha perspectiva de vivência cristã passa exactamente pelo questionamento permanente das bases da nossa fé, sob pena de ela se tornar uma tradição sem substância e deixar de ser um fundamento, uma certeza.

Vem isto a propósito da condição que diferentes ramos do Cristianismo atribuem aos homens: somos apenas criaturas de Deus ou filhos de Deus?

Os católicos sustentam uma visão universal. Consideram que todos os seres humanos são filhos de Deus. Os evangélicos não. Consideram que só têm o direito de ser chamados dessa forma aqueles que aderiram à fé cristã, com base na escritura do Evangelho Segundo S. João: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no seu nome.” (1:12).

Como a ênfase evangélica da economia da Salvação vai para o acto da conversão pessoal a Deus e subsequente caminhada cristã, não se compreende, nos meios evangélicos, a perspectiva católica da identidade de filho de Deus, generosamente atribuída com um carácter universal. Defende-se então que todo o ser humano é apenas uma “criatura de Deus” antes da metanoia (processo da conversão pessoal a Deus, através do acto de fé e vontade, com base no sacrifício vicário de Cristo). E só depois da metanoia passa a poder ser chamado, com direito, “filho de Deus”.

Sabemos que a expressão bíblica “filho de” significa “da mesma natureza de”. Logo, a questão central é esta: o ser humano é ou não da mesma natureza (moral e espiritual) de Deus? E se é, então porque não pode ele ser chamado “filho”, com todo o direito.

Como se pode ver, tal reflexão transporta-nos inevitavelmente à questão agostiniana do pecado original e à Queda.

Quando o ser humano caiu da graça divina, e foi despojado da glória de Deus que o revestia (Romanos 3:23), por influência directa do pecado, tornou-se no quê, afinal? Qual a sua essência ontológica?

Horácio, na sua visão antropológica pagã, dizia que o homem é apenas “pó e trevas”. Freud anui a essa visão depressiva e profundamente negativa. Carl Rogers, porém, tem uma visão do ser humano muito mais positiva, chegando a preconizar o paradigma da pessoa “plenamente funcionante”.

O Apóstolo Paulo, na linha de Agostinho, e provavelmente a fim de exaltar a excelência do perdão, da misericórdia e da Graça divinas, pinta com tintas o mais negras possível a natureza humana decaída: “(…) onde o pecado abundou, superabundou a graça!” (Carta aos Romanos, 5:20b)

Digamos que tudo depende da perspectiva. Voltamos à velha história do copo meio vazio, para uns, e meio cheio para outros.

Apesar do trauma precoce sofrido, por efeito do pecado, a verdade é que o ser humano nunca deixou de transportar em si a marca de Deus, a imago Dei. E nesse sentido, mesmo que longe do Pai e mergulhado na imundície (qual filho pródigo antes do regresso à casa paterna), não se pode dizer que não seja filho de quem é.

O toxicodependente, ainda que abandonado, deserdado e ignorado pelos próprios pais, não continua a transportar nas veias o mesmo sangue e os genes paternos?

O que o momento do regresso, do arrependimento, da metanoia, faz é restaurar no filho perdido e entretanto achado, as marcas da dignidade filial que haviam ficado pelo caminho (o banho, a túnica, o anel, as sandálias, o banquete), assim como a comunhão com o Pai.

Aliás, creio ser exactamente por essa razão, por reconhecer a marca de Deus em todo o ser humano, que a cultura ocidental baniu a escravatura, a pena de morte (quase por completo), e revestiu de sacralidade a vida humana, independentemente do carácter pessoal ou merecimento específico dos indivíduos em questão. Isso acontece justamente porque a cultura ocidental, estribada em fundamentos judaico-cristãos, reconhece em todo o ser humano a imago Dei.

Considero, portanto, que os católicos enfatizam mais a imago Dei presente em todo o ser humano, e os evangélicos, mais vulneráveis ao que Ricardo Gondim chama o “pessimismo antropológico”, enfatizam sobretudo a metanoia, ou seja, a restauração da glória divina no indivíduo.

Por isso não me enquadro exclusivamente em nenhuma das “linhas”.

Considero que todos somos filhos de Deus, do ponto de vista da Criação, pois todos os seres humanos são e foram criados à Sua imagem e semelhança. Mas considero filhos, do ponto de vista da Redenção, apenas os que experimentaram uma metanoia.

Se quisermos dizer de outro modo, todos os seres humanos são filhos de Deus, mesmo que o ignorem, escarnecem ou sejam rebeldes para com Ele, pois não poderiam apagar a marca divina (a imago Dei) plasmada na sua humanidade, mesmo que o quisessem.

Mas só têm o prazer da comunhão com Deus os que a Ele se chegam, e o reconhecem e respeitam como Pai.

 

José Brissos-Lino

 

 

 

 

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