O rei vai nu, ou a desconstrução do argumentário proteccionista

 

Quando alguém procura estabelecer princípios de ética bíblica, decorrentes da Palavra de Deus, depara muitas vezes com reacções aparentemente piedosas, traduzidas por argumentos estafados, como os exemplos que se seguem.

Argumento da legitimidade

A Bíblia diz que não devemos julgar.

Sim, mas refere-se a julgar pessoas, o que só compete a Deus. Mas então e quando se trata de doutrinas? Aí sim, podemos e devemos julgar.

A comunidade cristã de Bereia analisava cuidadosamente o que lhe era ensinado: “E logo os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Bereia; e eles, chegando lá, foram à sinagoga dos judeus. Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalónica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim (Actos 17:10-11).

Um dos carismas ou dons do Espírito Santo é a capacidade de “discernir os espíritos” (1 Coríntios 12:10), justamente para sermos capazes de distinguir entre o que tem origem divina e o espírito do engano.

Paulo exortou Timóteo a repreender, exortar, corrigir as comunidades cristãs, de forma a manter a sã doutrina (2 Timóteo 4:1-5). O Novo Testamento alerta para os falsos profetas (Mateus 24:11) e as falsas doutrinas ou heresias (1 Timóteo 1:3; 1 Coríntios 11:19).

Devemos julgar, sim, não o coração das pessoas, mas as suas doutrinas e práticas.

Argumento da permissividade

Isso é falta de amor.

Não, não é. O verdadeiro amor corrige. Deus corrige-nos porque nos ama: “o Senhor corrige o que ama” (Hebreus 12:6). Nós corrigimos os nossos filhos porque os amamos: “Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija?” (Hebreus 12:7).

Podemos e devemos admoestar-nos uns aos outros: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração” (Colossenses 3:16).

Há casos em que comunidades locais de fé inteiras são convocadas ao arrependimento, ou porque perderam o primeiro amor (Apocalipse 2:5), ou porque se desviaram da verdade e se deixaram seduzir, entrando nos caminhos da apostasia (3:19).

Argumento emocional

Não devemos dizer nada, porque as pessoas têm sentimentos.

Os sentimentos das pessoas são mais importantes do que a Verdade? Por isso é que se deixou de pregar “todo o conselho de Deus” (Actos 20:27) nas igrejas, e a necessidade de arrependimento e conversão.

Os sentimentos de uma pessoa a quem amamos ou estimamos impedem-nos de a chamar à razão, quando necessário, para seu próprio bem? A Bíblia ensina-nos a não sobrevalorizar os sentimentos, pois não andamos pelo que vimos ou o que sentimos, mas sim por fé (2 Coríntios 5:7). No homem espiritual os sentimentos estão sujeitos ao espírito e não o contrário. O inverso não é cristianismo mas humanismo.

O argumento social

Devia ter falado com a pessoa primeiro.

Este princípio aplica-se em casos de reações interpessoais. Se estou ofendido com alguém, se alguém pecou contra mim, então devo ir ter com ele para esclarecer as coisas, eventuais mal-entendidos e poder libertar perdão (Lucas 17:3). Entende-se que se aplica particularmente quando existe alguma relação pessoal.

Mas já não se aplica quando se afirmam princípios escriturísticos gerais, porque defender princípios e a sã doutrina é coisa diferente de uma censura pessoal.

O argumento demonológico

Isso só facilita a vida ao diabo.

É um argumento perigoso. Os fariseus usaram-no abundantemente contra Jesus. No limite pode ser usado para tentar fazer calar quem discorda de nós, quando não nos agrada a argumentação do interlocutor, independentemente da sua justeza.

Mas já agora, e utilizando a mesma linha de argumentação, desde quando desmascarar a obra das trevas, a “operação do erro” facilita a vida ao diabo?

Conclusão

Vivemos hoje numa cultura pimba, por assim dizer. Uma mentalidade (e uma estética) centradas na superficialidade e não na substância das coisas, preferindo a maioria das pessoas ficar-se pela espuma dos dias. É assim com os programas de televisão, as conversas e os interesses. Mas se somos seres espirituais maduros e eternos, podíamos e devíamos focar-nos mais no miolo e não tanto na casca.

Todos os argumentos acima descritos revelam uma estratégia de fuga. Fuga a pensar e a discutir o essencial, preferindo-se o efémero. Em linha com o espírito deste mundo. Esta é uma armadilha em que nenhum cristão deveria cair.

Por vezes é preciso que alguém diga, para surpresa de muitos, que o rei vai nu. Nem que seja uma simples criança a fazê-lo, tal e qual como na velha estória infantil.

 

José Brissos-Lino

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